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III “Só gosto do que já conheço...”

Domingo, 01.07.12

Quem o diz é Pedro Rolo Duarte, a propósito, entre outras coisas, do concerto de Sting no EDP Cooljazz Fest no Parque dos Poetas em Oeiras.

Não se larga o que já se conhece quando não se tem vontade de ficar sem pé.

O desconhecido envolve perder-se. Nem sempre dar com o sítio. É vertigem. Tem riscos de «a menina dança?».

É para quem não se importe de trocar os números das portas. De se enganar nas ruas. De experimentar o sinuoso. De cair ao rio durante a tentativa.

   Gostar do já conhecido tem vantagens óbvias sobre o desconhecido.

Para começar é cómodo, escamoteia pronúncios de fim de mundo de última hora. Já deu provas. É mais do mesmo. Mas quem se importa? Vem com a idade.

   Do conhecido gosta-se sempre. Ou ameaça-se deixar de lá ir, comprar, assistir, ouvir, dar atenção. Perdoamos-lhe até o seu quê de pasmaceira. Confia-se. Há sempre um capitão Furillo, saltando da Balada de Hill Street para a nossa rua, dando má vida aos malfeitores.

É fácil de combinar. De citar. Trautear ou descrever. De ter de cor.

Quem arrisca um novo autor quando já tem serões investidos nos de sempre? Se expõe ao pânico da primeira página? Se aventura em narrativas desconhecidas? Em melodias a precisar de atenção?

O conhecido é seguro. Tranquilo. Pode levar-se para casa convictos de que não nos vai embaraçar.

É a escolha de sempre. O costume. Não é preciso antecipar, fazer contas ou pôr-se à tabela. Dá garantias de não se ter que dar a mão à palmatória.

   Só gostar do que se conhece é saber com o que se conta: no escuro da sala de cinema; antes de começar a ouvir ou a ler.

Não liga com a adrenalina. É mais dado ao sossego. Sabe bem. Combina com chinelos ou pantufas, roupão e tisana. Nesse sentido é caseirinho.

   Em epopeia marítima dobra-se com facilidade. Dá-nos pelo tornozelo. Salva-nos da borrasca.

Não tem baixios. Ou outras surpresas desagradáveis. Está perfeitamente cartografado e é, facilmente, navegável. Um mundo perfeitamente definido. Bom porto.

   É uma cara conhecida que nos sorri de volta. Não nos mete medo. Reconhece-nos.

   É um património seguro. Dá garantias. Acaba por ser um bom investimento. Já se sabe ao que se vai.

   Um trilho que calcorreamos em segurança. Sem correrias, atropelos ou cães esfaimados aparecendo do nada para nos dar caça.

   Sem o conhecido, nem nos ocorreria pensar no desconhecido. Que existe para quando o conhecido farta.

O conhecido pode ser mais aborrecido e perde em novidade, mas ganha em certezas. Vai bem com o que já temos. Quando não acerta damos uma segunda oportunidade.

Às vezes também nos surpreende. Mas nessas alturas corre os mesmos riscos do desconhecido e já não é bem a mesma coisa.

   O desconhecido é o Adamastor. Às vezes vale a pena. Outras nem tanto. Não mereceu sequer o incómodo. É sair de casa sem saber ao que se vai. Não se sabe muito bem onde é que fica, ao contrário do conhecido que é ao virar da esquina.

   O desconhecido é preferível só por indicação. Se chegar por mão amiga. Só com garantias é uma aposta.

Se estivermos num cruzamento é o percurso menos percorrido. Um caminho novo. A zona de desconforto.

Tem a provar. Exige justificação e comprovativo. Está em construção, ao contrário do conhecido que é definitivo.

Desgasta.

Estranha-se, ao contrário do conhecido que se entranha.

Exige um bocadinho de Vasco da Gama. Apela ao empreendedor que há em nós. Lança-nos para mares nunca dantes navegados. Nesse sentido o desconhecido é de partir. O conhecido é da chegada.

   Não se sabe como iremos reagir. Do desconhecido achamos que vamos gostar, ao contrário do conhecido que tomamos como garantido.

É o nome que não se ouviu falar. A imagem que nunca se viu. O parágrafo que nunca lemos. O som ou melodia com que nunca nos cruzámos.

  O desconhecido é desassossego. Não é monótono. É mais bate bate coração. Impertinente. Tem obrigatoriamente que valer a pena, senão não compensa, quando temos mesmo ali à mão o conhecido.

  O progresso é mais feito de desconhecido. De achar que o mundo nos está prestes a cair sobre a cabeça e de passos em falso. De picar no prato errado. De misturar o doce com o salgado. Ir ao picante. Queimar a língua. De se equivocar. De apostar e perder. Andar sem eira nem beira a fazer pela vida.

De quem não arrisca não petisca.

De não gostar sempre do mesmo.

Mas isso é por demais conhecido.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 11:56


1 comentário

De José Campos a 02.07.2012 às 12:36

Uma boa leitura... por amor ao desconhecido.

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