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III Feira da Ladra

Domingo, 26.08.12

Que à terça-feira não se cabe não merece reparo. Caminha-se costas com costas, de rabo encolhido e dinheiro entalado onde não deem, facilmente, com ele em situação de apuro. Mas hoje, que é sábado, tem bicharia para assoberbar a lotação da Luz. Uma nação com continentes de sobra disposta em declive.

   É uma feira sem farturas e carrocéis. Pelo espaço distribuem-se antiquários, vendedores de ocasião, comerciantes improvisados, desempregados, angariadores de rendimento suplementar, ampliadores de mesada, empreendedores e falidos, gente que se quer desfazer e quem oferece o que lhe veio parar às mãos.

Desconfia-se, pergunta-se, oferece-se, negoceia-se. São mais os que vêm para ver, mas…

   A música abunda e não regateia gostos. Transborda do LP e do CD. Demis Roussos, Kenny Rogers e o Conjunto António Mafra em convívio abafado, sob o mesmo palco invisível, sem rivalidades, actuando para a mesma plateia de passantes, ensurdecida desde que ouviu uma Wall of Sound incentivando registos da música ligeira nacional e o melhor do disco.

   Há utensílios atravancados, alfaias em desuso, ferramentas em excedente, material obsoleto oferecido como antiguidade, enciclopédias sem procura, ex-êxitos a bom preço, mobiliário abolorecido, clássicos ainda na cor errada original, atilhos agarrando caixilhos, exemplares autografados pelo proprietário defunto, colheres e pratos de partilhas amaldiçoadas, sapatos desafivelados, revistas secando os títulos, lanternas graduadas, objectos com valores que não recompensam a fabricação e barretes para todas as bolsas. À medida que se avança a variedade aumenta.

   À cabeceira predomina o incenso, bijuteria de fabrico próprio, túnicas e estampagens.

   A rapariga com as Belas Artes a três cadeiras do desfecho encavalitou na parede descaliçada uma brochura no flanco direito das suas naturezas mortas esborratadas que garante na capa Arte Conceptual e impressiona mais do que as suas pinturas. Parece alarmada com a ideia de alguém não concluir, intuitivamente, que enfeirou aguarelas por responsabilidade única das contas e está mais inquietada com isso do que com a ideia de não vender.

   A adolescente com a T-shirt dos Ramones vazou todo quarto na bolsa da Hello Kitty e está a desfazer-se, pela melhor oferta, de toda a documentação que reuniu sobre o corpo humano mais todos os volumes da colecção sobre a fauna e flora australianas.

   Os polícias desdobram-se em vigilâncias e apelos silenciosos de seriedade. O WC está fechado porque faltou a água, dizem. «Aqui ninguém rouba nada», diz o “vendedor” de Ray Ban com a camiseta alegre à Mondrian, convencendo quem passa da autenticidade das suas lentes e do que acabou de afirmar.

   Uma rapariguinha ensonada sentada no chão estuda os seus brinquedos desmantelados pela curiosidade do seu crescimento que lhes gastou vários olhos e pelo menos um braço e duas pernas. O pai, confundido pela fraqueza, espera despachá-los até à hora de almoço, mas a manhã demovê-lo-á.

   A mulher que chegou com as alcofas transbordando de prata imitada já vendeu três travessas em estanho alterado.

   Um casal de estrangeiros engendrou uns anúncios com palavrões portugueses, como instruções para excursionistas e anuncia orgulhoso em cada um: Typical portuguese expression. Há alguns erros à mistura. Alguém devia avisá-los ou mandá-los, simplesmente, à merda para aprenderem in loco a distância que vai da voz activa à passiva.

   Um monte de folhetins a um euro cada, faz momentaneamente furor, mas, a multidão depressa se convence de que as esculturas africanas e os jogos de xadrez feitos de uma lousa exótica valorizarão mais rapidamente.

   Uns jovens em pontos equidistantes e que, provavelmente, não se conhecem tiraram fotos a idosas lusitanas e confeccionaram umas impressões sofrendo de sépia que comercializam (não sei por quanto) como ilustrações do povo que por questões técnicas relacionadas com tinteiros abaixo dos mínimos e definição deficiente, acabaram anémicas. Para além das idosas, há portas e fechaduras envelhecidas, candeeiros a petróleo e becos sem luz. Pelas imagens, Portugal persevera em andamento de século XIX.

   Há, também, capacetes das duas grandes guerras aptos para usar, máquinas de escrever com défice de teclado e canetas com aparo sensível para quem saboreia a escrita como quem prepara uma emboscada para a palavra certa e um velho com a dentição sobrante cariada (extra transacção) responsável pela cautela de tudo, enquanto o dono que foi sabe-se-lá-onde (presumivelmente engolir duas ginjas) não está.

Mais abaixo há acordeões com preços só para hoje, quinquilharia amontoada e CD’s, que se acumulam, de Amália no Olympia com limpidez suficiente para comprovar ao japonês da Nikon que ela o esgotou no último fim-de-semana.

   O homem com esquissos vulgares de mulheres melancolicamente nuas, ao lado dos fatos comprados por medida, afiança-os como valiosos, mas o sentido geral recai sobre dois cidadãos de nacionalidade rondando o Volga que dançam ao som de duas Super Bock frescas, apoderando-se de uma ponta da sombra do Panteão.

   Dois euros tinham sido suficientes pelo livro, percebo tarde demais.

   A novidade agora são umas caixas de fruta que caíram de um camião e estão a ser liquidadas a saldo por um fulano com jeitos de taberneiro e fios de ourivesaria barata (sem ligação com o camião da fruta). Também se arranjam abat-jours milaneses made in China, como novos, e monografias de heróis que acabaram vilões, igualmente em bom estado e com os dourados das letras das capas impecáveis.

O dono que foi sabe-se-lá-onde voltou e já há água outra vez.

É meio-dia e o pai da rapariguinha ensonada percebeu, finalmente, que não se vai desenvencilhar dos brinquedos.

Para a próxima venho à terça-feira.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 08:56


1 comentário

De LWillow a 27.08.2012 às 00:02

Obrigado por me teres levado a revisitar um espaço onde já não vou há décadas. Quanto ao novo formato da 'Máquina da Preguiça', acho que tem um 'look' mais à 'pro' ! A côr de fundo está excelente e a inclusão de imagens é sempre um 'tempero' que 'apura' o visual e traz mais personalização à mensagem global .
Até breve !
( LWillow, from an apartment's balcony in 'Octopus' City' with the island in front of me ;) )

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