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III F*ck christmas i still got boxeurs

Sexta-feira, 30.11.12

"Lead on!" said Scrooge. "Lead on! The night is waning fast, and it is precious time to me, I know. Lead on, Spirit!"

Charles Dickens, A Christmas Carol.

 

 

O Natal primeiro é religioso. Mas, também, nos põe os familiares à mesa, agasalha-nos, perfuma-nos, põe-nos a ler e a ver séries, em quantidade caixa em edição especial, e renova-nos o stock de peúgas.

Também está no algodão das t-shirts por estrear ou dos boxeurs novos que ainda há pouco estavam debaixo da árvore de Natal. Nos aromas Hugo Boss, cujos bálsamos, ainda por penetrar, não estreitaram intimidades epidérmicas, nem conquistaram afugentando Denim a DenimOld Spice a Old Spice, espaço por entre os sinais remanescentes.

E, também, responde tendo Cadbury ou Toblerone por nome.

Está no Greatest Hits da Céline Dion que conseguimos na Amazon, fugindo a embaraços e reconhecimentos em filas, de Multibanco em riste, para presentear "prazeres especiais" de uma Jéssica Rabit conhecida.

No livro da Margarida da Rebelo Pinto que arrematámos, via auto-estrada da informação, abaixo do preço de um pack de iogurtes de aromas, e que nos obrigou a limpar o histórico do PC compulsiva e obsessivamente, receando implicações futuras e insinuação e assunção indevida de gostos.

     O Natal aproxima-se. 

Abençoadas as ligações rápidas às lojas on-line. Dêmos graças pelos talões de desconto.

Salvé, cartões Fnac!

Aleluia, cheques oferta!

    O Natal aproxima-se. Homenageia o Rui Veloso e não precisa de estrelas no céu.

Quem nunca voltou a pôr em circulação uma prenda oferecida que atire a primeira pedra. Quem nunca torceu o nariz a um embrulho do El Corte Inglês ou Bertrand, bem intencionado, que fale agora ou que se cale para sempre.

Quem não desanimou ante a abertura da lembrança, chorou ante a audição da oferta, empalideceu depois de ver o título e o autor da surpresa ou teve o sorriso a fechar-se ao ver o Vivaldi da Deutsche Grammophon a não ficar em casa.

   O Natal aproxima-se.  E está nos pormenores. Em não nos esquecermos de pôr o primo com o carro novo no extremo oposto a nós, durante o jantar de família.

Do "amigo" que nos ofereceu no ano anterior aquela prenda anunciada, por si, como "nunca vista" e dizer-lhe quando ele se depara com a gravata que lhe demos: "Na loja disseram que essa cor não ficava bem a toda gente, mas como conheço o teu gosto pelo "nunca visto" lembrei-me, imediatamente, de ti...". 

   O Natal é o nosso sobrinho a ficar com a consistência do musgo do presépio pela reacção alérgica à lactose por causa da sobremesa que insistimos que comesse.

É arrependermo-nos de não nos internarmos, voluntariamente, numa instituição psiquiátrica disponíveis para codeína,Valium e Prozac, esperando ansiosos pela chegada da Primavera.

É perdermos tempo a pensar como podemos desfazer-nos do corpo de uma octogenária (a avó da nossa mulher) que, porque está lúcida-e-diz-tudo-o-que-lhe-passa-pela-cabeça se engasga, acidentalmente, enquanto nos diz, quando nos apanha sozinhos, que a neta não teve juízo nenhum quando casou connosco. 

E, somando isso tudo, ficarmos incrédulos por não termos aprendido nada com os anos anteriores. 

São os nossos pais a contarem episódios embaraçosos sobre nós e os convivas gritando: “Bis, bis!” ou “Bravo, Bravo!”.

É anotarmos, mentalmente, desculpas para justificar a nossa não presença no próximo ano e, sendo a morte a mais convincente, treinar argumentos que tornem credível a nossa ressurreição a tempo da passagem de ano.

É a meio do jantar ficarmos melancólicos e lembramo-nos do ano anterior, da altura em que começávamos, mentalmente, a contar cadáveres por causa da nossa irmã, em encantamento de Nárnia, ter começado um flirt assanhado e cerrado a alguém-que-era-amigo-de-alguém-e-que-não-tinha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal e o nosso cunhado a arregaçar as mangas e a dar-se ares de quem não está disponível para pôr a loiça suja na máquina, mas vai acabar a lavar a honra.

E suspirar ao lembrarmo-nos de que até ao final da noite e de três garrafas de tinto da Adega Cooperativa de Borba o alguém-que-era-amigo-de-alguém-e-que-não-tinha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal e o cunhado Tony Soprano ficaram os melhores amigos.

E concluirmos que o espírito de natal é conciliador e sentirmo-nos recompensados pelos natais passados. Que a couve portuguesa quando bem cozida e acompanhada por um belo naco do fiel amigo faz sobressair o melhor que há em nós, como um rímel adensando o azul da íris. 

  Felizmente, o mito de que o Natal é quando o homem quiser, não passa disso mesmo.

Digo isto com o melhor dos intuitos, inspirado pelo sentimento da quadra e desejoso por partilhar, rapidamente, a mesa com a avó octogenária da minha mulher, lúcida-e-que-diz-tudo-o-que-lhe-passa-pela-cabeça, mais alguém-amigo-de-alguém-e-que-não-tenha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal, o meu sobrinho pronto para ficar com consistência de musgo e demais familiares e amigos. Estou disponível para dar e receber prendas desnecessárias, despropositadas e prontas para serem, novamente, postas em circulação.

Mas, uma maior frequência natalícia e, pessoalmente, não saberia como lidar com tanta emoção. 

E, além do mais, como sou estimadinho os boxeurs que me oferecem, pelo Natal, costumam durar-me um ano inteiro.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 12:48









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