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III Deixar de fumar é uma questão de tempo

Segunda-feira, 07.05.12

O vizinho do lado a puxá-los e eu a resistir. À justa. À rasca. Queixoso. Tentado. A vê-los amontoar. A quererem saltar do maço. Insinuando-se em elipses. Provocando-me, género E.T come home.

Nada! Puro desprezo. Por mim acaba tudo esticadinho e feito às postas no Roswell-cinzeiro sob a forma de beata.

   É oficial. Deixei de fumar. Anunciei-o ao mundo, claro! Em jeito Lauro António apresenta. Até porque, com o deixar de fumar nasce um novo tópico de conversa: dizer que se deixou de fumar, que as ameaças, finalmente, se concretizaram. Passa a existir, insistentemente, um «sim, sim, mas não sei se sabem deixei de fumar» que arrepia caminho.

Influxos de uma adrenalina especial sobem e descem por mim como numa montanha russa.

   Sinto-me Free at last! Oh, Lord! Free...at...last!

   A auto-estima ressente-se. Adapta-se. Acomoda-se. Com o deixar de fumar o “não” sai fortalecido. O “talvez” perde preponderância. E o “sim” é destronado. Em algumas alturas parece desenrolar-se dentro de mim um episódio de Kung Fu e eu sou Kwai Chang Caine aka David Carradine, cheio de dúvidas:

 

Disciple Caine: Master, our bodies are prey to many needs: hunger, thirst, the need for love.

Master Kan: In one lifetime a man knows many pleasures: a mother's smile in waking hours, a young woman's intimate, searing touch, and the laughter of grandchildren in the twilight years. To deny these in ourselves is to deny that which makes us one with nature.

Caine: 'Shall we then seek to satisfy these needs?

Master Kan: Only acknowledge them and satisfaction will follow. To suppress a truth is to give it force beyond endurance.

 

   Deixei de fumar. Não há volta a dar. Sinto-me mais sábio. Com consciência Shaolin. Arrebatado por uma iluminação a que falta unicamente a fluorescência.

Se a inveja fosse viscosa existiria um rasto de baba e ranho à minha volta que se prolongaria até às Seychelles, com origem nos que não me perdoam ter conseguido.

   Nunca me dei prazos. Embora a expressão deadline, tendo em consideração o contexto, fizesse sentido. Também nunca houve uma avaliação vox pop, de anos, de evidências de que o tabaco faz mal. Fui deixando avolumar as desculpar em estratégia hit-Parade até me sentir preparado. E um dia como uma surpresa Kinder consegui. Uma mera questão de bom timing? Talvez.

Agora que efectivamente consegui, embora tenha passado pouco mais do que o tempo de um single (ainda existem?) parece uma eternidade. A satisfação faz-nos aldrabar o tempo (também o psicológico). A cronologia. Triplica-se os dias. Arrebatam-se semanas. Desrespeita-se as regras da adição. Um dia sem fumar vale mais do que vinte e quatro horas convencionais. Até porque, sem fumar nos sobra tempo. Por exemplo, para dizer que deixámos de fumar.

   Uma purificação alastra em mim. Uma pureza crescente. Um autêntico processo de revirginização está em marcha.

Mais umas semanas e terei resistências equiparáveis a quando tinha dezoito anos, pele de recém-nascido e cheirarei à menina que trabalha na Parfois. Mais umas temporadas e com as poupanças ficam-me a dever um Ferrari.

   Deixei de fumar. Ufa! Vendo bem as coisas até nem foi muito difícil. Há sonhos que demoram uma vida inteira a realizar. Raios, não se tratou de por fim à extinção do lobo ibérico. Proponho-me novos objectivos:

ver os elefantes do Botswana

pernoitar numa vila privativa nas Maldivas

deambular no deserto israelita

Parece que já me estou a ver a comemorar com champanhe e um belo charuto.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:15


1 comentário

De Garota a 09.05.2012 às 17:36

Deixei de fumar. Agora consigo perceber uma série de coisas que os não fumadores me impunham, mas extremistas que normalmente são não entendem e logo não toleram o quão bom é fumar.
Sei que é mau, faz mal à saude, à carteira, mas passados 2 anos, não deixa de ser bom e recordado, e às vezes quase que lhe consigo sentir o trago. Porém tudo o resto que muito bem aqui descreveste vale a pena.
Parabéns e venham os novos objectivos!

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