Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



III Os segredos dos outros

Sábado, 28.07.12

Do de Estado ao amoroso, o segredo é a alma do negócio e sendo isso verdade é preciso quem se disponibilize para o acautelar. E que de preferência o seja capaz de aferrolhar a sete chaves.

  Ameaças? Curiosidades várias, consciência pesada, distracção, não saber quando parar de falar, prejuízos próprios da alcoolémia, favores, dinheiro...

  O princípio do fim? A pergunta: "Queres saber um segredo?".

  O fim? "Sabias que...".

  Um segredo exige ombros fortes para ser carregado, mais temperamento imperturbável e carácter não impressionável. E outras tantas características singulares que fazem escassear ainda mais os candidatos.

   Quem guarda um segredo remete-se ao silêncio. Faz votos. Diz não à tentação. Fecha-se. Esquiva-se aos apertos, para não deixar escapar nada.

É um túmulo. Ou um poço sem fundo.

Disfarça.

Faz orelhas moucas.

Nega.

Não cede. Tem fibra moral.

Sofre sozinho.

   Pedir para guardar um segredo tem um tanto quanto de abuso. Até porque em muitos casos quem pede segredo em situação de descoberta iminente é o primeiro a abandonar o barco, dizendo em sua salvação: "fulano de tal sabia". Insinuando que em qualquer momento podia ter contado ao mundo e só não o fez porque, cúmplice, não quis, estando tão ou mais envolvido em tudo do que o próprio. Saber escolher de quem guardar um segredo torna-se importantíssimo.

   Quem conta um segredo procura alívio. Alguém para partilhar os males. Egoísta. Quem guarda carrega. Amigo.

Guardar um segredo é a maior prova de amizade.

Dizê-lo, a traição das traições. Quando se conta um segredo confiado, troca-se de campo, de lado, de facção.

   Guardar um segredo é uma responsabilidade. Sobra para nós. Leva a um invariável: "E agora?". Dificulta-nos o seguir com a nossa vida. É escondê-lo, sabendo que alguns têm olho para o toparem à légua. É difícil. Uma espada sobre a nossa cabeça. A certa altura da vida toda a gente devia ser obrigada a guardar um segredo para saber o que custa e aprender a dar valor.

   O segredo não escolhe idades nem sexo.

Quem pede segredo só quer uma coisa: que alguém ouça, o não dizer nada a ninguém está subentendido.

   Guardar segredos não carece de explicação. Sabe-se apenas que um segredo bem guardado é um segredo que não deixa rasto e que os há mais difíceis de guardar do que outros, eventualmente por causa do tamanho, mas exigindo o mesmo: silêncio.

   Pedir segredo é um acto de confiança. Guardá-lo, de generosidade.

É uma tarefa sem termo certo. A prazo. Até a outra parte nos libertar.

Faz-se promessa. Obriga a cumprimento.

   Nem toda a agente é capaz: não tem propensão para ter a boca fechada, como se a ponta da língua lhes ardesse ou tivessem uma comichão insuportável no céu-da-boca. Até porque há alturas em que a boca nos foge para a verdade. Certas pessoas cedem ao tempo, a um pedido, a uma vingança, a uma desilusão. É mais fácil ser uma língua-de-trapos.

   Não conseguir guardar um segredo é mal visto. Não inspira confiança. Antecede problemas. Faz supor capacidades para coisa ainda pior.

   Não se percebe muito bem se com o tempo fica mais ou menos fácil guardar segredos. Talvez gradualmente se caminhe para um "não estou para isso" ou "deixem-me em paz", fugindo-se como se não houvesse amanhã dos abusadores.

   Os segredos são incómodos. Vivem o dia-a-dia abusivamente. São escusados.

Se um conhecido confessa, em allegro de choradeiras pungentes, estar prestes a saltar a cerca ou reconhece embaraçado que não perdeu, em tempos, um Porky's diga que não está interessado em saber mais. São segredos que ele partilha como se os entregasse para conservar em álcool. Presos finalmente naquela espécie de açude que é a sua capacidade em guardá-los. Empate. Tente ganhar tempo. Diga que não percebeu o que ele disse. Escape. É uma cilada. 

   Os segredos dos outros, não obrigado! Quem já não sofreu na pele os seus males?

Cada um que trate dos seus. Que os guarde agora ou que se cale para sempre.

   Sei, perfeitamente, porque é que me lembrei disto tudo, mas não posso contar. É segredo!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:50


1 comentário

De LWillow a 28.07.2012 às 16:35

Mais uma excelente dissertação escrita partindo de um mote 'escolhido a dedo' . Confesso que 'a espaços' fiquei um pouco incomodado com certas afirmações pois não gosto de segredos e acho estúpido a cruz de carregar um segredo. 'In a perfect world' , os segredos não deviam de existir e não medalho os amigos por serem capazes ou não de guardarem segredos embora concorde que em algumas raras e especiais circunstâncias é algo valioso.

Comentar post









arquivos

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D





pesquisar

Pesquisar no Blog  





comentários recentes

  • numadeletra

    Dramas balneares :-)

  • Maria

    Que delícia!!!

  • Sandra

    :) Se descobrires como se treina esse optimismo , ...

  • LWillow

    Dietas 'é uma coisa que não me assiste' e assim s...

  • LWillow

    http://www.youtube.com/watch?v=BV-dOF7yFTw

  • LWillow

    ehehehe! 'tamos nessa' 'brother' ! Mais um bom tex...

  • LWillow

    Thanks ! this reading was a pleasure !

  • Anónimo

    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

  • Lwillow

    Ora aqui está mais uma 'pérola para porcos' ! O mo...

  • LWillow

    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...


REDES SOCIAIS