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III O sítio onde se deixa a cabeça

Sexta-feira, 07.12.12

Ninguém viu a minha caneta? Não faço ideia onde a larguei. Não é pela estimação ou preço, mas pela falta que me faz. Alguém tem uma que me empreste? Não sei onde guardei a minha. Já vi nas algibeiras, na pasta,  nos sítios normais e nada. Provavelmente está no casaco de que me esqueci no carro. Clássico!

  O problema é antigo. Perco papéis, não encontro documentos, não sei onde pus livros, desaparecem-me cd's. Já falei nas chaves? Ah, claro e canetas... Pior, muito pior do que ficar com conversas a meio, por não se saber o que se ía dizer.

   Habitualmente, baralho-me, "acho que...", Tenho a certeza de "ter posto...", "de ter ficado em cima de...", mas as coisas trocam-me as voltas. Os objectos insubordinam-se e procuram novas moradas. Sobrevivem sem mim. Fazem vida à minha revelia. Começo a questionar-me se serão, realmente, imóveis.  Se o inanimado que há em si na minha presença desaparece ou, pelos vistos, ganha ânimo.

    Perco, facilmente. Encontrar deve ser para um certo tipo de indivíduo. Manter a mesma coisa. Eu sou dos que perco. Consigo a proeza de fazer desaparecer a carteira no bolso de trás das calças. Perco e pronto! Não tenho prioridades ou preferências. Mas o norte será o mais frequente. O "Onde está?" é a minha pergunta mais habitual. Assim que saio de perto das coisas  a minha memória fraqueja. O meu discernimento, também. 

Onde deixámos ontem não encontramos hoje, concluo, abonatoriamente.

A distracção perde-nos as coisas, acrescento, em defesa própria.

   Tenho agendas, obrigo-me a tomar notas, repito para não me esquecer, mas um autêntico triângulo das Bermudas cresce à minha volta, como um vórtice para onde todo o meu quotidiano é atraído. A minha realidade escapa-se pelo ralo. O meu mundo é esburacado como um queijo suíço.

A minha arrumação amontoa o que, também, não ajuda. A minha visão despassarada agudiza o problema. As minhas mãos emaranham o que sobra.

   Em relação ao lugar onde deixei "aquela" gravata perco, facilmente, a noção. No que diz respeito ao comando da TV desconheço o último paradeiro. Não vejo maneira de estar de boas relações com o que deixo de ter à mão.

   Há, sem dúvida, um génio maligno de género cartesiano que me atormenta. Não me faz crer que estou acordado quando estou a dormir. Descartes comigo ter-se-ia enganado nisso. Também não me baralha as certezas matemáticas, trocando-as por devaneios pseudo-científicos. Antes fosse isso. A álgebra não é para mim uma escolha evidente. Esconde-me, clara e distintamente, entidades concretas como a escova de dentes e sweat-shirts. Faz-me perder aleatoriamente o que quer que seja ou, simplesmente, só para me baralhar põe tudo em lugares inacessíveis e inusitados. O meu Cogito? Se está perdido é meu.

   Outra possibilidade para o meu descontrolo é um poltergeist se divertir substituindo o conteúdo das gavetas e tudo a que deite a mão.

   Preciso de referências. De um norte novo a estrear ou constelações adequadas para quem tenha dificuldade em encontrar camisas. De colaboração. Humana ou não. Satisfaço-me com uma Bimby capaz de me por as meias em ordem.

   Estou desesperado. Gagá. As minhas faculdades mentais estão por um fio. Pondero na lobotomia. As minhas certezas ruíram. Arruíno guarda-roupas. Impossibilito colecções por transvio de elementos. Preciso de várias cópias do mesmo livro para conseguir chegar à última página. Acabo a vestir o que consigo descobrir. O meu problema atingiu proporções ridículas. Tenho conhecimentos mais do que suficientes para me orientar na obra de Norman Mailer, mas sou incapaz de encontrar  o carro no parque de estacionamento. Serei o único?

Não se arranja, mesmo, uma caneta? Está mesmo a fazer-me falta! Onde é que eu ía?

Ultimamente, prometo o impossível. Detectar agulhas em palheiros. Todos os lugares são insuspeitos e servem para procurar até prova em contrário.  Juro que nenhuma pedra ficar por revirar, garanto que nenhum chapéu ficará deixado para trás, agasalho algum levará sumiço mas...  

    Claro, que se o problema é antigo a causa para ele, segundo dizem, é, também, fácil de identificar. Aparentemente, a maior parte do tempo não sei onde ando com a cabeça.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 16:18









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