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III Não corra, pela sua saúde

Quarta-feira, 04.04.12
Murakami

 

O despertador tocou cedo. Acordei dorido da preparação psicológica para a corrida matinal. O entusiasmo da primeira vez. Na mesa-de-cabeceira estava O Auto-retrato do Escritor enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami, que tinha lido antes de adormecer.

Ser saudável exige vocação. O sedentarismo é pacato. Não entusiasma. Não sai do mesmo rangue rangue. É precisa motivação. Extra. Doses generosas de Murakami enquanto Corredor de Fundo.

    Nunca somos bem o que gostaríamos de ser. Temos sempre menos para nos orgulharmos do que desejávamos. Sob todos os pontos de vistas, incluíndo o físico. Biggest Looser armado em campeão olímpico.

Naquela manhã correria para a vitória. Para a auto-realização. Não daria ponto sem nó. Superaria as expectativas. Convencido de que o colesterol nunca seria organicamente apetecível nem que fosse gourmet. A charcutaria faleceria ante a ressurreição das barras energéticas.

    Equipado, lavado e de pequeno-almoço ligeiro tomado, o meu corpo balançava em Let’s get Physical mood. Às 6.35 da manhã, comigo na pole position, a hérnia deu o primeiro sinal em estilo honey I’m home. Não fiz caso. São precisos sacrifícios. Abri caminho entre as desculpas do «tenho que ir», «tenho que estar», «preciso fazer», «preciso decidir», «não tenho tempo», com vista a um corpo Danone.

    Carreguei no botão do elevador. Senti olhares lançando-se impiedosos sobre mim, cobrando a intromissão em tércios exclusivos para quem não está em forma: «como é possível?».

    Desisti. Fui pelas escadas. Serviria de aquecimento. O meu médico, que me aconselhou a ter uma actividade física mais regular (e me cobra o absentismo com acusadores «a idade não perdoa»), ficaria orgulhoso se me visse. Mesmo a funcionária que está à entrada e que, entre trejeitos, acrescenta aos «a idade não perdoa» do meu médico «o senhor doutor quer vê-lo assim que tiver os exames, basta ligar-me que eu marco logo a consultazinha» seria apanhada de surpresa.

  Cheguei ao rés-do-chão. Abri a porta e ainda não totalmente no exterior, percebo em photo finish interrompido que um jogger de fita na cabeça tipo Steffi Graf quase me abalroou, como um icebergue, fazendo-me afundar na viagem inaugural. Mais joggers seguiam-no em corrida apressada para o êxodo, atiçados pelo laranja da SportZone e símbolo da Decathlon, temendo a sobrelotação glícida e lípida e a anorexia muscular. Dali a pouco eu seria um deles.

   Em termos de equipamento, comparativamente, tudo vai bem no reino da Dinamarca. Os ténis revelaram-se uma boa compra. A sola era macia. E, por dentro, eram confortáveis. Uns Lamborghini nº44, com florescências laterais para navegação nocturna facilitada, quando a médio prazo o treino se tornasse bi-diário.

   Mal confirmei que os atacadores estavam em condições, coloquei os olhos no horizonte e em trote lento iniciei a corrida. Sentia-me confiante. Em apoteose eye of the tiger. Disponível para dar uma coça a Dolph Lundgren. Preparado para o confronto directo. Com uma vitória expressiva assegurada. O Ipod pendurado no braço estava carregado com músicas para horas de circum-navegação. Sentia-me acompanhado. Uma mão invisível passeando-se no pêlo.

   No calçadão os joggers mais experientes passavam por mim, como fórmula uns carburando em rotação superior à minha.

Não dei parte de fraco. Sentia-me incitado: run Forrest, run

Um membro do desporto sénior, incentivou-me: «força!». Agradeci com ar de quem não precisava de encorajamento.

Do ponto de vista buffet havia de tudo: ciclistas, joggers, jovens com patins em linha, gente caminhando.

   Um sentimento generalizado de «cria uma mãe um filho para isto» começou a subir por mim. Cães dos Baskervilles, surgem na minha cabeça, de boca escancarada ameaçando os momentos de glória, como bestas híbridas com ganas de Jaws atacando joggers indefesos depois de expulsos do oceano.

  Concluo, entre passadas, que ter saúde dá trabalho. Exige esforço. Tempo. Dedicação. Disponibilidade. Compensações. Sangue, suor e lágrimas. Milhas percorridas. Horas de voo. É uma canseira.

São precisas idas regulares ao médico. Check-up. É preciso ter o temperamento certo. Entrega especial. Ser contido. Não embarcar em excessos. Hesitei. Resisti até puder. Mas…

  Cortei a meta mais à frente. Não fui feito para corridas de longa distância. A minha saúde não permite. Parei. São sacrifícios que se têm que fazer.

  Subi no elevador. Já em casa pego num livro de Murakami: O elefante evapora-se. Guardo O Auto-retrato do Escritor enquanto Corredor de Fundo. Para evitar tentações. Pela minha saúde. 

Baixinho Olivia Newton-John canta Let’s get Physical. Não tenho dúvidas de que a Samantha Fox sempre fez mais pela minha saúde.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 22:15









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