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III Tempo de verão

Sexta-feira, 27.07.12

O tempo é pouco. De menos. Ameaçado de extinção. Raramente encontrado em abundância. A queixa mais partilhada e a fazer jurisprudência dá-o como escasso, glorificando-o.

   É um luxo para bolsas privilegiadas. Maioritariamente inalcançável e sem versão simplificada, mais económica e depauperada em apps disponíveis.

Não se encontra à mão nas lojas de bric-a-brac, na prateleira dos perecíveis, nem se percebe que se disponibilize em fancaraia.

   É discriminatório e só para alguns afortunados. Tê-lo, entenda-se. Dispor dele, acrescente-se.

   É preciso até para não fazer nada, somando-se ao sofá fundamental, atitude consentânea com o ócio e luta contra o preconceito de que devíamos estar a fazer alguma coisa. "Alguma coisa" que pelo modelo vigente parece ser sempre preferível ao "nada", bem como o "ocupado" em relação ao "desocupado", a "acção" à "inércia", consumidores improdutivos e desnecessários de tempo.

Daí resultando a afronta inerente a alguém dizer "Vou aproveitar este bocadinho para não fazer nada". Uma contagem decrescente para a acusação. O que contraria a ideia de que a boa vida é gratuita. Não custa nada. Quando é sempre mal interpretada e nos incrimina.

   Porém, tudo é diferente nas férias, quando o tempo tem uma contabilidade própria, mais flexível e menos exigente.

O tempo que é pouco aí serve perfeitamente para os gastos.

   Ter férias é usar o tempo na falta de ocupação. Apostar na inexistência de preocupações. É mordomia. Viver em modo "não estou para isso", "E então?", "desde que não tenha que me chatear" ou "alinho desde que já venha feito".

A queimar a apatia e a roçar o desinteresse. O tempo de verão é diferente do tempo do resto do ano. As manhãs são longas e de persianas corridas, as noites prolongam-se despressurizadas, as temperaturas são desérticas...

   Ter férias é ter tempo a sobrar. Sem atrasos. Em exclusivo. Para desbaratar. Para si, para os outros, para o que der e vier. Para não pensar em nada. Privilegia-se o dar na bolha. Mais a boa vida. Menospreza-se a velocidade. Diz-se não às arrelias e às decisões. Vive-se em regime de estaca zero, sem ambições. Sem agenda. Com pouca roupa. E grelhados. À sombra q.b. Ao fresco. Bem hidratado e com película generosa de protector. Moelas saborosamente condimentadas mais caracóis em habitat de pires. Sem relógio à vista e horários de faz-de-conta. Aplica-se o tempo onde ele mais faz falta: em não fazer nada.

Fica-se orgulhosamente aquém. Desperdiça-se. Há toda uma lista a poder ser feita de coisas que ficam por fazer, por pensar, planear, por decidir, por ver, por verificar.

Há um acordo tácito de que não se regateiam horas, nem se conquistam pressas. Damo-nos bem em qualquer lado ou clima. Não há neblina ou temperatura desagradável. Vivemos em ambiente We are the world e/ou People have the power. Sem nada melhor para fazer. Disponíveis para ir a banhos, expulsando o muco nasal e para bronzear onde outrora empalidecera.

   O melhor de ter tempo nas férias é poder desperdiçá-lo sem nos acusarem de preguiçosos. Alimentá-lo carinhosa e languidamente a bolas de Berlim, pernas-de-pau e boémia, 40 graus à sombra com a pele gostosamente a desidratar.

   O pior é quando acaba e o temos de usar todo para fazer o que nos mandam. E mais houvesse. Aí suspiramos saudosistas por aqueles dias em que olhávamos para o horizonte despreocupados como se esperássemos por um espectro sebastiânico, séculos atrasado, de montada fresca e império para revitalizar. Dizendo, patrioticamente, para o defender que há coisas que vêm sempre a tempo.

E enquanto distraídos pensamos nisso, entre os apupos do chefe que nos faz abruptamente descer à terra, arrependidos e entre mil perdões, percebemos que voltámos a ter tudo para fazer para ontem.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:30









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