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III F*ck christmas i still got boxeurs

Sexta-feira, 30.11.12

"Lead on!" said Scrooge. "Lead on! The night is waning fast, and it is precious time to me, I know. Lead on, Spirit!"

Charles Dickens, A Christmas Carol.

 

 

O Natal primeiro é religioso. Mas, também, nos põe os familiares à mesa, agasalha-nos, perfuma-nos, põe-nos a ler e a ver séries, em quantidade caixa em edição especial, e renova-nos o stock de peúgas.

Também está no algodão das t-shirts por estrear ou dos boxeurs novos que ainda há pouco estavam debaixo da árvore de Natal. Nos aromas Hugo Boss, cujos bálsamos, ainda por penetrar, não estreitaram intimidades epidérmicas, nem conquistaram afugentando Denim a DenimOld Spice a Old Spice, espaço por entre os sinais remanescentes.

E, também, responde tendo Cadbury ou Toblerone por nome.

Está no Greatest Hits da Céline Dion que conseguimos na Amazon, fugindo a embaraços e reconhecimentos em filas, de Multibanco em riste, para presentear "prazeres especiais" de uma Jéssica Rabit conhecida.

No livro da Margarida da Rebelo Pinto que arrematámos, via auto-estrada da informação, abaixo do preço de um pack de iogurtes de aromas, e que nos obrigou a limpar o histórico do PC compulsiva e obsessivamente, receando implicações futuras e insinuação e assunção indevida de gostos.

     O Natal aproxima-se. 

Abençoadas as ligações rápidas às lojas on-line. Dêmos graças pelos talões de desconto.

Salvé, cartões Fnac!

Aleluia, cheques oferta!

    O Natal aproxima-se. Homenageia o Rui Veloso e não precisa de estrelas no céu.

Quem nunca voltou a pôr em circulação uma prenda oferecida que atire a primeira pedra. Quem nunca torceu o nariz a um embrulho do El Corte Inglês ou Bertrand, bem intencionado, que fale agora ou que se cale para sempre.

Quem não desanimou ante a abertura da lembrança, chorou ante a audição da oferta, empalideceu depois de ver o título e o autor da surpresa ou teve o sorriso a fechar-se ao ver o Vivaldi da Deutsche Grammophon a não ficar em casa.

   O Natal aproxima-se.  E está nos pormenores. Em não nos esquecermos de pôr o primo com o carro novo no extremo oposto a nós, durante o jantar de família.

Do "amigo" que nos ofereceu no ano anterior aquela prenda anunciada, por si, como "nunca vista" e dizer-lhe quando ele se depara com a gravata que lhe demos: "Na loja disseram que essa cor não ficava bem a toda gente, mas como conheço o teu gosto pelo "nunca visto" lembrei-me, imediatamente, de ti...". 

   O Natal é o nosso sobrinho a ficar com a consistência do musgo do presépio pela reacção alérgica à lactose por causa da sobremesa que insistimos que comesse.

É arrependermo-nos de não nos internarmos, voluntariamente, numa instituição psiquiátrica disponíveis para codeína,Valium e Prozac, esperando ansiosos pela chegada da Primavera.

É perdermos tempo a pensar como podemos desfazer-nos do corpo de uma octogenária (a avó da nossa mulher) que, porque está lúcida-e-diz-tudo-o-que-lhe-passa-pela-cabeça se engasga, acidentalmente, enquanto nos diz, quando nos apanha sozinhos, que a neta não teve juízo nenhum quando casou connosco. 

E, somando isso tudo, ficarmos incrédulos por não termos aprendido nada com os anos anteriores. 

São os nossos pais a contarem episódios embaraçosos sobre nós e os convivas gritando: “Bis, bis!” ou “Bravo, Bravo!”.

É anotarmos, mentalmente, desculpas para justificar a nossa não presença no próximo ano e, sendo a morte a mais convincente, treinar argumentos que tornem credível a nossa ressurreição a tempo da passagem de ano.

É a meio do jantar ficarmos melancólicos e lembramo-nos do ano anterior, da altura em que começávamos, mentalmente, a contar cadáveres por causa da nossa irmã, em encantamento de Nárnia, ter começado um flirt assanhado e cerrado a alguém-que-era-amigo-de-alguém-e-que-não-tinha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal e o nosso cunhado a arregaçar as mangas e a dar-se ares de quem não está disponível para pôr a loiça suja na máquina, mas vai acabar a lavar a honra.

E suspirar ao lembrarmo-nos de que até ao final da noite e de três garrafas de tinto da Adega Cooperativa de Borba o alguém-que-era-amigo-de-alguém-e-que-não-tinha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal e o cunhado Tony Soprano ficaram os melhores amigos.

E concluirmos que o espírito de natal é conciliador e sentirmo-nos recompensados pelos natais passados. Que a couve portuguesa quando bem cozida e acompanhada por um belo naco do fiel amigo faz sobressair o melhor que há em nós, como um rímel adensando o azul da íris. 

  Felizmente, o mito de que o Natal é quando o homem quiser, não passa disso mesmo.

Digo isto com o melhor dos intuitos, inspirado pelo sentimento da quadra e desejoso por partilhar, rapidamente, a mesa com a avó octogenária da minha mulher, lúcida-e-que-diz-tudo-o-que-lhe-passa-pela-cabeça, mais alguém-amigo-de-alguém-e-que-não-tenha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal, o meu sobrinho pronto para ficar com consistência de musgo e demais familiares e amigos. Estou disponível para dar e receber prendas desnecessárias, despropositadas e prontas para serem, novamente, postas em circulação.

Mas, uma maior frequência natalícia e, pessoalmente, não saberia como lidar com tanta emoção. 

E, além do mais, como sou estimadinho os boxeurs que me oferecem, pelo Natal, costumam durar-me um ano inteiro.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 12:48

III Porque o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia

Sexta-feira, 23.11.12

Após a intimação por  email e telefonema, dissuadindo da desistência, chega o dia da comparência. Aperaltada e confirmada.

Embarcando em auto (com pouca fé), farsa acima, farsa abaixo, ensaiando cumprimentos, distribuindo saudades, simulando interesses, confundindo nomes e locais, entro e escolho um dos lados.

   Dá-se, imediatamente, conta de overdoses de  filé mignon e bebedeiras de beijos e abraços.

  Há marialvas avançando, aos solavancos, pelo desenrolar dos acontecimentos, instigados pela esperança na generosidade ninfomaníaca e picos de testosterona.

  Conta-se com o habitual parvo. Mais decotes afogueados. E o bem relacionado falador, o bem-sucedido maçador, o bem intencionado apaziguador, o giro e a gira, o diplomata, o desbocado, o toxicodependente revivalista, a púdica, pares de lésbicas confirmadas e a despontar pelo ambiente de conversa de circunstância em tónica easy listening.

Uma arca de Noé recheada de diversidade socializante: simpática, intriguista, tímida, extrovertida ou histérica.

   Logo à entrada dá-se de caras com mamas falsas, magreza aspirada, boa-disposição fingida, cinturas finas recentes e carreiras extraviadas

   O anfitrião, com sorrisos de todos os tipos, eleito de véspera, vai abrindo alas para o à vontade. Dá um jeito à cerimónia e deixa escapar salamaleques. Entrega boas-vindas em espírito tão-lindos-que-nós-eramos, ajudado por alguém com motivação um-por-todos-e-todos-por-um e um banqueiro do endividamento em busca de novas oportunidades, sustendo a respiração para encolher o abdominal descontrolado.

   Há olhares vários perdendo-se pela sala: lúbricos e de que-merda-de-ideia-que-eu-havia-de-ter. Mas, também, de onde-é-que-eu-estava-com-a-cabeça e porque-raio-é-que-eu-não-arranjei-uma-desculpa?. 

  Um conviva de tipo a-bomba-que-lá-está-fora-estacionada-é-minha, de sucesso suíço de vários quilates no pulso, envolve-se, invariavelmente, em altercações com um adeus-e-até-para-o-ano e um se-isto-não-der-molho-não-vale-o-dinheiro. Há, também o grupo dos que pesavam menos à entrada do que em casa, em dieta continuada e esforçada. E crianças, muitas crianças. Fugindo às ex-grávidas do ano anterior.

   Os menus são de custo controlado e o bufet  é intercontinental e disputado tanto por jovens até à baba de camelo, sóbrios até à conta, divorciados em recuperação, empertigados, sonsos, joviais e vingativos com contas antigas a ajustar, como por gente com cara de dantes-é-que-era-bom e nunca-mais-me-meto-noutra.

   Alguém da pandilha das lésbicas confirmadas, usando pulseiras-quase-iguais-às-originais, com tudo a combinar, olha de soslaio para a voz que suspira cacofónica para baixo do pescoço: "São novas, são novas!" - questionando-se: "De onde é que eu conheço aquele rabo?".

   Em torno do evento forma-se uma recordação colectiva pungente, pelos tempos do já-vimos-tudo-e-sabemos-o equivalente. Quando o desafio maior era manter o equilíbrio, conquistando-o em toques numa bola de catchum.

   Farto, despeço-me do parvo, dos marialvas, dos decotes afogueados, do bem relacionado falador, do bem-sucedido maçador, do bem intencionado apaziguador, do giro e da gira, do diplomata, do desbocado, do toxicodependente revivalista, da púdica, dos pares de lésbicas confirmadas e a despontar, dos jovens, dos sóbrios, dos divorciados em recuperação, dos empertigados, sonsos, joviais e vingativos com contas antigas a ajustar, da gente com cara de dantes-é-que-era-bom e nunca-mais-me-meto-noutra, dos que continuam convencidos tão-lindos-que-nós-eramos e com motivação um-por-todos-e-todos-por-um, da trupe simpática, intriguista, tímida, extrovertida ou histérica da arca de Noé socializante e dos que continuam a lançar olhares: lúbricos e de que-merda-de-ideia-que-eu-havia-de-ter, onde-é-que-eu-estava-com-a-cabeça, porque-raio-é-que-eu-não-arranjei-uma-desculpa?.

Cruzo-me, ainda, com o se-isto-não-der-molho-não-vale-o-dinheiro e pouco entusiasmado com mais ambiente de conversa de circunstância de tónica easy listening  e por contaminar pela recordação colectiva do já-vimos-tudo-e-sabemos-o equivalente digo: "até para o ano!" - e saio com o colega de a-bomba-que-lá-está-fora-estacionada-é-minha que está farto de esperar pela generosidade ninfomaníaca que ficou "presa" numa "reunião".

   Razões mais do que suficientes para, em relação a almoços ou jantares de curso ou liceu, preferir o pequeno-almoço. 

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:26

III Genealogicamente morto

Quarta-feira, 21.11.12

Em relação a genealogias, prefiro o desconhecimento. Dou-me bem com a ignorância. Luto pelo anonimato. Prefiro passar despercebido, ser confundido ou, simplesmente, que não se lembrem de mim.
   Não me preocupam as origens nem me atormentam estirpes perdidas ou sofro de desejos de intimidades com antecessores. Não estou interessado em desenterrar tetravós, como campeonatos acumulando-se, vitória sobre vitória, tri, tetra, penta ou hexa que é como quem diz avô, bisavô, trisavô, tataravô.
Não tenho motivação.
Não invejo condados, principados ou títulos nem suspiro por gerações alheias.
Não quero arranjar mais um familiar a D. Afonso Henriques ou remontar a Cristo.
Não quero angariar Joanas D'Arc ou ficar a contas com uma parcela do pinhal de Leiria, ainda por plantar, por herança antiga e desconhecida.
   Genealogicamente estou bem como estou, não sou ambicioso.
Não preciso de mais ninguém nem estou com ideias de ir ao mercado de Inverno para suprir faltas.
Em termos familiares tenho número suficiente de efectivos para não fazer má figura.
Não me apresentem semelhantes, porque não  preciso de mais primos extra para encher o Pavilhão Atlântico.
Não vejo necessidade de recuar até à reconquista cristã nem quero tirar ninguém, à pressa, da fogueira para acrescentar à lista de antepassados, acabando o mundo a girar ao contrário.
   Estou genealogicamente saciado.
Não quero subir a pulso, dinastia a dinastia acima ou ir descendo por si até atingir a cepa principal. Ou, muito menos, estar implicado em descobertas ou criações que não me pertencem.
   A genealogia é um risco. Não quero surpresas desagradáveis ou melindres. Acabar com mouros à perna ou espanhóis ressabiados no meu encalço.
   A genealogia traz poucas vantagens e não vejo que faça receber mais postais pelo Natal.
Não compreendo a excitação.
Não ando à procura de regurgitar burguesias, nem desencantar princesas a preço de saldo. Não sou condescendente com a nobreza e não quero acabar escudeiro.
Em relação a monarcas, sou exigente e não me revejo em certos presidentes.
Não quero coleccionar Sanchos nem acumular Afonsos. Perder-me entre algum Fernando ou Sebastião.
Genealogicamente não vou por aí.  
Também, não vou dar para mais peditórios por ter descoberto um santo.
    Não me aventuro em genealogias. Não preciso de angariar reinos espaçosos com o IMI por regularizar. Ficar a braços com reavaliações de castelos em meu nome.
A verdade é que não tenho aspirações cortesãs. E, em termos de sangue, estou, perfeitamente, feito à ideia de que o tenho vermelho e de uso corrente. Em azul teria menos com que o combinar.
   Vivo bem com a ideia de que a família passou à história. Receio dar com os parentes na lama.
Não sei o que fazer com novos membros. Tias por tias, fico com as que já tenho.
Nos tempos que correm quem precisa de mais lugares à mesa?
Tenho consciência de que não sou genealogicamente empenhado mas, o que perco em parentes poupo em postas de bacalhau e rabanadas.
   Sou genealogicamente desinteressado. Não quero chegar a um Elvis em princípio de carreira ou conquistar elos perdidos. Dispersando-me por continentes e acabando dividido entre países.
Em termos genealógicos dois ou três ramos chegam-me, perfeitamente. Não preciso de uma árvore inteira só para mim.
Vou até mais longe, genealogicamente prefiro estar morto.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 15:15

III O futuro tem os dias contados

Quinta-feira, 15.11.12

Ultimamente o meu destino disparou noutra direcção, seguindo um caminho diferente do meu. Tem-me em rédea curta.

Porque o afirmo? Nitidamente, não ando de boas relações com o meu horóscopo. As previsões saem furadas. Casas trocadas, ascendentes contraproducentes e os reembolsos pelas expectativas criadas andam em atraso.

A razão? Não sei.

Mas, sinto-me prejudicado pelo presente. O meu quotidiano anda de má vontade comigo.

Isso é evidente.

O dia-a-dia só empata. Por causa dele o meu futuro avança ziguezagueando a meio gás. É vê-lo desaparecer ligeiro na linha do horizonte, rumo à terra dos sonhos desfeitos, enquanto eu fico preso numa nacional congestionada, desesperado e perdido na fila, no meio de transitários atrasados para as entregas de azulejos.

  Assim, o meu futuro nunca me irá parar às mãos. O que era para mim já não me está reservado. Anteciparam-se. Foi apanhado pelo rumo dos acontecimentos.

   Condenação e apocalipse surgem na minha cabeça. E um milhão de anos serão precisos para lhes escapar. O tempo não está do meu lado.

  A minha palma da mão anda em brasa. As minhas opções desvalorizaram. As possibilidades, também, foram revistas. Oportunidades sangrando mortalmente. Ando a perder linhas vitais ou, pelo menos, acabaram cruzadas, engalfinhadas entre si, lutando pela primazia.

Uma tremenda confusão seguida de desilusão!

   Deixei de ter um universo de possibilidades para acabar com uma via láctea minguada, vários planetas abaixo das minhas necessidades.

O meu futuro enguiçado está Merkelizado.

Merkel a ti Merkel a mim, anda de austeridade em austeridade, de corte em corte. Cinto apertado estrafegando as gorduras acumuladas e entrefolhos passajados, com a dignidade novamente tapada, cozido que está o rasgão provocado pelo esforço extra.

   A minha esperança reside na renegociação. Que me fechem os olhos à falta de iniciativa. Que me perdoem anos de menor dedicação. Que a idade seja, realmente, um posto.

Enquanto isso não sucede, sinto o BCE de olho em mim.

Bruxelas mudou-se para minha casa. Temo as avaliações da Troika, por poderem acabar considerando, incrédulos, que em relação ao meu futuro tenho mais olhos do que barriga, que não tenho vida para o ter (quanto mais manter). Tenho que cortar nas despesas. Demonstrar boa-vontade e abdicar de, pelo menos, uma década de empreendimentos e ambições. Ficar-me pelas transmissões da RTP. Mandar um emprego para toda a vida às urtigas por troca directa com um a recibos verdes. Ficar a marcar passo. A ganhar vez nos projectos. Sem exigir ser maravilhado por um porco a andar de bicicleta ou passear na Toscânia. Ou em ânsias “vem ao papá, meu futurozinho”. Continhas feitas e aprovadas, provando as minhas capacidades e competências.

   Preciso, urgentemente, de uma transfusão de incentivos fiscais. Que me tomem o pulso ao spread.

De um anti-tússsico para o catarro da formiga. Do vil metal para a minha conta bancária anémica arribar.

   Felizmente, sou dos que acha que o futuro se impacienta mais com conjunturas políticas e económicas do que com problemáticas com Marte ou Venús. Ou de Júpiter à salha com Saturno. É mais evidente em memorandos do que na leitura de linhas dextras. Para não falar em ases e jokers.

Paro o diabo com os astros!

A quiromancia está em crise. A astrologia está por um fio. Do tarot já ninguém fala. Os juros continuam galopando enquanto se negoceiam constelações.

A superstição só serve para passar o tempo, enquanto se espera que o barbeiro nos apare as pontas e vamos lendo o signo na revista, desejosos que chegue a nossa vez.

Chega-se mais facilmente ao futuro pelo PIB do que pelas cartas astrais.

A austeridade avança biorritmo acima.

O futuro tem os dias contados. Mais vale um presente tranquilo.

Não consigo ver as coisas de outra maneira.

Afinal, sou gémeos.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 19:17

III A sorte quando nasce não é para todos

Terça-feira, 06.11.12

 

O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm.

Descartes

 

 

Tenho, claramente, problemas com o Espírito Santo. É, igualmente, evidente que não consigo enfrentar milagres.

Em bom rigor, não estou para acasos. Maus-olhados e superstições nem por sombras. A sorte é uma farsa e adventos de última hora ou surpresas que me estavam reservadas, nem pensar.

Não tenho personalidade adequada para pseudo-ciências nem físico resistente às agruras da crendice.

Não vivo para coincidências nem me revejo em azares. Quanto a elixires e mezinhas, não obrigado.

Também não bato três vezes na madeira e recuso-me a ter de entrar com o pé direito em qualquer lado.

Caneta da sorte não tenho. Ferradura atrás da porta nunca usei.

Como é fácil de entender zombo de propósitos místicos, céus em risco de cair sobre cabeças incautas, horóscopos prevaricadores do livre-arbítrio e não me impressionam as conjunturas astrais. 

Não acredito em escadas ou escadotes que nos encolhem se lhes passarmos por baixo nem em anjos da guarda cândidos ávidos por boas acções, zelando inocentes, 24 horas sobre 24 horas, por nós.

Na minha opinião, a matemática não se compadece com números da sorte e não há nada de especial em trevos de quatro folhas mesmo que a falta de abundância o faça supor.

A única coisa que há de expectável numa sexta-feira 13 é um sábado 14 e se eu tivesse notas de 50 euros por cada vez que já me anunciaram o Apocalipse estaria multimilionário. 

   Sou racional. Sinapses em brasa. A razão é a única coisa que me dá garantias. Causas e efeitos são a minha perdição. O tino é o único sustento seguro do espírito. A levando, inevitavelmente, a B. 2+2 teimando em ser 4.

Dou mais para a lei e para a regra do que para o sobrenatural. Para a clareza e distinção do que para o obscurantismo.

A fé não tem hipóteses ante um raciocínio. A crendice atrapalha-me a dedução.

O futuro conquista-se neurónio a neurónio e paga-se em lógica usada.

   Sofro de iliteracia no que diz respeito a ler sinais. Os avisos passam-me ao lado e se já me cruzei com a chave do Totoloto, não dei conta.

   Não tenho olho para algarismos da sorte e não frequento terreiros de adivinhação nem o Bingo.

Não cedo o pescoço a amuletos, não vou em conversas de pitonisa, não me encolho a vaticínios, não acredito em zodíacos, não acendo velas, não alinho em sorteios nem perco tempo com prognósticos.

Ah, e como já insinuei não tenho interesse na sorte, porque não traz vantagens evidentes.

Digo mais, é um rafeiro que não conhece o dono. E fica aquém das minhas necessidades, vivendo de desencontros e mal entendidos.

Só gera confusões! 

Não me ajuda e só me prejudica no verde dos semáforos ou no mudar o filtro da máquina do café que me calha sempre a mim, por minudências de mau timing. Para si não sou uma prioridade. Não vai por mim. Entregar-me a si é resignar-me a uma longa lista de espera. Só serve para me fazer perder tempo.

Já percebi que só aparece para alguns e para as coisas boas. O jackpot do Totoloto, por exemplo. Onde é que ela está quando a pulseira da criança que tinha o fecho estragado cai na sanita? A sorte é, de certeza, mediática, não se empenha nas frugalidades do dia-a-dia.

Raspadinha a raspadinha, jogo branco a jogo branco vou desfazendo as dúvidas e conquistando fiéis.

Pelas mesmas razões (ou falta dela, a razão, claro está) recuso o destino. Por ser algo que pode claramente, prejudicar-me.

   Avanço por conta de reflexões. Decido, ponderadamente. Cogito. Encontro razões. Penso. Sem perder a direcção.

O meu destino dá muito trabalho e só tem 22 dias de férias por ano.

  Mas, às vezes, num dia particularmente difícil ou em alturas de maiores dificuldades, fico a matutar se a racionalidade não está sobrevalorizada. E aí o que eu não dava para que houvesse uma estrela que brilhasse só para mim.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 19:17

III Descongelo, logo cozinho

Sábado, 03.11.12

Antes de mais, ressalvo que aprecio um bom prato. Que valorizo os sabores e aprecio a diversidade. Sou até, provavelmente, aquilo a que se chama um bom garfo. No que se expõe a seguir é o fazer (saber) que me escapa.

   Não me orgulho, mas a minha relação com a culinária não é tanto ao nível de cozinha, mas de sala de jantar ou estar, comendo ou apreciando no pequeno ecrã um chef em acção incutindo-me a sensação (errada) de que um Carré cozinhado na perfeição é tão difícil de conseguir quanto a abertura de uma lata de conserva.

Uma relação que só pode ser vista na óptica do utilizador, uma vez que as minhas contribuições ficam aquém do ovo estrelado e ao nível do pôr a mesa.

   Por muito que me custe admitir, não vou em receitas, não alinho em marinados, desconfio de tudo o que exige preparação no dia anterior, não admito rigores nas temperaturas, nem sei interpretar um q.b.

   Se a culinária é uma ciência, continuo na idade das trevas e prestes a ir parar à fogueira acusado de bruxaria. 

Na cozinha, a não ser como consumidor, sou inimputável.

  A desistência sumária torna-se a decisão acertada sob qualquer perspectiva. Tempero em exagero, açambarco medições, aldrabo cozeduras, esturrico flambês. Não me comprometo com o escalfado e troco a salsa por coentros. Também ultrapasso o al dente,  choro antes de descascar a cebola como uma espécie de enfermeira com pavor a sangue, não distingo rúcula de alface e não consigo deformar, cortar, salgar ou untar.

   Qualquer semelhança entre o meu resultado final e um rissol ou pastel de bacalhau é mera coincidência, pois careço de palato impoluto, não tenho mão certa nem ouvido para identificar o ponto.

   O meu espírito intempestivamente desprovido de sensibilidade culinária leva-me a não considerar relevante ter a capacidade de provar. Ou seja, não tenho língua para coisas a escaldar. E quanto a nariz, não tenho um que me permita distinguir salva de orégãos.

Não percebo de misturas, hesito no pimentão e não domino a polpa de tomate. 

Sou demasiado impaciente para ficar à espera durante uma hora e meia da colaboração do forno e tenho antipatia por tudo o que exige mais do que um tacho ou frigideira para ficar em condições.

Tenho, também, angústias se tenho que optar entre a lenha, gás ou electricidade. E não posso excluir uma certa esquizofrenia no que aos condimentos concerne.

Sou, ainda, exageradamente generoso na pimenta, considero o piripiri um amigo de longa data e gosto da cor de uma boa malagueta. Em relação a todos, não aceito que não possam em simultâneo estar no mesmo prato.

   É com um misto de mágoa e vergonha que reconheço que sou a razão por que existe a secção de enlatados no Pingo Doce.

Se a cozinha me fica entregue, não acredito no acabado de fazer. Não percebo porque uma refeição que está pronta em dois minutos não possa ser gastronomicamente interessante. 

Entregue a mim, a culinária não é uma arte, é um mamarracho.

Em termos culinários, em relação a jantar forneço, unicamente, o ambiente.

   Consigo, perfeitamente, esclarecer a minha relação com a culinária, num conjunto restrito de passos elementares:

 

tiro do frigorífico

ponho no micro-ondas

ligo

despejo num prato depois de aquecido

como

 

Dito de outra maneira, determino, ligo e corro para a trincheira para protecção, antecipando um rebentamento generalizado, provocado por quem desrespeitou tempos e recipientes adequados.

   Facilmente se depreende que se a simplicidade é o mais difícil de atingir, então eu sou um mestre. Mas, não tenho dúvidas de que no que à culinária diz respeito a minha inclusão no seu universo exige que seja admissível que:

 

   Descongelo, logo cozinho.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 20:11

III Sobre a possibilidade de se voltar aos sítios onde se foi feliz

Quinta-feira, 01.11.12

Voltar ao sítio onde se foi feliz é voltar a nós mesmos. A uma parte que já não nos pertence, mas que não ficou esquecida. A uma convivência interrompida.

   O sítio onde se foi feliz vive de momentos e lembranças. É um mundo inteiro, o nosso sonho preferido, uma praia deserta, um eterno pôr-do-sol, um banco de jardim, um país, uma mesa de restaurante com poucos clientes, um teatro com peças de Strindberg, uma sala de cinema semi-deserta, um bar com decoração fin de siécle, um  velho alfarrabista sem novidades. É uma música fora de moda que se tornou um hino. Fica num poema muito repetido, em pequenos gestos, naquela fotografia gasta, em prendas de aniversário antigas e lembra-se em datas especiais. Cabe, perfeitamente, numa rua. E chegam-lhe  algumas palavras e umas quantas recordações.

   No sítio onde se foi feliz os números de telefone não mudam e os prédios nunca perdem a cor. Está cheio de heróis e caras conhecidas. É sobredimensionado, colorido, desensombrado, alegre. Nele nunca se sente fome, sede ou cansaço. Não se dorme, nem se dá pelo calor ou frio.

    Mas, o sítio onde se foi feliz mudou de lugar. Não está onde o deixámos. Onde tínhamos a certeza de que o voltaríamos a encontrar. Fugiu-nos debaixo dos pés. Já não é nosso.

Está diferente: inabitado, irreconhecível. Uma sombra do que foi. Não é como o pensámos. E não está em lado nenhum. Aquém e além de nós, ou essa é pelo menos a sensação que dá, mas é só porque não é o que parece.

Desilude-nos, também, por isso.

É mais uma ideia do que uma realidade ou uma vontade mais do que uma certeza.

     O sítio onde fomos felizes desaparece quando estamos frente-a-frente com ele. Foge de nós.

Talvez porque só se seja feliz num sítio uma única vez.

    O sítio onde se foi feliz não espera por nós. Continua sem darmos conta. Obriga-nos a olhar noutra direcção diferente.

    O sítio onde se foi feliz só serve para quem lá ficou. Estranha a nossa presença.

Quer ter um ar moderno. Tem novos interesses, novos inquilinos, namorados apaixonados, enamorados à primeira vista, amantes ardentes. Frequenta novas paragens, vive de outras companhias, aprendeu novas rotinas e tem truques recentes. Refez a sua vida.

Não nos pede para voltarmos mas, também, não nos fecha a porta na cara.

Aparentemente não sentiu a nossa falta.

   O sítio onde se foi feliz teve o seu tempo. Só não é intemporal porque não tem idade.

Só nos fala e toca a nós e só nós é que o percebemos.

Ficou para trás. Já passou. Foi bom enquanto durou.

Serviu para estar onde estamos agora e já não faz ciúme àquele em que nos encontramos.

O melhor que temos a fazer é seguir em frente.

    Porque o sítio onde se foi feliz já não existe.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 07:54









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  • numadeletra

    Dramas balneares :-)

  • Maria

    Que delícia!!!

  • Sandra

    :) Se descobrires como se treina esse optimismo , ...

  • LWillow

    Dietas 'é uma coisa que não me assiste' e assim s...

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    ehehehe! 'tamos nessa' 'brother' ! Mais um bom tex...

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    Thanks ! this reading was a pleasure !

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    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

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    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...


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