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III O lado errado da folha

Sábado, 17.03.12

Um Amigo (dos grandes) viu travado um projecto porque o rubricou no canto superior direito e não no canto superior esquerdo. Ou vice-versa. Tenho dificuldade em memorizar o ridículo. Recusado. Prateleira. Ele sabia? Não. Devia saber? Não. Apercebeu-se da troca? Não. Poderia ter sabido sem ser previamente instruído? Também não. O que importava? O sítio? Não (ou não deveria). O que era necessário? A rúbrica. Mas… O que contou foi a regra. Violada. Mesmo que só existisse ali. Que só valesse para aquele caso. Por um dia. Descartável. Regra é regra! Mesmo que exija abrir um novo mar. Outro. Não morto. O meu amigo devia ter intuído. Adivinhado. Percebido. Ter um olfacto extra-sensorial que lhe permitisse saber que algo cheirava a esturro, mal tivesse colocado no lado errado da folha o primeiro C.

A (i)moralidade da história? O projecto arrastou-se durante meses. Prepotência!

        O prepotente impede. Esconde. Tiraniza. Põe para o fim. Troca o lado da folha, sem aviso. Ou arranja um especial. O sítio da cruzinha. Vive para a cruzinha. Não admite trocar a esquerda pela direita. Só há uma hipótese, aquela: a única. A de sempre. A incontestável. A obscura. Sofre de uma miopia extrema, advogando-se vistas largas. Nem olha para o lado.

        O prepotente é um falso visionário de vias únicas. Um profeta dos aflitos. Um fundamentalista da não opção. Está na repartição. Na secretaria. A despachar, a receber, a analisar, a rever. O seu processo, o seu impresso, a sua declaração, a sua candidatura, a inspecionar o seu carro. Verifica a sua e a minha pontualidade. Confirma a nossa assiduidade. Avalia-o. Escrutina-o.

Não tem capa, nem fato flamejante, mas outorga-se propriedades sobrenaturais de omnipresença e omnipotência.

Não é burro, mas parece. Não simpatiza com a inteligência. Tem autocontrole. Não desarma. É determinado. Não transige. Não vê necessidade. Não percebe. Não vê. Não admite. Lambe botas. E cús. É uma máquina. Programada: «a senhora não vê que sempre foi assim», «o senhor não percebe que há a regra», «a menina não compreende que foi o que me mandaram».

Tem má vontade. Não admite o (seu) erro. Evita a confrontação. Escamoteia responsabilidades. É óptimo a abandonar barcos. Só tem uma resposta. Não pensou na alternativa. Não concebe a opção. Não há branco se só se precisar de preto. Preto se tudo se resolver (pior) com branco. O 1 passa bem sem o 0.

        O prepotente acha-se importante. Dá-se ares de «eu é que sou o presidente da junta». Incha. Pavoneia-se. Bamboleia-se. Exige um papel. Dois, três… Não compensa a presença. É rígido. Com flexibilidade mumificada.

        Em suma, o prepotente, burocratiza. Acrescenta à regra. Complica (o já difícil). Acrescenta. Ostraciza. Concebe o inadmissível e admite o inconcebível. Justifica o impossível e impossibilita o justificável. Parece outra coisa. Gingão. Vira casacas. Apontando à mouche: ocupa-se do desnecessário. Zás!

Tem uma coisa a seu favor: cada um é para o que nasce.

 

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 16:27









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