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III Rico não adoece

Sexta-feira, 20.04.12

Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.

 

Alexandre O'Neill, Uma Coisa em Forma de Assim.

 

Optou pelo perfume mais dispendioso. Saído da indecisão. Obrigando-se à escolha. Aroma botânico. Fresco. Fato de bom corte. Gravata juvenil. Relógio conforme. Ar ilustre. Com chauffeur? Rico!

Contornou-me desdenhoso pela esquerda, acelerou altivo pela direita e, ultrapassando-me, reapareceu indiferente à minha frente.

Sem explicações. Desculpas guardadas.

Depois, entregou o cartão e arrecadou a merca.

   A minha vizinha (de quem já falei aqui) dramaturgicamente integrada numa peça de Gil Vicente inexistente, diz palavrosa que não há ricos feios. Habitualmente fala como se estivesse a elaborar uma declaração contratual de seguros, disponível para rubricar, com o geral em letra descomunal e o mais problemático em diminuta, passando despercebido nas entrelinhas. O que a incomoda sussurra. O que a impressiona alardeia. Quando explica que «não há ricos feios», di-lo alto, peremptória, como se estremecesse ante a fogueira. Para ela Belmiro de Azevedo seria deslumbrante em qualquer época ou cultura, subordinado a qualquer luz, captado no enquadramento mais duvidoso.

   Apesar das vantagens, ainda bem que não sou rico. Poderia cair na tentação de me convencer.

Se fosse rico exigiria faixa exclusiva para condução autorizada a qualquer velocidade.

Estacionamento uni-pessoal.

Lugar à frente. Arrevessado e à sombra em espectáculos ao ar livre.

Temperatura a gosto: calor pouco abrasivo e humidade não incomodativa.

Seria exigente no trato. Espartano na proximidade.

Desautorizava os compromissos.

Reservava-me as manhãs.

Não estaria para fretes.

Nem para dias de 24 horas garantidas.

Alvenaria um período de férias só para mim.

   Se eu fosse rico recusava-me a adoecer. Aliás isso seria o começo. Recusar-me-ia a muito mais. A pressas para começar.

Evitaria comprometer-me com uma lista fechada e, entregue sem preparação, acerca das minhas negas. Indisponível para o calote.

Sem dúvida que rejeitaria cáries. Azias. Ou indisposições.

Borbotos. Vestuário amarrotado.

Misturas e proximidade.

Borbulhas, eczemas ou escamações.

Peso, só regular.

   Ainda bem que não sou rico. Precisaria de, pelo menos, um continente. O que tenho aquém.

Como poderia dizer Woody Allen: exigir-me-ia dinheiro que não tenho disponível.

   Ser rico necessita de planificação. Compromisso. Responsabilidade. Imaginação. Atenção a juros e cotações. Deve ser por isso que não há mais.

Remediado parece-me melhor. Isso, não me importava.

   Na perfumaria o indivíduo voltou atrás. O saco de cartão bamboleando, derrapando nas calças do fato de bom corte.

«É só um segundinho… esqueci-me de uma coisa. Não se importa pois não?»

Olhei emproado para a esquerda, ameacei sardónico pela direita, fortuna avaliada em milhões, acabada de trocar de mãos, e continuei. Ignorando-o. Impávido. Ilustre.

«Era para embrulhar, se faz favor.», disse, pensando na minha vizinha.

Riquíssimo. Ares de Wall Street. Sem precisar de chauffeur.

Cotação em alta.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:00









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