Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



III "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?"*

Quarta-feira, 17.10.12

8.00 A.M.

Manhã chuvosa. Humidade ao rubro e temperatura incoerente. Transeuntes disputando, enérgicos, de galochas e gabardinas tímidas, os mil e quinhentos metros poças de água, até à meta na paragem mais próxima.

   A situação é dramática: óleo salubrificado, motor submergido, gasolina com octanas impotentes, sistema eléctrico alagado e cavalos-força abaixo da possibilidade de arranque.

   Infelizmente nada se estranha e a evidência da possibilidade de ocorrência há muito que se entranhou. E dissuada-se o mais incrédulo dos incrédulos de que o exposto na descrição resvala para a coincidência da semelhança com a realidade e não com a dita propriamente.

   Como não quero ferir susceptibilidades, não vou indicar marca, modelo, nem cilindrada. Até porque penso que não é por aí que se encontra a explicação para a falta de fogosidade, mas antes os tendões por um fio, os músculos exaustos, remando além das possibilidades e periferias à beira de um ataque de nervos. A cor, que nada tem a ver com o problema, é a do luto, embora o nosso relacionamento seja mais de missa do sétimo dia ou toque de finados.

   Estou consciente de que o meu carro, cuja longevidade se perde no tempo, pode incorrer em morte súbita ou enfarte ao nível da junta da cabeça. A situação é mais premente em despertares matutinos molhados como o de hoje, em que a sua colaboração não é evidente por culpa da sua alma motorizada ensopada, a qual acarreta uma combustão divagante.

    A pintura com a epiderme em equimose alastrante dissuade o furto, mas compreendo que a sua idade provecta anterior ao telégrafo é terrível para os carburadores e os quilómetros incluídos no mostrador foram derretendo os centros nevrálgicos automobilísticos.

    Sem inspeções a creditar, seguros disponíveis e pneus pressurizados de fresco, percebo que humidades acumuladas de noites passadas ao relento, degenerescências múltiplas e séculos de maus tratos ao nível da violência doméstica me obrigam a cuidados paliativos constantes e dispendiosos, bem como atrasos frequentes.

    A ruptura é eminente e o ponto morto definitivo uma inevitabilidade. De um momento para o outro, aquele a que de uma perspectiva optimista considero um chaço pode ficar-me nas mãos, soluçando num findar agonizante numa qualquer rotunda nacional ante as buzinadelas cacofónicas insensíveis dos companheiros mais saudáveis e jovens, circulando altivos, com desempenho inflacionado, alheios à sua exaustão final.

Enquanto não chega a extrema-unção, continuo de pessimismo embaciado, jogando com as probabilidades, a arriscar no seu ímpeto epiléptico e poderio desvitalizado, fiando-me na sua capacidade mínima para vencer as distâncias e me levar ao destino.

   A razão porque falo nisto é para saberem que se um destes dias não me encontrarem por aqui posso estar com ele nas urgências, consigo encomendando a alma ao criador.

 

* Apesar de ter, modestamente, consciência da improbabilidade da confusão, só o título é de António Lobo Antunes. Com o pagamento respectivo e devido em aspas efectuado. O seu a seu dono.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:57









arquivos

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D





pesquisar

Pesquisar no Blog  





comentários recentes

  • numadeletra

    Dramas balneares :-)

  • Maria

    Que delícia!!!

  • Sandra

    :) Se descobrires como se treina esse optimismo , ...

  • LWillow

    Dietas 'é uma coisa que não me assiste' e assim s...

  • LWillow

    http://www.youtube.com/watch?v=BV-dOF7yFTw

  • LWillow

    ehehehe! 'tamos nessa' 'brother' ! Mais um bom tex...

  • LWillow

    Thanks ! this reading was a pleasure !

  • Anónimo

    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

  • Lwillow

    Ora aqui está mais uma 'pérola para porcos' ! O mo...

  • LWillow

    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...


REDES SOCIAIS