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III Um dia nas corridas

Quarta-feira, 26.09.12

Conduzir não devia ser para todos. Conduzir faz soltar a franga. Impacienta. Violenta. Transforma a dona de casa pacífica a caminho das compras, num bombista sem escrúpulos. O Nobel da paz no Inimigo Público número um. Torna irreconhecível. Conduzir não devia ser para todos. Devia ser selectivo. Com direito de admissão. Ser preciso ganhar vez. Só para quem continuasse igual ao que era antes de entrar no carro.

  Ao volante acabam as indecisões, os modos, a paciência. Vale tudo. O pigmeu agiganta-se. O pacifista radicaliza-se. Somos leões esperando a presa desidratada para lhe dar uma coça quando aparecer para beber água.

  O trânsito torna irreconhecível. Tudo serve de pretexto para a mudança: o fluxo, as obras inesperadas e respectivas alterações, o estado do asfalto, as aselhices de terceiros, as passadeiras.

  A passadeira é um empecilho no percurso dos aceleras. Um tracejado proibitivo.

  Uma passadeira é um farol controlando passagens prioritárias. Um vórtice no local certo, sugando para a segurança. Protege. Dá abrigo.

Exige respeito e pressupõe ser acatada. É uma autoridade silenciosa.

  O problema da passadeira é que a passagem a certas horas do dia ganha contornos de corrida automobilística. Pais com crianças pela mão a caminho do infantário, saindo das escuderias escolares e equipas rivais versus condutores empenhadas em conseguir o melhor tempo de chegada ao emprego, conquistando pontos extra, precisamente, na renúncia à paragem na passadeira.

  O desrespeitador-de-passadeiras é assanhado. Não se intimida. Olha para o lado quando a vê. Desmerece-a. Desconsidera-a. Ridiculariza-a. Pergunta sarcástico: "Ah, estavas aí?". Investe sobre ela, planando acima dos limites, quando devia parar. Acelera em altura da travagem intuitiva e necessária. Prefere o viaduto e só reconhece o agente de autoridade.

Um apressado que conduz como quem rouba Helena. A caminho da fuga para a vitória. 

Não está para cumprir ordens. É mimado, birrento e faz como lhe apetece. Finge não perceber: "Ah, era para parar?".

Adultera prioridades. Põe-se à frente. Fica com a vez do peão.

  O desrespeitador-de-passadeiras é um Buck Rogers queimando atmosferas enquanto reentra em territórios alheios. Capaz de cortar gargantas pela prioridade, deixando para trás mulheres indignadas, esbracejando como Kali

Um cavaleiro do asfalto usando psicologicamente um capacete com marcas de óleos e pneus como um elmo velocipédico. Ávido por chegar, rapidamente, a Camelot.

Para ele  uma passadeira é uma meta instigando um confronto interior: "Consigo chegar antes dele, consigo chegar antes dele!". O "ele", o peão, em caso de vitória própria tomba, invariavelmente, sobre a zebra ante o impacto da derrota do condutor, que tendo chegado em simultâneo fez embater sobre o oponente o chassi da sua derrota.

Para si uma passadeira é uma provocação. Um perigo. Um atiçador de predadores da velocidade. É um fruto proibido.

É uma zona segura a saque. Um porto de abrigo, transformado em Pearl Harbour sob ataque cerrado.

Por sua causa, a passadeira mata quando era suposto salvar. Convida a acelerar quando devia fazer parar. 

  O desrespeitador-de-passadeiras tem pressa. Sempre. Mesmo quando não tem. Não se obriga a parar. Não percebe porque tem de o fazer. Teme a imobilidade. Distingue-se em tudo do peão.

O peão é vagaroso. Atrapalha. É um caracol sem a casa às costas.

  Ao primeiro contacto com a passadeira dá-se no desrespeitador uma inversão: "Ah, ele é suposto fazer isso, então faço assado!".

Dá-se ares de Schumacher sem regras para cumprir, sofrendo de um daltonismo especial para listas. Não segue convenções. Não cumpre códigos. Age sob a égide do ronco do motor poderoso, conquistando espaço, cavalo a cavalo, forçando a circulação.

Não liga, não repara, desobriga-se. Subjuga, arrasa, perdoa-se, justifica-se. É implacável. Nada o detém. Leva tudo à frente. Faz jejum ao que deve ser. Conduz para a vitória.

A esperança de o travar reside, unicamente, no vermelho do semáforo ou na obrigação de parar para reabastecimento.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 16:31









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