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III Ter ou não ter estômago

Terça-feira, 02.10.12

Ter ou não ter estômago vai da atitude. Ter estômago é contar com ele. Tê-lo disponível como confidente 24 horas por dia e preparado para o pior. De sobreaviso.

  Embora possa parecer estranho uns têm mais estômago do que outros. Ultrapassa a questão anatómica. O de uns enche mais depressa do que o de outros. O desses não está para aturar. Não tolera desaforos. Deixa ir até um certo ponto e depois não se aguenta. Diz, imediatamente, o que tem a dizer. É desbocado. 

  Primeiro vem o estômago, depois a moral, dizia Bertolt Brecht. Primeiro vem o estômago? Será? O estômago pode ser o sítio onde reside a nossa consciência. Como se ele precisasse de ser digerida. Metros quadrados de arrumação sem fim. Uma arrecadação moral espaçosa.

  Uma consciência intranquila é um estômago em sobressalto, ardendo em labaredas altas, consumindo-se num fogo eterno. Não se acalma com pastilhas ou chazinhos. Soluça e ganha azia. É sensível. Não consegue engolir tudo. Há um limite para o que consegue suportar, para o que cabe em si. Não resiste a tudo. Insurge-se. Incha da acidez e cede nas costuras. Uma consciência incomodada apoquenta tanto quanto um estômago pesado. Não se sabe onde acaba um e começa o outro.

    Com a idade um estômago vai ficando com menos paciência. Dá sinal. Ronca. Ressaca mal à medida que vai ficando mais velho. Anda às voltas, centrifugando traições, desaires, trocas, atropelos, despromoções, pesadelos. Destrambelha. Barafusta. Farta-se. Exige mais explicações. Vai aos arames.

   A história do estômago está repleta de gente suando fininho, alguma sem coluna vertebral. Estômagos chorando lágrimas de crocodilo ou de lata, suportando horrores.

   Um estômago é de pôr para dentro e engolir em seco. Até ao dia em que rebenta. Mesmo o estômago mais distraído se apercebe do que o rodeia e guarda gastricamente recordações que duram uma vida. Das ânsias do exame de condução ao nascimento do primeiro filho. É nessas alturas que se percebe a “opção” evolutiva da vaca por quatro estômagos. Do ponto de vista humano, um estômago sobressalente seria um extra para digerir os engulhos que vão surgindo. Mas as coisas não evoluíram nesse sentido e resta-nos um estômago para dar conta do recado.

   A verdade é que um estômago tem queda para ter dores de barriga. É da sua natureza.

Incomoda. Tem crises. Sobressalta-se. Começa a ferver.

   Consequências?

Um estômago preocupado deteriora-se, envelhece rápido, especialmente em alturas de apertar o cinto. Fica depressa com cabelos brancos. Vai-se abaixo.

Deixa-se engordar. Ganha barriga.

Um estômago embrulhado é um estômago em apuros, emitindo um SOS, esperando que lhe salvem a alma.

As finais europeias são mal-estar garantido para o mais resistente dos estômagos. Exemplos? 

 

                    1964/65 Inter-Benfica, 1-0 (Taça dos Campeões Europeus)

                    1983/84 F.C. Porto-Juventus, 1-2 (Taça dos Vencedores de Taças)

                    2004/05 Sporting-CSKA Moscovo, 1-3 (Taça da UEFA)

 

Mas também o Tratado de Tordesilhas após a descoberta do Brasil pelos portugueses dá cabo de um estômago.

Para não falar dos triângulos amorosos, que o digam Brad Pitt, Jennifer Aniston e Angelina Jolie ou Woody Allen, Mia Farrow e Soon-Yi Previn. Não há estômago que resista!

  No que me diz respeito, o meu é mais de dar dores de cabeça, por ser temperamental, ter um sentido apurado para as injustiças e boa memória para as guardar em local à mão e sem humidades para se vingar na primeira oportunidade. Mas não me posso queixar. Há estômagos mais sensíveis que exigem serem levados nas palminhas. Não o meu, que aguenta mesmo os embates mais fortes.

   Um estômago tem subtilezas. Um vazio não serve para tomar boas decisões, por exemplo. 

Um bom estômago não se compra por catálogo. Os mais frágeis sucumbem às mãos dos temperos e condimentos. Autênticas guerrilhas interiores. Assassinados por malaguetas sanguinárias. Perseguidos por fritos oleosos. Guisados gordurosamente densos. Pétain entrando-nos pelas entranhas e nós resistindo à potência estrangeira invasora.

Mas, também, conversas desagradáveis, contas por pagar, filas de espera, trânsito congestionado, companhias indesejadas entopem o carreiro intestinal, sobrecarregando o estômago mais organizado no normal despachar de serviço.

   A sorte é ter um estômago sem vergonha ou duro de ouvido que não se aperceba das coisas e que nos deixe em paz. A ignorância não é boa conselheira, mas tem a vantagem de não provocar ardores nem irritações estomacais.

   Mas mais do que um estômago que aguenta tudo, bom é ter um grande par de tomates.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 14:35









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