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III A língua de ponta a ponta

Sexta-feira, 06.07.12

Se quem tem boca vai a Roma, a língua é o livre-trânsito para lá chegar.

Sem querer ser indiscreto, como é a sua língua?

Atrevida? Espalhafatosa? Silenciosa?

Bem pode ter uma voz de ouro, mas isso não lhe evita precisar de uma língua a condizer. Mesmo uma língua desinibida não está livre de ter uma voz esganiçada.

   Línguas há-as de todos os géneros. A de sogra, por exemplo. O que perdem em diversidade de formas ganham aí.

   Para muito serve uma língua. Para dizer, para sentir, para tomar sabores, beijar, trocar. Pode ser contida ou boémia. Não usa fecho-éclair. Mas já houve casos de censura.

Por natureza, não vê, não perdoa, nem faz constatações. Põe-se, imediatamente, ao caminho.

Pode ser grosseira. De trapos. Afiada. Venenosa. Desbocada. Às vezes consegue-se torcer. Temporariamente, pelo menos. Pode ser subversiva. Corrosiva. Comprida.

Com um copo diz tudo. Solta-se. Não precisa de mais incentivos.

Com medo fecha-se em copas.

Se enervada diz o que não deve, sem bom senso atira-nos para a guerra.

Apaixonada emociona-se e chega a rebentar em pranto.

Uma trapalhada.

Pode ser muitas coisas. Para não falar na importância da saliva. Ou no seu maior pesadelo: a afta. Mas, comecemos pela ponta.

   A ponta da língua é o pior sítio para guardar alguma coisa. Um segredo. O que quer que seja.

É o primeiro sítio onde se procura. Não é de confiança. Lança-nos olhares. Não salvaguarda. Desmente-nos. Trama-nos. Facilmente se descai, colocando-nos em maus lençóis. É um deslize prestes a acontecer. Faz-nos engolir sapos por causa da sua leviandade.

Continuemos.

   A língua pode, também, não ter papas. Quando não se tem papas na língua acabamos tomados de ponta. São ocasiões em que ela consegue ser traiçoeira. Nalguns casos mais do que noutros. Ainda por cima não se treina. É assim e acabou-se. E de nada servem as admoestações.

   Uma língua sem papas, não ameaça. Atira-se. Não abre excepções. Não diz salvo seja.

É um murro no estômago.

Não perde tempo. Não torneia nem pensa melhor. Vai ao que importa. Não escolhe as palavras. Zás!

Agarra-nos pelos… e dá-nos um pontapé nos…

É um dedo bem espetado. Bem visível.

   Também não anda pelo tops nem pelas listas de best-sellers. Não é popular.

   Em alturas de estar sem papas a língua não se põe com coisas. Diz o que tem a dizer. O que lhe vai na alma. O que lhe mexe com os feles. Não guarda troco. E não perde tempo a fazer amigos. Não é para pipis.

É um: «Já estivemos a falar melhor!». Ou: «Para isso, nem vale a pena!»

   Uma língua sem papas não concilia. É frontal. Nem tem aspirações a diplomata. Por vezes falha até nas maneiras. Diz: «que se…», «barda…».

   Uma língua sem papas é temperamental. Aborrece-se quando não lhe ligam. Boicota. Não está à venda. Sai para a rua. Barafusta. Diz: «Basta!». Não olha para o lado. Nem faz vista grossa.

Como não consegue estar calada, não faz muitas contas às consequências e, por vezes, arrepende-se. Mas, já está! Não há volta atrás. Quando isso acontece temos a sensação de: «estou bem…».

   Como noutras alturas, mas especialmente numa época em que tanto há sobre o que falar [ele são os cortes, os aumentos de impostos, escândalos, os sustos, as incertezas…], uma língua sem o que dizer é uma língua inútil. E, sem ela andava toda a gente calada.

   Uma coisa é certa, em relação à língua, às vezes, o bom era que o que está na ponta, saísse sem papas.

Mas, a língua também tem tento. Embora, por vezes, acabe sem ponta por onde se lhe pegue.

 

 

 

P.S: E já agora, que tocámos no assunto. Que conversa é essa de não deixar comentários e de andar a falhar nas visitas? Peço desculpa, mas estava-me mesmo aqui atravessado. Na ponta da língua!

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:32









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