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III Deixar de fumar = vegetar

Domingo, 29.04.12

É do conhecimento geral que uma mentira repetida várias vezes, não passando a ser uma verdade é aceite como tal.

Estou há 72 horas sem fumar. Essa é a parte que é verdade. Verdadinha!

A outra, a que não interessa, é que deixei de fumar.

Essa vou repeti-la muitas vezes, porque temendo que não seja verdade, vou aceitá-la como tal.

   Convencer-me a deixar de fumar é uma subtileza que se insinua, discreta, como uma colónia atrás da orelha.

É, sem dúvida, mais fácil persuadir um adolescente a apreciar a pintura de Rubens do que a mim a deixar de fumar. Nessas alturas (de tentativas inglórias) repito a mentira e aceito-a como verdade.

   Apesar de tudo estou orgulhoso de mim. Das minhas 72 horas. Vivo num ambiente passional do tipo Love Boat. Em regime de auto-deslumbre. Doce como uma torta Dancake.

   Considero-me um Zezé camarinha bem-sucedido, passando Nivea Lotion e garantindo Ai lave iu às súbditas porcinas de Sua Majestade [Que saudades que eu tenho do verão!].

Isto num campo, meramente, metafórico, relacionado, em exclusivo, com o meu auto-deslumbre.

   Já me sinto a ficar mais saudável. Estou só à espera que pare de chover. A chuva inibe o desportista que há em mim.

   Bons ventos vão-me empurrando como uma invencível armada até uma enseada segura, carregando pelo caminho sobre caravelas inseguras. Até parece que oiço (como num pesadelo) os Trovante cantando a Xácara Das Bruxas Dançando:

 

Ó castelos moiros, armas e tesoiros

Quem vos escondeu

Ó laranjas de oiro que ventos de agoiro

Vos apodreceu

(…)

Caravelas, caravelas

Mortas sob as estrelas

Como candeias sem luz

Os padres da inquisição

Fazendo dos vossos mastros

Os braços da nossa cruz

Caravelas

 

Entusiasmo-me. Progrido nas horas. 72 e contando. Eu que nunca liguei muito aos Trovante a não ser aquela que toda a gente gosta [Perdidamente] com o poema de Florbela Espanca acicatando não as vitórias (como um autêntico Virgílio) amorosas, mas as desventuras de um marcador afectivo a zeros:

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

(…)

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dize-lo cantando a toda a gente!

 

   Estou há 72 horas sem fumar. Já tinha dito, não tinha? Não é muito, mas já conta. O pior no fumar é deixar. E o igualmente mau em fazê-lo é a memória. O cigarro que se fuma a acompanhar o café. A leitura do jornal. Enquanto se espera. Enquanto, enquanto, enquanto…

Optei por deixar de fazer. Simples, não? Libertar-me da submissão ao cigarro e da escravatura da rotina e do hábito.

Sinto-me um vegetal.

Hoje estou naqueles dias em que preciso, urgentemente, de sol e de ser regado.

Apesar de tudo, continuando a ouvir o Luís Represas com os Trovante:

 

Caravelas, caravelas

Mortas sob as estrelas

 

Jurando que meia verdade me basta.

72 horas e 30 minutos sem fumar. E contando.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:33


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