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III Os favores são para sempre

Sábado, 27.10.12

Os favores pedem-se sempre da mesma maneira: "Se tu fizesses", "se tu emprestasses", "se tu fosses". Temerosos ou não, desconsideram orgulhos, sem rodeios, com calma ou de uma vez por todas, a possibilidade de fazer sozinho.

Exigem lata, cara-de-pau e só são limitados pela vergonha e pelo "não".

São preferíveis à desistência, ao abandono, à incapacidade e até há coisas que só se conseguem na base do favor, o que os torna importantes. 

   Um favor é de dar um jeitinho, um empurrão, ter uma atençãozinha. É um coça as minhas costas que eu coço as tuas.

Têm um problema, uma dificuldade, um senão. Os favores nunca se pagam. Eternamente por saldar, acabam por ser lembrados. Os favores são para sempre, se calhar não compensam.

Rebentam-nos com a independência, ficam-nos com a liberdade, cortam-nos a emancipação e são uma ameaça para a consciência.

Um raminho de salsa que se pede é um canteiro que se fica a dever. Dois ovos para uma omelete rápida passam com o tempo a uma família de galinhas poedeiras da melhor qualidade com postura média de três gemas por unidade produzida.

Um pacote de natas ou um litro de leite magro de empréstimo e passamos a ter à perna  as fábricas Mimosa.

Um pedido feito em pânico, devido a uma emergência de última hora, para ir buscar o mais novo ao infantário, permanece impagável até, pelo menos, à idade adulta do infante.

   Os favores nunca se pagam. Atiram-nos à cara, colocam-nos aos nossos pés, fazem-se valer do direito de plena retribuição ou restituição, exigem reciprocidade, fazem conta aos juros e acrescentam encargos.

Quem concede favores fica à espera. Não perdoa a quem fica a dever.

    Favores mais vale arranjar maneira de os contornar, de passar sem eles, de não haver necessidade.

   Um favor é sempre maior do que supúnhamos. Paga-se caro. Não se esquece porque tem memória de elefante. Quer sempre algo em troca, lembrando que um amor com amor se paga. Fica a reclamar vez e a dizer entre-dentes: "Não perdes pela demora". São contas por liquidar que vão sempre para lá do que nos coube. Ultrapassam o concedido. Ganham-nos em quilos por regularizar, em força, em tempo.

Com o tempo aumenta a proporção e uma chave inglesa exige retorno em efectivos Bosch e Black & Decker numa relação de 500 para um.

    Um favor é uma dívida por pagar. Um encargo. Uma renda. Exige dar de volta. Retribuição. Pede equivalência, prioridade. Não precisa que o lembrem pois está sempre presente, nunca desaparece.

    Um favor compromete, exige que em certa altura se esteja, se faça, se empreste, se dê, se consiga, se pinte, independentemente da hora, possibilidade, capacidade, porque houve um dia que, um momento em que...

Mais vale comer os Chocapics a seco, esquecer a falta que fazem os coentros.

     Há, ainda, quem mereça mais que lhe façam um favor e há quem passe a vida a pedi-los, abusador, atrás de um favor vindo outro e outro e mais outro. Sem nunca acabarem. Criando hábitos. Continuamente a fazerem-se às nossas costas, às nossas molas da roupa, ao nosso corrector.

    Também há favores mais difíceis do que outros (de pedir e fazer), mas todos apelam à boa vontade, à disponibilidade, entreajuda, solidariedade...

    Pelo dito e não dito, os favores deviam ser referendados. Alvo de uma vacinação. De uma campanha que os votasse ao descrédito. Deviam dar origem a penitência, a castigo dos deuses. Exigir o compromisso de quem concede o favor não poder exigir em troca ou haver número mínimo e com limitações. Existir um máximo de favores que se poderiam pedir no tempo útil de vida.

     Em relação aos favores, prefiro que não mos façam. Se faz favor!

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:35









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