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III A conversa de chacha

Sexta-feira, 19.10.12

Quem não sentiu já os seus efeitos? Dispensa apresentações e é impossível escapar-lhe. Consideramo-la agitadora, mas não desafia, propriamente. É mais de entreter.

Diz sem dizer. Faz de conta. É circunstancial.

Não tem tema principal ou único: o tempo, aquela jogada, aquele episódio, o político, a novela... isto e outro tanto, servem perfeitamente.

Percebe-se que não é de fiar. Mal começa, deve-se aproveitar para fugir de si a sete pés. Enquanto é possível.  

   Palpites? Não?

Tem tempo certo e altura adequada. Vive de reações. Apercebe-se disso e aproveita-se: das ocasiões, da paciência alheia, de não haver nada de melhor para fazer. Alimenta-se do ar que respira e é um produto dos tempos.

Pressupõe que: ninguém se importa, é o desejável, será uma mais-valia.

E adapta-se. É um réptil com aspirações a mamífero superior.

É predatória, apanha os mais desprevenidos e ataca os mais fragilizados.

   Chega de pistas? Ainda são insuficientes? Continuemos, então.

Forma-se com base em eras de tédio e períodos de solidão. Situa-se na ponta da língua.    

Floresce nos elevadores, velórios, salas de espera, primeiros encontros, situações incómodas, inusitadas, comprometedoras ou confrangedoras e a caminho do bloco operatório para a cirurgia que nos horroriza.

Não marca posição. Surge quando não havia nada para dizer ou quando nem sequer era preciso fazê-lo.

Conta anedotas, faz trocadilhos, perde-se em baboseiras, considerandos e trivialidades. 

Prepara o estômago, faz o aquecimento, abre caminho e embala para uma conversa importante.  

   Já desconfia? Ainda não? Mais pistas? 

Não adianta nada nem acrescenta. É de falar  sem se perceber de quê. É treta. Não diz coisa com coisa. Banaliza, não dá uma para a caixa, não diz nada que se aproveite, algaravia baboseiras e pragueja.

   Então já percebeu do que se trata? A olhar para o título também eu. Mas, se disse conversa de chacha, acertou.

  A conversa de chacha faz comentários de circunstância. Não se percebe o que ela quer. Puxa a interjeição, suscita a concordância, desbarata atenção, não se preocupa com o desenrolar dos acontecimentos, não fraqueja, não desarma nem dá tréguas. É uma espécie de maratonista robusta que termina quando tiver de terminar.

Dela não se tiram lições. Não educa nem cultiva nem se aproveitam informações para decisões vitais ou outras. 

Não serve, portanto, para muito, mas serve para alguma coisa: para desinibir, para pôr de boa disposição, para não estar calado e quebrar o gelo.

   Nela, facilmente, se percebem imprecisões, erros, devaneios, especulações arbitrárias e grosserias. Desrespeita, desgoverna e arrasa a concorrência: a conversa séria. E, por isso, é pouco esclarecedora. 

   Além do mais, a conversa de chacha é espontânea, despreocupada, leviana, evasiva.Também não obedece a regras e não tem pré-requisitos nem exige conhecimentos extraordinários ou experiência prévia. Não fecha portas a ninguém. 

   Em relação à conversa de chacha gosta-se ou desgosta-se. Afinal, serve para ocupar momentos, para matar o tempo, evitar silêncios incómodos.

É mandar bitaites  [com o devido respeito por quem domina a arte].

É epidémica. Alastra numa proporção de um conversador por cada 5 indivíduos à espera do autocarro e um conversador por cada 4, partindo de comboio de Santa Apolónia. 

Pessoalmente desagrada-me. Satura, não há pachorra. Incomoda. Não nos deixa pensar. Acaba com qualquer possibilidade de discussão. É insuportável. E volta sempre ao local do crime. 

Para não falar que, do ponto de vista da comunicação, é um encolher de ombros, um bocejo, um trejeito, um suspiro.

   Por mim a conversa de chacha devia ser expatriada para um país especial: a Chacholândia. Um paraíso para a conversa de chacha onde a coberto de um gosto exagerado por banalidades residiriam, exclusivamente, os apreciadores e os interessados. Todos aqueles que quisessem desfrutar de um diálogo prometedor não teriam aí lugar. Frases começando com "Já viu que...", Nem parece que estamos...", "Já não há remédio para...", Isto cada vez anda pior...", "Repare que..." seriam escutadas em cada esquina.

Enquanto isso não acontece, continua a dita a falar do que sabe e do que não sabe, retirando protagonismo ao pensar no dia de ontem e na morte da bezerra e em altura de nada para fazer ganha adeptos.

Triunfa sobre a falta de interesse e por causa disso envaidece-se. Divaga em toda a sua glória. Exagera. Empola.

   Bem, por falar nisso, e este tempo hã?!

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 14:15









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