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III Cara-metade

Segunda-feira, 10.09.12

Um Romeu sem Julieta só vale metade. O mesmo se diga de Bonnie sem Clyde. Furos abaixo das possibilidades, subaproveitados e aquém das expectativas.

   Essa é, pelo menos, a minha desconfiança. A cara-metade é a parte em falta. O nosso find Wally particular. Os cinquenta por cento que procurávamos e nos equilibram o orçamento sentimental, hormonal, afectivo. Que nos escapavam ou escondiam e nos oferecem a redenção para as nossas insuficiências.

A cara-metade preenche, completa. É um passo de gigante para uma dream team, conquistando campeonato atrás de campeonato.

Está na cara!

   Mas, complica-nos as contas. Esquiva-se. Às vezes é o trabalho de uma vida e outras não chega. Por não sabermos muito bem onde procurar, para começar. E porque vive de encontros e desencontros, de experiências, erros de casting, de ir em conversas.

  Quem procura cara-metade tem de ter para oferecer à procura. Seja ela obcecada, espontânea, desinteressada, metódica, sem rei nem rock. Capaz de afugentar, motivar, estimular. Atenta, encontrando quando menos se espera, com sucesso quando não procura. 

Quer em pânico ou ânsias. Quando exagerada ou discreta.

Como quem não quer a coisa ou apregoada aos quatro ventos.

Em andamento acelerado ou instalada, confortavelmente, numa  LC4 Chaise Longue exclusiva, com a revista preferida disponível.

   Quando o encontro é feliz é a nossa cara. Inteira. Somando e seguindo.

Encaixa. Avança em progressão de Tangram, já com Wally debaixo da asa.

Dá-nos a sensação de estarmos ou sermos completos. É um compromisso desejável.

   A cara-metade tem a ver com ir com ela.

Se todo o bocadinho acrescenta, em relação a qualquer cara-metade o que dizer dumas suíças fartas e cuidadas para toda a vida?

   Mas há mais perguntas. 

Quem dá para cara-metade?

E o que é que leva a uma?

O que fica para cara-metade?

O que se exclui?

Tormentos?

   Em relação a esses, não são meia dúzia de sardas ou um nariz mais aquilino que impedem de se juntar à sua cara-metade. Ou o ruivo mais crespo e arrepiado.

Também não há regras. A uma cara redonda pode caber uma cara-metade pontiaguda.

Ao rosto mais luminoso pode convir uma cara-metade sorumbática.

Às maçãs do rosto mais vermelhas a tez mais pálida.

Com sobrancelha farta pode ir bem um par de circunflexas.

A anca roliça não afugenta.

A barba hirsuta não intimida.

O esquálido não tem que se sobrepor ao gordo.

Dente encavalitado pode não rejeitar dentição perfeita como, também, a pode trocar por um sorriso desdentado.

Às vezes até o improvável resulta. Como aqueles gelados Ben & Jerry’s com sabores e combinações estranhas. Uma cara-metade pode muito bem ser um Late Night Snack (sorvete de baunilha com calda de caramelo levemente salgada com pequenos pedaços de batata frita, segundo indicação dos próprios). Metaforicamente falando, claro!

Atenções?

   As caras-metades podem não ser um verso e reverso perfeito. Escolher cara, sair coroa e não resultar daí dano. Uma roca com mais de um fuso.

A cara-metade pode não ser evidente.

Pode até, muito bem, não ser a escolha perfeita.

Por ir por tentativas, acabar não acertando à primeira, segunda ou terceira.

Findar ou começar num piscar de olhos ou passar despercebida enquanto ele dura.

A cara-metade pode ser a parte mais feia ou mais bonita.

Pode ser um + que se junta a um - ou o contrário.

Nem sempre tem lógica.

   Mas para funcionar, a cara-metade é acolitada por uma personalidade que encaixa, uma química que não aparta, gostares que não chocam, regras que não impedem, manhas, tiques e manias que não impossibilitam a convivência.

Complicações?

   Nem sempre se percebem ou antecipam. Porque quem vê caras nem sempre vê corações e há quem consiga esconder no mais recôndito dos fundos o que não interessa: um ressonar porcinobufando em apneias asfixiantes e sonoras; não se importar de viver num aterro sanitário e em Karaoke histérico e constante.

   Porém, se a Romeu se subentende Julieta, no que às caras-metades diz respeito, com o tempo vão aparecendo borbulhas temperamentais, alguns pontos negros de mau feitio, rugas inultrapassáveis. Os resultados deixam de aparecer.

O problema maior é aquela altura, triste, terrífica, princípio do fim, em que se olha para o espelho  [tarde demais para um  facelift conciliador]  farto do que se vê e sem gostar mais da cara... metade.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:36


1 comentário

De LWillow a 12.09.2012 às 01:50

A questão das caras-metades é que no fundo o que gostamos e satisfaz nelas é ... a nossa metade e não a metade delas, isto é, o que amamos mesmo é a nós próprios e a cara-metade será sempre o 'mal necessário' por não sermos capazes de materializar/duplicar o que de nós não somos nós próprios. A cara-metade é sempre (na melhor das hipóteses) a 'aproximação' do 'nº de lotaria' premiado que ambicionamos semanalmente poder sempre ter na carteira . Agora ... há que ter sorte pois para muitos até a 'aproximação' é uma miragem e um 'nº em branco' só lhes serve de 'conforto' porque no mínimo não têm o bolso vazio.

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