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III Questões de estilo: o gozo da ironia

Sábado, 02.06.12

A mind is like a parachute. It doesn't work if it is not open.

Frank Zappa

 

Frank Zappa

 

Uma epígrafe é um appetizer. Usamo-la por questões de interesse. Para deixar água na boca. Alimenta-se de créditos alheios. Mas vive em paz com isso. Quem somos nós para interferir? Não faço juízos de valor. Foi o que pensei quando escrevi a frase acima. Não com tantas palavras, claro!

Usei Frank Zappa. Em aplicação suave de uma linha. Em auto-contenção. Não há ninguém que consiga dizer tanto sem se preocupar com a linguagem. Há que admirar isso. Estou de consciência tranquila. Sei que o tenho feito.

Inevitavelmente acabaria por falar dele. Só precisava de um pretexto. Ou meio. Poderia ser acerca da música, da sua criatividade, do seu gosto por usar mosca e bigode, como fica bem de Mona Lisa, da composição, da interpretação, da guitarra ou da dúvida «Does humor belong in music?».

   Epígrafes à parte, muito poderia ser aproveitado de Zappa. Momentos simples, mas significativos. Especiais. Vestidos de Freak Chic.

Ensinamentos valiosos como: never discuss philosophy or politics in a disco environment.

Posições sobre a sexualidade: Take the Kama Sutra. How many people died from the Kama Sutra, as opposed to the Bible? Who wins?

Questões de preferência: Tobacco is my favorite vegetable.

Etc.,etc.

   Resolvi ir à raiz. À arte (mais uma) de que se fez especialista e aperfeiçoou ao longo da sua vida: a ironia. Ecoando em Dolby Surround. Thank you, Frank.

Podíamos falar de House M.D., Hank Moody, mas isso é ficção. Zappa é a realidade. O artesão mor. O mestre da ironia. Mr. irony himself.

   O meu gosto pela ironia é antigo. Amor à primeira vista. Por causa dela já me acusaram de gozão, sarcástico e, claro, irónico. Foi, por isso, um dia feliz quando descobri que, algures, a good looking fellow chamado Zappa sentia o mesmo por ela. Um menage a trois linguístico surgiu.

   Ironia me encanta. É desinibida, sem ser oferecida. É um sim, sim, coração! Um já te atendo. Um sabes muito, mas andas a pé. Um tás aqui, tás ali. Ou vou ali já venho.

A ironia é uma bandeira verde para o sarcasmo.

Sem ironia não tínhamos Sócrates. O da antiguidade. O outro dá-se mais ares de personificação. Do mal!

   Não vou em alegorias, parábolas ou pleonasmos. Para mim hipérbole é coisa de alguém que apanha uma perca e acaba a descrever um espadarte. O eufemismo serve apenas para pôr água na fervura. Permitir um estás-me a entalar e eu a ver. Paninhos quentes? Um embaixador da boa vontade.

A metáfora é em termos comparativos uma drag queen espalhafatosa.

A antítese é um diz e desdiz. Um político hesitante. Um árbitro a compensar penalties mal assinalados.

Nenhuma me satisfaz. Mas a ironia…

   Talvez fosse melhor ter começado um pouco atrás. Contextualizando a odisseia. Noutro tempo, a figura de estilo era coisa para saber na ponta da língua. Hoje é coisa antiga como ir às sortes e acabar na marinha.

É pena. Sem figura de estilo não havia «amor é fogo que arde sem se ver». Ou M. Sá-Carneiro escrevendo sinestético: «Gritam-me sons de cor e de perfumes».

A figura de estilo condimenta. É um molho-à-espanhola ou de escabeche. Um sal e pimenta.

Acorda o palato.

Necessita de um Anthony Bourdain para ser descoberta, para lhe transpor os bojadores.

   Resumindo, se a cada prato seu tempero, em termos de figuras de estilo, se tivesse que optar género «gostas mais do papá ou da mamã?» ficava-me pela ironia. Não por exclusão de partes. Por vocação. Por questões ideológicas. Talvez seja o Zappa que há em mim.

Tanta culinarice acabou por me abrir o apetite.

Logo agora que andava a pensar numa dieta.

Irónico, não?

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 18:47


1 comentário

De LWillow a 03.06.2012 às 00:00

Ainda na fase de recobro, acabado de saír dos cuidados intensivos, após o desastre do resultado da selecção portuguesa frente à Turquia, uma hora atrás, a leitura deste texto salvou-me de um final de noite taciturno e fez-me sorrir . 'Bem esgalhado' Carlos ! Inspirado, inteligente, criativo e ...irónico.
Seriedade e Ironia são 'duas faces da mesma moeda'/realidade : O absurdo da vida.

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