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III Tremo só de pensar em ter calma

Segunda-feira, 02.04.12

Há sempre algo que nos aborrece. Que nos consome. Que nos faz saltar a mola. Ou a tampa. Disparar a válvula. Algo que nos faz perder as estribeiras. Passar dos carretos.

A palavra que não conta. O orçamento que não vale. O horário (in)flexível. A fila que não é respeitada. O trânsito desgovernado. O imposto em que se volta a mexer. O combustível que torna a aumentar.

   Há alturas em que perdemos o cool que existe em nós. O porreiraço enviesa. Abandonamos a atitude party people. Ficamos cheios de mau-vinho. Zarpamos do Harlem Shufle groove e sheet will happen. Abram alas.

A paciência esgota-se. A compostura desaparece. Escapa, por entre os dedos. A calma extingue-se como os dinossauros, saltando eras.

Tornamo-nos Samuel Jackson (Jules) em Pulp Fiction, pregando:

 

There's a passage I got memorized. Ezekiel 25:17. "The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of the darkness, for he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy My brothers. And you will know I am the Lord when I lay My vengeance upon you."

 

E depois é o caos.

   Mas há sempre alguém com vocação conciliadora. Com temperamento diplomático. Um Xanax com pernas. Um Valdispert com olhos. Os “acalmadores”. De palmadinha pronta para aplicar nas costas (as nossas). Alguém que solicita ao pau-mandado que gostava de ver em nós: «Vá lá, tem calma!».

Justificando, com as contas feitas: «Não vale a pena chateares-te».

E nós ainda com a prova dos nove por fazer, já temos o troco em condições de ser devolvido. Achando que há sempre algo a ganhar. Se formos a jogo arriscamo-nos a conquistar a Champions. Graças à nossa audácia. Que se lixe a calma!

   Acalmar é desistir. É ir parar ao banco.

Protestar. Esbracejar. Praguejar. É para quem joga à frente. Ao ataque. Desde o início e até ao fim do desafio.

De nada vale dizer: «Vá, tem calma!».

Acalmar enerva [Gritado]. A calma é o que mais me irrita.

O “ter calma” não leva a lado nenhum. É um empata.

I lay My vengeance upon you, e acabamos aos tiros com Mr. 9 mm. Isso sim, é opção.

 “Ter calma” é um coito interrompido. É deixar o serviço a meio.

Ter calma não é natural. How can you have a day without a night, perguntavam os Massive Attack em Unfinished Sympathy. Impossível. Como ter um ser humano que não se enerva com nada.

Não merece respeito. O meu pelo menos. É um coninhas.

Se tivéssemos nascido para ser calmos não tínhamos nervos. Já perdemos tanta coisa na Autobhan evolutiva que ninguém daria pela falta de mais isso.

   Todos temos o nosso rastilho. O nosso pavio curto. Quando me dizem “tem calma” tremo. Ao segundo “tem calma” a minha lava revolve-se. Ao terceiro eclode em mim um Vesúvio e temos no mínimo duas Pompeias pelo preço de uma. O meu grau de tolerância não vai tão longe. Manca. No máximo suporto um “tem paciência”. Tops.

   Não preciso que me lembrem os maus livros dos meus escritores favoritos. Que votei mal. Quando oiço pronunciar Bee Gees franzo o sobrolho. Ao avistamento de um exemplar de Nicholas Sparks, rosno. Paulo Coelho, parto para a violência. ABBA e já sou homem-bomba.

Não quero ter calma. Para mim a calma não é para “ter” é só para saber que “existe”. Tem clientela própria como a Quinta da Marinha ou Vale do Lobo. 

O “ter calma” enerva-me. Mexe-me com os feles. Dá-me cabo dos fígados.

Ao primeiro “tem calma” saio do auto-controle para comprar cigarros e nunca mais volto.

O “tem calma” atinge-me com precisão de sniper. Vai-me cirurgicamente aos pontos vitais da minha pachorra.

Fecha o tribunal da contenção (com ponte assegurada) e abre a portinhola da justiça pelas próprias mãos.

Parto, imediatamente, para a ignorância. Digo [Gritado]: “#$&%%$&%/*1(/+?

   Hipertenso? Claro.

Adoro o sabor a Nebilet 5 mg pela manhã. Inteiro. É um pequeno preço.

O quanto não vale um valente murro na mesa!

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:33


1 comentário

De LWillow a 02.04.2012 às 15:55

eheheh ! eh pá, tem calma ! ;)

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