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III À mesa-de-cabeceira

Domingo, 21.10.12

Para quem ainda não entrou no universo dos eBook Readers*,  gerir a mesa-de-cabeceira pode ser um desafio. Autênticas bibliotecas joaninas, em ambiente de repouso, preparadas para acolher dos beatniks à Geração de 70 e conciliar Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins,Teófilo Braga, Ramalho Ortigão e a Beat Generation.

   Uma mesa-de-cabeceira é uma grande responsabilidade. Não quero nem pensar o que será entrar num quarto em que se abdica de Torga para ter o telefone da rede fixa debaixo do nariz. Diz muito de nós. É diferente ter à distância de um braço John Le Carré ou Raymond Chandler, Goodbye Columbus de Philip Roth ou a trilogia de Stieg Larsson.

Alguém que adormeceu a ler On the Road deixa adivinhar um indivíduo muito diferente do que aquele que optou por José Saramago.

  Uma boa mesa-de-cabeceira deve estar preparada para o imponderável, o inusitado, o inexplicável, pelo que se torna importante contar armas. Ver o que se passa intramuros. Não negligenciar nenhum dos seus hemisférios.

  Deve o abastecimento ser farto tanto em clássicos de todos os tempos quanto em novidades editoriais. Fazer constar o Cânone Literário do Ocidente (Harold Bloom), com a sua lista de referências intemporais e a estreia. O imortal e o autor com tudo para provar. O nobelizado e a jovem promessa. 

  Diversidade e inexistência de preconceitos devem fazer parte de um manifesto a seguir escrupulosamente, como se este implicasse a sobrevivência.

  Uma mesa-de-cabeceira bem recheada é meio caminho andado para uma noite de sono bem passada. Mal é um pesadelo.

Para além das obras em quantidade e qualidade suficientes, deve possuir uma boa iluminação, óculos à disposição (para quem precisar), respectivo produto de limpeza para as lentes com odor pouco pronunciado e marcadores em número suficiente para evitar o sacrilégio de acabar a dobrar folhas como se, apesar de uma escolha cuidada, tratasse de um vulgar chorrilho light . 

   Pelo já exposto se percebe que a compra acertada da mesa-de-cabeceira é uma tarefa difícil e que deve ser compreendida como fundamental mesmo que tenha como consequência uma inevitável desproporção de tamanho em relação aos restantes móveis e objectos do quarto, cómodas e tapetes incluídos. Ter espaço suficiente para não ter que acabar de optar entre a presença de certas monografias essenciais e a medicação indispensável é essencial. Isso pode ser tão devastador quanto ter de vencer obstáculos para pôr o recipiente com a dentadura, em vez de volumes extra de Faulkner. Ou comprometer as orações, abdicando do terço familiar por escassez de espaço no sítio onde se encontra a Dulce Maria Cardoso e Céline. 

   Em relação a mais cuidados, para evitar afrontamentos provocados pelo peso da responsabilidade, desaconselha-se a presença dos Lusíadas, Ulisses e Finnegans Wake por perto do sítio onde se vai pernoitarCamões e James Joyce podem ser demasiado e desinquietar o sono mais profundo. 

Robert Musil poderá, eventualmente, cair mal em horário não diurno pelo que O homem sem qualidades paredes-meias com o travesseiro incitará palpitações incontroláveis.

   Na minha experiência depreendo que não está, também, o espírito sempre preparado para o contacto nocturno com o impressionismo, da mesma maneira que o não está para Cem anos de solidão ou Amor em tempos de cólera, pelo que tanto Gabriel Garcia Márquez como Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud e Verlaine exigem moderação.

Para leitores mais preguiçosos, um tomo de crónicas de António Lobo Antunes à cabeceira deve sempre ser considerado, da mesma maneira que os amantes da literatura de viagens não devem hesitar em munir-se de A Arte da Viagem e O Grande Bazar Ferroviário de Paul Theroux, Regresso à Patagónia em dinâmica Theroux versus Chatwin, Na Patagónia de Bruce Chatwin, Viagens de Marco Polo, Caderno Afegão de Alexandra Lucas Coelho da Tinta da China, Cadernos da Viagem à China de Roland Barthes e Últimas notícias do sul de Luis Sepúlveda. Pelo menos.

Alguma poesia para despertar o amante adormecido deverá ter fácil acesso, pelo que o conselho será o de a deixar à esquerda do candeeiro, se ele se encontrar ao centro da mesa-de-cabeceira, deixando a direita vaga, por exemplo, para Kafka ou Edgar Allan Poe para quem gosta desses territórios.

A competir no ombro a ombro pelo espaço ocupado pelo despertador, poderão muito bem estar Gonçalo M. Tavares ou Mário de Carvalho ou para os facilmente seduzidos pela reflexão os filósofos anglo-saxónicos.

   Felizmente, a Cerne (passe a publicidade) teve o bom senso de guarnecer a minha mesa-de-cabeceira com gavetas. Na última guardo os boxers. Calvin klein tricolor: branco, preto e cinzento. Porque, no meio disto tudo é sempre útil manter alguma decência. 


*Ver Ciberescritas

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 12:51

III As cinquenta sombras de Grey, segundo Clara Ferreira Alves

Domingo, 19.08.12

Já calculava, mas o artigo de Clara Ferreira Alves serviu para confirmar o que pensava sobre o fenómendo de vendas, As cinquenta sombras de Grey:


(...) A audiência feminina comprou estes livros e transformou E.L. James numa multimilionária e numa das 100 pessoas mais influentes do mundo da Time*. A maioria das mulheres não gosta de BDSM [bondage, submission, sadism, masoquism], e não corre o risco de gostar, as feministas podem dormir descansadas, mas gostam de ler uma história de amor impossível, em que os amantes se pegam e se largam e não podem viver um sem o outro. É outra forma de submissão e dominação.

E.L. James não escreve bem nem mal, apenas descreve. Às vezes, num estilo pedestre, mas não estamos à espera de Dostoievski. Erica Jong, nos anos 70, com o seu 'Fear of Flying' e a invenção da zipless fuck, a dita sem fecho éclair, foi mais longe e de um modo infinitamente mais perverso, cómico e inteligente. Não teve a sorte das nossas tecnologias a tornarem viral, mas vendeu 20 milhões de livros. Jong é uma escritora, James (que se chama Erika Leonard) é uma Corin Tellado** do séc. XXI.


in Lux Woman nº138

 

 

*Quem estiver com curiosidade sobre o fenómeno Fifty Shades of Grey tem, ainda, um documentário alusivo do Channel 4.

**Escritora que escrevia romances de amor (noveletas cor-de-rosa será o termo mais apropriado) com capas imitando as poses de Clark Gable e Vivien Leigh, Rhett Butler e Scarlett O'Hara em 'E tudo o vento levou'.

 

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 20:18

III O Senhor do Adeus

Domingo, 24.06.12

Como hoje é Domingo lembrei-me de João Manuel Serra (JMS). É uma razão como outra qualquer. Válida q.b..

Podia ter acabado de ouvir o fado O Homem do Saldanha, interpretado pelo Marco Rodrigues composto em sua honra.

Ou revisto as suas participações especiais no filme de zombies I'll See You In My Dreams ou na série de televisão O Mundo Catita.

Ou a sua aparição na banda desenhada As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, de Filipe Melo e Juan Cavia.

Mas foi, mesmo, por hoje ser Domingo que me recordei dele. Como era amante de cinema, todos os domingos assistia a um filme, na companhia de Filipe Melo, músico de jazz, realizador de cinema e argumentista de BD e Tiago Carvalho. Durante cerca de sete anos. Os comentários sobre o que via eram depois transcritos por Filipe Melo para um blogue [as crónicas acabaram no livro O Senhor do Adeus - Tertúlia Semanal de Cinema, da atelier ESCRIT´ORIO editora].

O último foi A Rede Social. De que desconheceu a existência durante muito tempo, mas de que fazia parte para sua admiração e satisfação.

Morreu aos 79 anos. A 11 de Novembro de 2010. Talvez não reconheça o nome. Mas garanto-lhe que nesse dia ficámos todos mais sozinhos.

   Consta que «nunca trabalhou, mas conhece a Europa toda», chegou a comentar-se. Diz-se sempre muita coisa. Um menino rico. Filho de gente abastada. Nunca trabalhou, nem entrou numa cozinha. Assumia.

   O que me lembro, especialmente, dele era que salvava pessoas. Não era médico, não retirava vítimas de prédios em chamas, nem enfrentava batalhas sangrentas para libertar povos oprimidos. Ou outra profissão onde isso aconteça garantidamente. Mas era disso que se ocupava.

Chamavam-lhe o Senhor do Adeus. E salvava gente. Defendia-nos. Com um adeus. Por cada adeus poupava uma vida. Era quanto bastava. Mais o seu coração. E sangue. Um adeus uma vida salva, um adeus uma vida salva…

   JMS passou parte da sua vida a salvar pessoas.

   Desconhecem-se médias e taxa de sucesso. Não há testemunhos. Ou perto disso. E os registos são esconsos e circunstanciais. Mas fazia-o à vista de toda a agente.

   JMS salvava pessoas. De si mesmos. Da indiferença. Isolamento. Dos outros.

No Saldanha, Restelo ou na Rua da Escola Politécnica. Era do conhecimento geral. Se calhar estou a falar para quem também foi salvo por ele. Ou dispõe de informações sobre salvamentos. Cheguei a assistir. E eu próprio fui salvo por si.

Isto porque a solidão para além de torturar mata sem misericórdia. Lentamente.

A solidão só é boa quando parte de nós. Voluntária. Um tempo que é nosso. O silêncio. O pior é a outra. Traiçoeira. Que se instala. Parasita. Tem custos de: «soubesse eu o que sei hoje». Para essa pouco ou nenhum remédio se conhece. E é por isso que quando surge alguém capaz de ajudar a dar cabo dela o seu contributo é fabuloso.

Cada adeus de João Serra servia para a enxotar. Para a mandar para longe. O máximo que conseguisse. Era um «vai à tua vida». Um «deixa-nos em paz».

É por isso que não tenho dúvidas de que quando João Manuel Serra cumprimentava quem passava estava em missão de salvamento. Nem mais, nem menos. Milhares de pessoas foram salvas por JMS. Sempre que passavam por si. Primeiro salvou-se a si. Escapando-lhe. «Essa senhora [a solidão] é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias de casa. Para lhe escapar, venho para aqui [o Saldanha]», explicava.

Mas depois dedicou a sua vida a salvar os outros. Desconhecidos. A partir da meia-noite. Acenando. Em certo sentido era um herói. Os carros apitando-lhe de volta. Triste quando o movimento acabava.

   JMS salvava-nos de estarmos sozinhos. Que é bom mas aos bocadinhos. Sabe bem mas em doses pequenas. Voltados para nós. Podendo dizer basta. Abrir a porta e chamar: «agora já podem entrar todos». Um claustro com largueza dentro de uma casa recheada de convidados. Um sal que faltando insonsa mas quando largado solto da mão salga em exagero.

   A gente sabe que até consegue sentir-se só rodeados de uma multidão numerosa. Mas, embora nos apeteça dispensá-la [sim, para estarmos sozinhos], gostamos de a ter sempre à mão. Por perto. Ninguém se importa de ser solitário quando tem disponível uma multidão.

   No dia em que JMS desapareceu as vítimas foram incontáveis. E continuam até hoje. Até que apareça alguém que ocupe o seu lugar. O que ainda não sucedeu. Nem se conhece ninguém capaz de o fazer. Talvez JMS fosse insubstituível. Às vezes isso acontece.

As vítimas vão-se sucedendo. 

   Dou-me bem com a solidão. Mas não muito. Temos uma relação de respeito mútuo. Eu sei que às vezes preciso dela e ela compreende que não podemos passar muito tempo juntos. Que quando isso acontece as coisas tendem a azedar.

Talvez por isso, sempre que passo na Praça Duque de Saldanha procuro JMS. Especialmente em dias em que também preciso de ser salvo. Era bom termos alguém pronto a salvar-nos. No sítio habitual. Como quem não vai a lado nenhum. Sempre disponível.

João Manuel Serra já não está lá. Mas há gente que continua a precisar de ser salva.  

Olho sempre várias vezes na esperança de o ver reaparecer.

Mas sei que o pior no adeus é a partida. Um adeus tem fim à vista.

Talvez por isso ele dissesse que era o senhor do olá.

Hoje é domingo e era dia de ele ir ao cinema.

Até sempre!, como ele costumava dizer.

 

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 14:12

III Wallace & Roth

Quarta-feira, 06.06.12

Não quero meter a foice na seara dos Blogtailors, mas fica a informação de que Goodbye, Columbus e cinco contos, o primeiro livro de Philip Roth foi editado em Portugal.

E, já agora, a Quetzal vai publicar a obra do norte-americano David Foster Wallace (que se suicidou em 2008). O primeiro livro a ser editado em português é Infinite Jest ou A Piada infinita, com tradução de Salvato Telles de Menezes e Vasco Telles de Menezes.

Aponta-se para Novembro a chegada às livrarias.

As mais sinceras desculpas pela intromissão.

É bastante provável que se repita.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 08:30

III Russos, só depois do meio-dia

Domingo, 22.04.12

[Notas para um perfil]

 

Se a literatura for alimento (para a alma?), então eu sou um bom garfo. Nada se aproxima a um magnífico naco de prosa. Uma boa talhada de páginas. Finalizada com um majestoso cubano. Um Guillermo Cabrera Infante, Raúl Rivero ou Reinaldo Arenas.

   Mal pressinto o cheiro a refogado letrado e as papilas literárias despertas antecipam, prontamente, um Carré de borrego com molho de frutos vermelhos e creme de alho francês, género Enrique Vila-Matas. Ou uma mousse de Chocolate e gengibre à base de Philip Roth para rematar. Faço, imediatamente, reserva vitalícia.

  Evito acidentes culinários. Ou pratos undercooked. Sei que há pessoas que resistem a anos de dieta leve de Margarida Rebelo Pinto. Mas, literariamente tagarelando, aprecio comida condimentada. Nada me satisfaz mais do que uma boa tragédia grega. O que há de melhor do que a morte dos dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinices, para despertar sabores? Ainda Creonte não galgou degraus bastantes na subida até ao poder e o meu palato já está em frenesim. Menos que isso, nem se aproxima de uma Salada César.

  O meu estômago ressente-se. Claro! A minha saúde anda por um fio. É como degustar uma cabidela às dez da manhã ou uma feijoada e um cozido à portuguesa, bem servido, às onze.

É ouvi-lo a clamar: «socorro, estou a arder!». 

   Ainda assim, não desdenho. E bom mesmo é um dramalhão, daqueles de fazer inveja a Daniel Oliveira nas entrevistas da SIC, servido numa redacção exemplar. Porque os olhos também merendam.

Literatura russa, obviamente. Ooh La La! Quelle merveille!

E nada de Morangoska deslavada para ficar com um gostinho.

   Há quem diga que nas letras, resplendecem os finais de Tchekhov e os de Shakespeare. Nos do inglês, as pessoas acabam mortas. Nos de Tchekhov, deprimidas, amarguradas, mas respirando. Sempre faz menos mal!

   Não me lembro da abertura oficial feita por Brejnev. Provavelmente a única coisa que recordo dos XXII Jogos Olímpicos (os de Moscovo) de 1980 é o urso Misha. Nem nunca estive embevecido pelos êxitos da Soyuz. Mas, a partir de certa altura, troquei Enid Blyton por Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov.

   Foi aí que tudo começou. Comecei a associar "slova" a palavra e "pisat'" a escrever.

Apesar disso, percebo que se evite Gógol, Púchkin, Liérmontov e Turguêniev antes do meio-dia.

São impensáveis de estômago vazio.

Ninguém aguenta niilismo logo pela manhã.

Guerra e Paz, Crime e Castigo ou Anna Karenina em jejum matinal deixam uma sensação incómoda. O mesmo se diga para O Diário de Um Louco de Gógol.

Mas reconheço a minha hesitação, mal começo a ler:

 

No vasto edifício do Palácio da Justiça, o procurador e os membros do tribunal reuniram-se, durante a suspensão da audiência do processo Melvinsky, no gabinete de Ivan Egorovitch Schebeck;

 

Esqueço-me, automaticamente, do mal que faz para me concentrar no bem que sabe. Mal a tradução de Adolfo Casais Monteiro de A morte de Ivan Ilitch de Tolstoi começa a fazer efeito, fico deliciado.

   A literatura russa tem para mim estatuto de menu completo. E os autores equiparáveis a Gordon Ramsay e Jamie Oliver.

Menos do que isso sabe-me a requentado. Não há estômago que resista. Uma azia desvairada cresce por mim. Perpétua.

   Bem, tanta conversa abriu-me o apetite!

O que temos hoje?

Já me cheira a Ziti Al Forno.

Está-me, mesmo, a apetecer um Máximo Gorki.

Estou a ficar com uma fraquezazita.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:00

III Perdido na biblioteca

Quarta-feira, 28.03.12

Uma biblioteca é uma coisa séria. Uma responsabilidade. Invejo a coragem dos que cedem o seu espólio. Mas por alguma razão o fazem, habitualmente, após a morte. Embaraço?

Uma biblioteca é exigente. Em espaço. Em atenção. Em recursos.

A nossa biblioteca define-nos. Cresce connosco. Tremo só de pensar nisso. Se me tentarem perceber por intermédio da minha biblioteca arrisco a esquizofrenia. Ou pior. Já vejo o colete-de-forças. A seringa pronta a sedar-me.

    Um bibliófilo nunca tem livros suficientes. E isso paga-se - em todos os sentidos – nomeadamente nas assolhadas. É uma obsessão. Uma impossibilidade. Um bibliófilo que entra numa livraria é alguém que se põe a jeito. Está a pedi-las. É como se entrássemos num orfanato tipo Cedars House Rules, repleto de crianças (que nos observam com olhar condoído) e que é impossível não adoptar.

Em relação a outras dependências tem a vantagem de os sítios onde se adquirem os livros serem mais agradáveis e legais. E só essa.

    Quando mudamos de casa pomos mãos à obra (e à cabeça) para iniciar uma nova organização. A oportunidade perfeita. Encontraremos qualquer obra em menos tempo do que a menina do Continente chega à caixa cinco para interpretar o código de barras. Mas, antes dessa fase, chegamos à conclusão, quando estamos a encaixotar os livros, que uma biblioteca é feita de intocáveis e incontornáveis, mas também de más opções. Enquanto carregamos aquela edição, que na altura parecia imprescindível, essa é a gota de água que faltava para transbordarmos o copo da ilusão e ficarmos com a nítida e grave impressão de que ao longo dos anos andámos perdidos no trânsito (bibliográfico) decidindo-nos por alguns atalhos que se demonstraram becos sem saída. Ou cortámos à direita em vez da esquerda.

    Mais carregamos e melhor percebemos que há, também, os interesses que nunca o chegaram a ser ou que hibernaram. Mas que deixaram vestígios: mais livros. A aquariofilia que nunca ultrapassou o patamar compra na Amazon livro de bolso.

E os guilty pleasures. Que nos pesam na consciência. Nos atacam o orgulho. Nos fazem, duvidar do nosso bom gosto. Levando-nos ao questionamento do nosso “eu” literário. A que renunciamos e fingimos que não conhecemos, tratando-o como um “tu”. Aquele título que arrisca a trivialidade. Aquele nome associado a um género menor. Como sucede com o wrestling em que está lá quase tudo, mas no fim sabemos que não passa de show off. Envergonhados. Só que é tarde demais: já comprámos.

    Tenho a meu favor que a minha distração generalizada faz com que não encontre as chaves dentro do bolso. Porque havia de ser diferente com os livros? Preciso de um fio de Ariadne para encontrar o caminho de volta.

Ora, Ariadne ou Ariadna, filha de Minos, rei de Creta… mitologia grega, portanto, estamos a falar da prateleira?

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 11:49









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