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III Fim do verão, fim do mexilhão

Quinta-feira, 13.09.12

Para todas as mulheres que, invariavelmente, durante o veraneio, vêem os esposos contaminados, por imitação, pela síndrome da captura obsessiva de bivalves. Pagando pelo envenenamento com o encargo obrigatório da transformação diária da sua apanha em pitéu.

 

 

O homem  do bronzeado listado e artérias congestionadas adiantou-se em passada vigorosa de Usain Bolt para a revessa da barraca, vindo, directamente, da matança: três quilos de bivalves voando do ninho oceânico para uma primavera prisioneira em banho Maria, azeite e especiarias q.b. na cozinha do fogo arrendado para a época.

Manhã usada na íntegra. Submerso nas paredes das piscinas naturais, perseguindo os tesouros que se escondem na sua rugosidade, em equilíbrio instável. Separando o trigo do joio, em peneiração atenta e selectiva.

Gene Simmons de Speedo e saco de plástico transbordando de mexilhão, apanhado com mestria de homem aranha galgando rocha, esgueirando-se à concorrência como quem não dá tréguas aos arqui-inimigos.

Costas refulgindo, com a cor a que Rui Costa, em tempos de glória, gostava de se entregar.

Passada vigorosa de Bolt, altiva, como quem enceta jornada no ar, circulando sobre cabedal italiano para almofadar a pegada.

Saco transbordando de espécimes timidamente vivos com a concha negra azulada estorricando. Campeão inflado de uma Champions league de apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse. Açambarcadores da maré vazia, rivais da biodiversidade. Distribuídos às mãos cheias pelos territórios de pernoita da espécie.

As costas com o rubor que Rui Costa gostava de usar. Em labaredas. Alerta laranja. 

Orgulhoso. Preparado para fazer mais vítimas.

"Para arranjares para o almoço", diz à mulher, mal corta a meta, fazendo-a saltar páginas  na Crónica Feminina. Passando-lhe a taça. Diana arrependida, estendida na toalha, divorciada da caça e com leitura comprometida. Sobressaltada. Cabeça ainda tombando para a revista. Sonolenta. Sonhando com mexilhões gigantescos irados acabando de tomar o mundo, fazendo reféns terráqueos sanguinários, aproveitando-os para a frigideira, salteando-os, vingando os companheiros que tombaram época balnear após época balnear às mãos, sem remorsos, dos apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse.

"Não te esqueças os de limpar bem", aconselha o esposo, membro dos apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse, com desejos de grávida, colocando-os aos seus pés como tributo à sua Diana reformada da caça.

Os outros apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse invejando-lhe o saque como abutres. Sem medo aos mexilhões extraterrestres. O areal demasiado módico para todos aqueles caçadores furtivos, naquele oeste marítimo iodado.

"Os de ontem não estavam bem lavados", acrescenta enxertado em boa disposição. Descrevendo a higiene parca, pretérita, do seu garimpo mexilhoeiro como uma púbis sobrando do exterior da concha assexuada.

"Amanhã apanho mais", garante preparado não para enfrentar mares traiçoeiros, mas as derrapagens inerentes a quem avança sôfrego pelos rochedos molhados e com penugem marinha deslizante, com o fito da captura da presa e sem preocupações suficientes para não acabar estendido sobre os agulhões dos penhascos, resvalando, com as costas lancetadas pela caruma vulcânica como um faquir impreparado.

A mulher olha-o, incrédula, resignada ao confronto com a aderência das cataplanas e ao desbaste da púbis bivalve, como quem diz:

"As coisas que a gente faz por amor!".

Resignada. A contribuir para a final da Champions league de apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse. Com expectativas de ver os mexilhões com direitos de espécie protegida ou aguaceiros poderosos e marés vivas horrendas, capazes de os rapar da costa vitaliciamente. Disposta a ceder o marido a uma terapia especial que o torne um cidadão consciente da necessidade da reposição dos stocks marinhos ou o leve a alternar os mexilhões por estrelas-do-mar, sem préstimos apreciáveis para refogar.

"As coisas que a gente faz por amor!", repete, arrependida e consciente de que isso vai desaparecendo como um rímel que vai esborratando e precisa urgentemente de retoque.

"Pescada com todos", pensa em tom de grito de Ipiranga, lembrando-se do jejum forçado interrompido pelo mexilhão dos almoços, com que obrigatoriamente se vai amanhando.

Para o ano apregoará para si o acumulado de anos de dedicação conjugal. Sofrerá por insinuação hipocondríaca de enfizemas gravíssimos, faltas de ar ininterruptas e devastações pulmonares improváveis. E insinuando-se em apelo "As coisas que a gente faz por amor!" reclamará veemente, na fronteira do impropério, que férias só nas termas.

Enquanto isso não acontece, felizmente, amanhã têm de entregar a casa e o verão está a acabar.

Se o plano das termas não funcionar, pelo menos, na pior das hipóteses, mexilhão só para o ano.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 08:19









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