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III Ser homem prejudica, gravemente, a saúde

Quinta-feira, 04.04.13

Acordo com umas dores de costas agonizantes. Agulhas espetando-se, bruscamente, em zona dolorosa, tricotando em mim um naperon penoso entre os meus bocejos.

Faço acusações a uma corrente de ar antiga mas traiçoeira e a custo consigo levantar-me.

Sinto que estou em lista de espera para alguma coisa terrível à medida que vejo o naperon crescer. Desgastado e exausto resisto mas, a minha energia foi-se. Apercebo-me em pânico do meu enfraquecimento, tremo de frio iminente e empalideço a um ritmo constrangedoramente anémico, entre suores frios a caminho.

Já fiz as contas à pulsação e estou abaixo do exigível para alguma coisa de bom. Antecipo inflamações e chagas. Conto sinais e pontos negros, enquanto as espero, para me distrair, mas há uma coisa que me prejudica, grandemente: sou homem.

    A doença tem a ver com sintomas, desarranjos e acidentes mas, também é uma questão de género. Ser homem conta. Pesa. Prejudica. Um homem não está preparado para a doença. Tem saúde mais frágil e imunidade débil. Demora mais tempo a curar-se.

    Um homem sofre  mais. Sente mais do que uma mulher, tem mais recaídas, está mais exposto a doenças reais e exageros, a gravidade psicológica é superior.

Em relação à doença o homem sente dor antes da pancada, grita ai antes de ser preciso, tem febre antes do aumento da temperatura, deixa acabar o mundo se lhe faltarem com os caldos de galinha.

   O homem entrega-se ao padecimento. Exagera. Acrescenta dificuldades, acentua fogosidades e faltas de ar, prolonga sintomas, assaca consequências inusitadas, reproduz bactérias e vacila na imunidade. Acha que não vai escapar e entrega-se à mercê da misericórdia imunológica.

Brada apocalíptico aos céus, anunciando desgraça enquanto revê a posologia. Fica doente antes de estar: chega à enfermidade primeiro que o vírus e retarda o batimento cardíaco por via das dúvidas. 

Muda a residência para as urgências, auto-medica-se e oferece-se para exames. Tenta tisanas e inalações, lamas, exposições ao sol e geografias ricas em iodo, medicinas alternativas e convencionais, conselhos fraternos, recomendações de revistas, bulas comprovadas, tratamentos por testar, procedimentos experimentais. Entrega-se ao impossível!

   Mas, o homem aproveita-se da doença. Faz-se ao mimo. Garante  que não sobrevirá à gripe se não tiver companhia. Clama por auxílio constante. Reclama ajuda omnipresente. Afirma que o mau estar não cessará se não tiver direito ao comando da televisão em exclusividade. Chantageia que bom bom, para acabar com a falta de apetite, era o seu prato favorito. Que uma almofada extra faria maravilhas e só mais um cobertor lhe acabaria com as tremuras. Que, também, não diria não a um chá quentinho, mas infelizmente a sua imobilidade forçada de múmia a tudo o impede.

   De uma coisa não há dúvidas:

em relação à doença o homem é uma menina.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 15:45









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