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III That's Life

Sábado, 10.03.12

O guarda-redes está a ver se descobre qual é o canto da baliza que o jogador quer atingir, disse Bloch. Se conhece o jogador, sabe qual é o canto que, de um modo geral, ele prefere. Mas, provavelmente, o jogador que vai marcar o penalty, pensa também que o jogador o está a tentar descobrir. Por isso o guarda-redes tem de admitir que precisamente hoje a bola vai entrar pelo outro canto. Mas o que é que acontece se o jogador que vai marcar o penalty seguir o pensamento do guarda-redes e acabar por decidir atirar para o canto para o qual costumava atirar?

 

Peter Handke, A angústia do guarda-redes antes do penalty.

 

 

A angústia causada pelo penalty é uma metáfora da vida. A espera, a hesitação, o erro, a vitória possível. Se não houvesse vida não havia do que falar. O que, por si só, a justifica. Há o livro da nossa vida, a música da nossa vida, a mulher da nossa vida, o filme da nossa vida (nem me façam falar de Paris, Texas ou Cinema Paraíso).

Muito boa gente encapuçada com paramentos filosóficos tem sobre a vida atitude inquisitiva, desencantada ou de cliente mal servido, pronto a fazer justiça pelas próprias mãos. Reclamando: «Se eu soubesse o que sei hoje!».

     A vida é como aquelas pessoas a quem não se deve dar muita atenção porque já se julgam suficientemente importantes. Se houvesse um purgatório para vidas mal conseguidas, milhares estariam presos a ele, esperando pela redenção. Mas isto somos nós a falar.

     E o tempo. O pior da vida são os horários. Minutos, horas, dias, meses, anos, décadas esperando ser cumpridos. O tempo. Apesar de ainda estar para ser provado que as pessoas mudam por causa dele. A criança resmungando com o pai que se escusa à resposta e argumentando perplexa: «Como nada, se eu estou a ver?». Porque o pai está a tentar ganhar (ao) tempo, numa batalha contra-(o)relógio, conquistando-o para outra coisa. Para além do ganhar tempo, há o aproveitar o tempo, o nem se dá pelo tempo, o fazer tempo. Fazer tempo leva-nos aliás a outro problema: esperar. A espera é reconhecida e desgraçadamente, imprescindível ao viver. O momento anterior à marcação do penalty.

O verbo esperar é, provavelmente, o verbo mais conjugado. Eu espero, tu esperas, ele espera… e o mais tirânico. Quem espera desespera, acrescenta o pessimista. Quem espera sempre alcança, o optimista.

Eu?

Bem, tem dias.

Vacilo.

     Esperamos. Ponto. No guichet da repartição, na caixa do hipermercado, na sala de espera (claro!) da clínica, no cabeleireiro… pelo fim dos nove meses, que não haja sopa, que os brócolos se tenham esgotado, pela maioridade, pela encomenda que não chega, pelo email, pela mesa que não desocupada, pelo pedido que não chega, pela promoção, pela isenção, pelo reembolso, pelos filhos à saída da escola, pelo fim do mês ou do dia, pelas férias, pelo táxi que passa sem parar, pela reunião, pelo fim da reunião, por que não haja outra reunião, para que o chefe não repare, por que as análises venham bem, pela marcação do penalty das nossas vidas.

     Em alturas de vocação para desígnio inteligente a maioria já pensou em recriar a espera.

Seria de supor que, evolutivamente, já tivesse progredido, voluntariamente, para algo mais produtivo. Pode ser que mais meia dúzia de biliões de anos resolvam o assunto. Nada como esperar!

     No fim, na segunda parte do bi-horário vital (a velhice), quando já só permanecem em funcionamento os serviços mínimos, concluímos que a vida passou a correr. Porque a vida já cá anda há tempo suficiente para saber mais do que nós.

E pior do que a vida é a alternativa. Aí ansiamos por um crédito extra. Procurando na gaveta errada da consciência pela culpa. A desculpa para termos falhado ante o golo iminente.

    Isto tudo a propósito das segundas-feiras.

 

 

Sugestão: entrevista de 17.11.2011 a Peter Handke na ípsilon

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 14:43


1 comentário

De Luis Salgueiro a 21.03.2012 às 23:06

Discordo do 'princípio criador' que está na genése desta metáfora pois no penalty o guarda-redes tem tudo a ganhar e o rematador tudo a perder ! Num penalty a glória acena ao guarda-redes e uma desolação dramática espreita para o rematador (que o diga , se pudesse, o jogador da Colômbia assassinado, após ter regressado de disputar o Camptº do Mundo, por ter falhado um penalty ). Na baliza, a angústia do guarda-redes é durante o decorrer do jogo , excepto nos penalties !
Os penalties são a possibilidade de o guarda-redes ganhar o Euromilhões e para o rematador a possibilidade de experienciar estar na cama com a Marilyn Monroe e .. aquilo 'não funcionar' !
Mudem esta metáfora ! Abaixo esta metáfora ! Goleadores de todo o Mundo Uni-vos ! ! Exigimos Justiça ! Penalties sem guarda-redes , Já !!
:) :)

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