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III Atrasos médicos

Quinta-feira, 06.09.12

"O senhor doutor pede desculpa, mas está atrasado", anunciou a morgada da portaria, ilibando o médico, como quem o salva de uma lapidação sumária, aproveitando uma altercação homeostática súbita que o reteve para lhe legitimar a falta.

"Oooooh!!!", ouve-se em sinal de desilusão colectiva.

"O senhor doutor pede muita desculpa.", repete a recepcionista, descrevendo-o como incapaz de resistir a tirar das trevas esterilizadoras um milhar de agentes de propagação de doença identificados no rastreio hospitalar.

  Para a minha contabilidade pessoal a situação soma-se à última vez em que estive no consultório em que a razão da demora foi uma espécie de rebentamento de bexiga. Mas houve outras ocasiões de maiores ou menores complicações que resultaram em adiamentos, delongas, prorrogações e protelações.

Um desaguisado de bojadores médicos abdominais, achaques respiratórios uns mais temperamentais do que outros e de dificuldade superior com consequências idênticas: atraso.

  E nós, espoliados da saúde, com dores não debeláveis, imaginando-o atravancado com suturas, gangrenas inesperadas e febres coléricas incapazes de contestar, desculpando-o, altruístas. Reconhecendo-lhe um dia com pelo menos trinta e sete horas de conquistas médicas ininterruptas, acumuladas em hospitais, centros de saúde, consultórios, ambulatórios de norte a sul do país.

Os da marcação das nove ficando para as dez, esses caminhando para as onze, alterações em escadinha e eu avançando impávida e involuntariamente nos degraus até à viragem de um século próximo, a meia cura de um desfecho saudável, imediatamente, atrás da propaganda médica. Não contestando os empecilhos médicos repentinos (por medo às represálias) que fizeram o senhor doutor voltar atrás, estacionando de volta o BMW na sombra reservada. Compreendendo a sua falha. Apercebendo-me dos plantões acumulados, das clínicas sobrepondo-se, urgências assoberbando-o, piquetes solicitando-o, mais as horas extraordinárias, domicílios e os horários extra.

"E vai demorar muito?", pergunta o da marcação das treze.

"O senhor doutor acabou de ligar a dizer que saiu agora de banco", contrapôs a funcionária, defendendo o patronato com dentes de quem não tem pele para desaforos, crescendo dentro da bata branca, enquanto fecha a porta do meio gabinete a que o especialista tem direito nas instalações que partilha com os colegas da ginecologia, ortopedia, clínica geral, pediatria e nomes cumpridíssimos fazendo adivinhar capacidades médicas extraordinárias, a que chamam pomposamente "Centro Clínico".

"O senhor doutor acabou de sair de banco", repete salpicando o branco da bata com a sua ira, apropriada a quem se especializou em apanhar um ror de palavras por minuto, em débito agressivo, rápido e continuado, fixando-as estenograficamente primeiro, e depois passando-as para carta (noutros tempos)  e, mais recentemente, email. Isso mais telefonemas e gestão de agenda e recursos, não sobrando daí tempo para justificar atrasos altamente compreensíveis. Até porque o tempo do senhor doutor só a si pertence, deixa ela insinuado no ar para desilusão dos aflitos. E só os infiéis da ciência médica são incapazes de o não reconhecer. Nós, pagantes ingratos, pouco cuidadosos, que se deixaram adoecer.

   A parte da sala de espera adstrita ao meio gabinete  do senhor doutor foi transbordando de mazelas: pernas lascadas, braços imobilizados, pessoas que só estão para mostrar exames, reis magos com oferendas de caixas Casa Ermelinda para trocar por disponibilidade.  

"O senhor doutor está ligeiramente atrasado", lança a secretária do nosso especialista em atrofias e contratempos do sistema imunitário para o casal de tísicos, recém-chegado, que procurava informações junto da jovem vestindo na íntegra um catálogo de "roupa alegre e colorida". Confirmando essa evidência aos que a rondavam em especial os das marcações das dez e dez e meia que já íam a caminho das onze e meia e meio-dia, respectivamente.

"Veja lá o que pode fazer", solicita uma idosa com um colar cervical desempenando-lhe o pescoço contorcido à morgada da portaria.

" O senhor doutor anda muito ocupado" ouve-se retorquir dissuasora.

“Só se for para o fim do mês que vem”.

"Veja lá o que pode fazer", solicita, novamente, a idosa, com as mãos dispostas em apelo.

As pessoas só-para-mostrar-exames agitam-se e os reis magos com as caixas-Casa-Ermelinda-para-trocar-por-disponibilidade, também.

Os meus olhos estão fixos nas caixas-Casa-Ermelinda-para-trocar-por-disponibilidade, pronto para subornar atenções. Começo a pôr em causa o dia de quarenta e oito horas do senhor doutor e a desejar que tenha vinte e quatro como o meu.

"O senhor doutor vai demorar?", questiono.

"O senhor doutor foi almoçar.", responde a recepcionista incrédula, por uma manhã perdida não ter sido suficiente para eu perceber que o tempo do doutor é diferente do dos doentes.

"Almoçar?", pergunto céptico, questionando, novamente, para verificar se ouvi bem. Percebendo ou supondo, pelo espanto da recepcionista, que estou cinco horas adiantado em relação ao "horário médico".

"Não quer que ela não coma, não é!", responde ela percebendo a minha desilusão. Provavelmente, com as contas da conversão do "tempo normal para o comum dos cidadãos" para  "horário médico" e concluindo que, contas feitas, afinal, o doutor está praticamente em cima da hora.

  Calo-me. Arrependido de ter perguntado. Sem querer ser responsável pela sua debilidade. Esperançoso que o almoço o liberte da fraqueza e lhe dê inspiração médica suplementar, para não errar diagnósticos, libertando os enfermos das dentadas de rafeiros microbianos que andam por todo o lado e estrafegam o que lhe aparece pela frente com saúde. 

  Observo a aia, remexendo a agenda, e espero um milagre: não ter que voltar outro dia. E, sem hesitar, olho primeiro para os reis magos (Baltazar, analisando-me desconfiado) e levanto-me, passando-lhes à frente.                                                                                                                

  Ultrapasso Baltazar pela direita e Melchior pela esquerda. Gaspar há muito que ficou para trás. Perco, automaticamente, o lugar onde estava sentado para a marcação das dezassete. Pisco o olho à morgada da portaria que pára, momentaneamente, de escrever um email e entrego-lhe, discretamente, uma caixa da Casa Ermelinda reserva que tinha no carro e que vem comigo sempre que vou ao médico. A marcação das duas e meia é minha.  

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 07:50









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