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III Amores de verão

Quarta-feira, 29.08.12

Amores de verão ficam enterrados na areia.


O verão abre, sentimentalmente, caminho para o gato ir, sorrateiro, às filhoses, ou cobiçar as galinhas do outro lado da cerca, por causa da vizinha. Primeiro fica-se com ideias melosas e a seguir vai crescendo uma aparente comichão incómoda que faz passar à prática, como profilaxia para o fim da urticária amorosa, acabando-se com mais um lugar à mesa. O verão é tempo de amores. Sem esquisitices, mas com preferências. Não se pesam prós nem contras nem se avaliam consequências.

   Embora inconsequentes, os amores de verão adoçam a boca, animam as férias. Com eles não se sabe muito bem ao que se vai, algures a sul de nenhum norte ou 40 graus à sombra e tanto dão para aparecer nas dunas, à boleia como em versão interRail. São herdeiros de uma grande tradição e podem muito bem ser entendidos como a realeza do amor livre mais uma cabana, incenso ou velas aromáticas e produtos  à base de  cabernet Sauvignon baratos. 

   Saíem, levianos, do armário ou de onde tiverem de sair, do que os reprimiu durante o resto do ano, para viverem, desimpedidos, a "vida louca". Em modo de descoberta sacerdotal à procura de um sentido último cândido e virginal ou tomados por um frémito apimentado tipo Red light district, desdenhando resguardos e purezas. Piscam o olho à oportunidade, atentos a bons negócios, prontos para fechá-los e para o que der e vier e, ainda, dão boas histórias e ficam no ouvido. 

   São malandrecos, inconscientes, atrevidos e não conhecem idades. Vão da descoberta da cor dos olhos até... Procuram, inevitavelmente, companhia. Têm isso em comum!

   Aparecem, desinibidos, com o calor, quando menos se espera, só falinhas mansas, lançando brados de "Viva a diversão!", apreciando a festa e em caso de sucesso gritando "iupi!". 

   Se fossem a peso eram levezinhos. Um objecto e seriam um tubo de ensaio jorrando borbulhantes arco-íris e mel em abundância.

   Surgem, de rompante, trazendo areia nos pés, sal ainda agarrado à pele (mas, também, podem ser de água doce), vestindo biquíni e sempre bronzeados. São ligeiros, leves e aproveitam a época balnear, sendo apadrinhados pelos amigos. Tornam-se, rapidamente, Sonny & Cher, Kate Moss e Pete Doherty. Inseparáveis como siameses e assumindo-se por inerência.

Mais?

   Os amores de verão, são transitórios, não têm tempo a perder, quase não dá tempo de conhecer os cantos à casa. Temem-no como se suspeitassem que o juízo final é para o dia seguinte e têm ritmo próprio: o das ondas, das marés, luas, madrugadas e entardecer.

   Não pedem nada em troca e não têm compromissos, são descontraídos, despreocupados e não alimentam esperanças de algo mais nem dão em casamento. Pode até dizer-se que são descuidados. De uma maneira geral, não complicam e, também, não exigem grandes explicações.

   Nascem onde calha, não se queixam de falta de mobilidade, estão sempre em trânsito e por isso são poliglotas, dizem facilmente: amo-teI Love you, Te amo,  Je t'aime, Ti amo, Ich liebe dich, Ik hou van je...

   São ocasionais, para quem tem disponibilidade, surgindo entre parceiros de sueca, na toalha ao lado ou à beira-mar. Geralmente são amigas da amiga e assumem que amigo não empata amigo.

   Há quem enumere com precisão e rigor contabilístico os amores e veja nisso algo tão natural como estar habituado a reconhecer nos tacos de golfe uma numeração auxiliar, mas nessa contagem os de verão são à parte, distinguem-se dos demais. São um acrescento. Se os convencionais, quando terminam são -1 os de verão são ++1. Não partem do mesmo lugar e têm um circuito diferente. É um subir ao Monte Olimpo à espera de ser favorecido e o resto é história.

   Os amores de verão assemelham-se uns aos outros: duram o que têm de durar, consomem-se rápido, trocam, rapidamente, carícias, partilham protector solar e alimentam-se em esplanadas.

Saem à noite e acordam de manhã, vão juntos à piscina e aparecem com as mesmas olheiras.

Apreciam o pôr-do-sol, mas esperam por vê-lo nascer.

   Para que não passem despercebidos, dos amores de verão sabe-se que, vêm e vão, não fazem juras, nem prometem amor eterno. Não têm muito para dar, pertencem à época. São sazonais, passageiros, efémeros, não fazem frete nem se fazem velhos. 

   Os amores de verão são tempo bem passado. Duram enquanto duram, pois requentados não sabem tão bem. Essa é a razão porque não são para sempre, vão na onda e acabam sem mágoas. No fundo, acontecem porque têm que acontecer.

No fim,  deixam contacto e  partem, dizendo até para o ano. São de aproveitar e depois como diria José Cid em relação a Um Grande, Grande Amor:


Adio, Adieu, Auf Wiedersehen, Goodbye
Amore, Amour, Meine Liebe, Love Of My Life

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 17:19









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