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III Porque o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia

Sexta-feira, 23.11.12

Após a intimação por  email e telefonema, dissuadindo da desistência, chega o dia da comparência. Aperaltada e confirmada.

Embarcando em auto (com pouca fé), farsa acima, farsa abaixo, ensaiando cumprimentos, distribuindo saudades, simulando interesses, confundindo nomes e locais, entro e escolho um dos lados.

   Dá-se, imediatamente, conta de overdoses de  filé mignon e bebedeiras de beijos e abraços.

  Há marialvas avançando, aos solavancos, pelo desenrolar dos acontecimentos, instigados pela esperança na generosidade ninfomaníaca e picos de testosterona.

  Conta-se com o habitual parvo. Mais decotes afogueados. E o bem relacionado falador, o bem-sucedido maçador, o bem intencionado apaziguador, o giro e a gira, o diplomata, o desbocado, o toxicodependente revivalista, a púdica, pares de lésbicas confirmadas e a despontar pelo ambiente de conversa de circunstância em tónica easy listening.

Uma arca de Noé recheada de diversidade socializante: simpática, intriguista, tímida, extrovertida ou histérica.

   Logo à entrada dá-se de caras com mamas falsas, magreza aspirada, boa-disposição fingida, cinturas finas recentes e carreiras extraviadas

   O anfitrião, com sorrisos de todos os tipos, eleito de véspera, vai abrindo alas para o à vontade. Dá um jeito à cerimónia e deixa escapar salamaleques. Entrega boas-vindas em espírito tão-lindos-que-nós-eramos, ajudado por alguém com motivação um-por-todos-e-todos-por-um e um banqueiro do endividamento em busca de novas oportunidades, sustendo a respiração para encolher o abdominal descontrolado.

   Há olhares vários perdendo-se pela sala: lúbricos e de que-merda-de-ideia-que-eu-havia-de-ter. Mas, também, de onde-é-que-eu-estava-com-a-cabeça e porque-raio-é-que-eu-não-arranjei-uma-desculpa?. 

  Um conviva de tipo a-bomba-que-lá-está-fora-estacionada-é-minha, de sucesso suíço de vários quilates no pulso, envolve-se, invariavelmente, em altercações com um adeus-e-até-para-o-ano e um se-isto-não-der-molho-não-vale-o-dinheiro. Há, também o grupo dos que pesavam menos à entrada do que em casa, em dieta continuada e esforçada. E crianças, muitas crianças. Fugindo às ex-grávidas do ano anterior.

   Os menus são de custo controlado e o bufet  é intercontinental e disputado tanto por jovens até à baba de camelo, sóbrios até à conta, divorciados em recuperação, empertigados, sonsos, joviais e vingativos com contas antigas a ajustar, como por gente com cara de dantes-é-que-era-bom e nunca-mais-me-meto-noutra.

   Alguém da pandilha das lésbicas confirmadas, usando pulseiras-quase-iguais-às-originais, com tudo a combinar, olha de soslaio para a voz que suspira cacofónica para baixo do pescoço: "São novas, são novas!" - questionando-se: "De onde é que eu conheço aquele rabo?".

   Em torno do evento forma-se uma recordação colectiva pungente, pelos tempos do já-vimos-tudo-e-sabemos-o equivalente. Quando o desafio maior era manter o equilíbrio, conquistando-o em toques numa bola de catchum.

   Farto, despeço-me do parvo, dos marialvas, dos decotes afogueados, do bem relacionado falador, do bem-sucedido maçador, do bem intencionado apaziguador, do giro e da gira, do diplomata, do desbocado, do toxicodependente revivalista, da púdica, dos pares de lésbicas confirmadas e a despontar, dos jovens, dos sóbrios, dos divorciados em recuperação, dos empertigados, sonsos, joviais e vingativos com contas antigas a ajustar, da gente com cara de dantes-é-que-era-bom e nunca-mais-me-meto-noutra, dos que continuam convencidos tão-lindos-que-nós-eramos e com motivação um-por-todos-e-todos-por-um, da trupe simpática, intriguista, tímida, extrovertida ou histérica da arca de Noé socializante e dos que continuam a lançar olhares: lúbricos e de que-merda-de-ideia-que-eu-havia-de-ter, onde-é-que-eu-estava-com-a-cabeça, porque-raio-é-que-eu-não-arranjei-uma-desculpa?.

Cruzo-me, ainda, com o se-isto-não-der-molho-não-vale-o-dinheiro e pouco entusiasmado com mais ambiente de conversa de circunstância de tónica easy listening  e por contaminar pela recordação colectiva do já-vimos-tudo-e-sabemos-o equivalente digo: "até para o ano!" - e saio com o colega de a-bomba-que-lá-está-fora-estacionada-é-minha que está farto de esperar pela generosidade ninfomaníaca que ficou "presa" numa "reunião".

   Razões mais do que suficientes para, em relação a almoços ou jantares de curso ou liceu, preferir o pequeno-almoço. 

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:26









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