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III Em nome do pai, do filho e com espírito de santo

Terça-feira, 19.03.13

Nem sempre as coisas correm bem. Há birras e diferenças de opinião quanto à abordagem mais entusiasmante das peças do Lego ou em relação à qualidade dos episódios do Noddy. À mistura com febres traiçoeiras, dores [de crescimento e outras injustificáveis] amarelecimentos súbitos, vómitos repentinos e vírus resistentes a um desastre nuclear, soerguendo-se ágeis após o cogumelo atómico. Exige-se costela estóica [vitalícia]: Sustine et abstine. Sofre, abstém-te e sê pai!

Mas, compensa. Cá em casa, na Champions League para melhor pai do mundo sou eu quem fica com a taça. Apesar de não existir unanimidade diária.

Como em dias em que visto maquiavelicamente a camisola de Inimigo Público número um com péssimo gosto para as sopas, quando como César indisputado tiranizo o comando televisivo ou quando sou implacável com trabalhos de casa em atraso. Nessas alturas não passo de uma vã promessa gozando das glórias passadas e acabo, escandalosamente, a atirar-me para o chão, a fazer-me ao penalti e a ganhar no último minuto o troféu de pai do ano. Sofrendo pelo colectivo. Vencendo dificuldades. Fraquezas tornando-se forças. Arrasando, conscientemente, com a concorrência por meios ilícitos. A recompensa? No final do desafio sou, pelo menos, provavelmente, o melhor pai do mundo.

Mas em dias como o de hoje [o do pai] percebe-se, facilmente, que aqui se torce sempre pelos da casa. Apesar das hesitações, das dúvidas, das decisões erradas e impopulares que ficaram pelo caminho que nos deixou a um passo do degredo. Por isso a votação não conta. Até porque tenho consciência de que há dias em que nem eu votava em mim e apostava nos outros candidatos. A começar pelo pai do 3º Dto que tem ar de não perder uma estreia da Pixar e se disponibilizar para um recreio com as bonecas mais do que alguma vez serei capaz. Ou um que no parque infantil oferece cavalitas com sucesso idêntico ao de anunciar juros mais baixos para a dívida portuguesa.

     O esforço começa, no entanto, muito tempo antes, numa altura em que ainda estamos em choque. Em que estamos seguros que tivemos mais olhos do que barriga. Quando começamos por tentar encontrar semelhanças. Contabilizando-as. Envaidecendo com elas. Reclamando-as. O nariz, a boca, o tamanho, a cor dos olhos, o sorriso, o cabelo. E, mais tarde, o feitio, a maneira como pegam nos talheres... Afirmando-os  iguais a nós.

Numa fase em que desdenhamos discrepâncias, contrariamos essas e outras evidências que nos prejudicam, negando parecenças alheias. Em que fazemos contas e vencemos mesmo pela margem mínima: um remoinho [nosso] num cabelo desgrenhado.

Estabelecendo paralelismos. Confirmando paridades. Ficando felizes pelo que têm de igual a nós.

Porém, alguns milhares de fraldas trocadas depois, enquanto limpamos abnegados esfoladelas, lambemos feridas, desinfectamos golpes, entre noites mal dormidas vemos as diferenças. Caminhos separando-se, gostos divergindo...

E, com o tempo, com as pernas demasiado cansadas para arriscar uma participação no campeonato para melhor pai do mundo em que nos ficamos, modestamente, pelo minimamente competente, sem arriscar sair do banco, acabamos a desejar que sejam melhores do que nós alguma vez fomos ou seremos. Vivendo bem com as diferenças. E com os dias em que nos garantem [para nossa estupefacção] que somos o melhor pai do mundo.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:14









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