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III Dois sapatos esquerdos

Domingo, 11.03.12

Margarida tem os olhos cansados. Margarida gosta de revistas sobre gente atraente. Os pais são pessoas normais.

Na escola os professores queixam-se de que nos dias em que ela não vem com os olhos cansados ela não aprende. Os pais compreendem e desculpam-se dizendo que ela é lenta a aprender.

Margarida tem os olhos cansados porque o médico lhe receitou um medicamento que os cansa. Os pais concordaram porque entendem que essa é a única maneira de ela se concentrar.

Sem os olhos cansados a sua cabeça ocupa-se com coisas que não vêm a propósito.

Com os olhos cansados Margarida é uma rapariga completamente diferente. Nisso toda a gente concorda: pais, médico e professores.

      Margarida não é uma rapariga como as da sua idade. Não tem interesses, dizem. Não liga a cinema. Não pega num livro. A escola aborrece-a. E não gosta de música. O que é estranho para os pais, que são pessoas normais. A única coisa, para além de revistas com gente atraente, que lhe interessa é a moda. Passa as aulas a fazer desenhos com manequins desfilando vestidos imaginados por si. O médico que lhe põe os olhos cansados já lhe explicou que para isso é preciso estudar muito e já. Não há tempo a perder! Os passos começam muito antes de se chegar aos sítios, argumenta. Os pais dizem-lhe que ela assim não vai ser ninguém. Quando não tem os olhos cansados Margarida responde-lhes (torto) e barafusta. Mas o medicamento que lhe põe os olhos cansados é para ser tomado logo a seguir ao pequeno-almoço e, por isso, não é frequente isso acontecer. «E que tal?», pergunta a mãe sempre que lhe dá o remédio, esperançosa. Procurando outra filha na que tem à sua frente. A rapariga não responde.

        Um destes dias os pais de Margarida foram convocados para uma reunião na escola, para falar sobre o seu aproveitamento. Apanharam um táxi que tinha uma placa onde dizia: «A tua inveja faz a minha fama».

Margarida passou a viagem de olhos cansados e olhar vazio fixo nela.

        - Não tinhas outras calças? – admoestou a mãe quando reparou nos seus jeans rotos pela moda.

Na portaria da escola deixaram um documento identificativo e o porteiro indicou-lhes a sala onde se deviam dirigir, pedindo que aguardassem.

      - A verdade é que sempre fui uma criança feliz - disse a mãe, na primeira oportunidade, à professora que a recebeu a si e ao marido com o seu escanhoado bipolar e o pulmão cardíaco que o faz tossir em arritmia. Disse-o para explicar que às vezes o sangue é como um rio que se afasta da foz. Para não haver dúvidas de que são pessoas normais.

     - Olá, Margarida – cumprimenta a professora, incomodada pelo pulmão cardíaco do pai. A Margarida tem feito grandes progressos, disse a professora para tranquilizar os pais. Sorrindo para ela.

A mãe orgulhosa, incomodada com os jeans rotos pela moda, agradece, reparando que ela tem dois sapatos diferentes que calçou distraída, muito cedo, antes de ter os olhos cansados. Envergonhada olha para o marido em convulsão, desejando a invisibilidade para ambos. 

    - E o português? Tens alguma palavra difícil? A minha era escanaficobético – diz a professora brincando.

    - Para ela todas são difíceis. Nunca vais ser nada na vida – acrescenta a mãe, olhando para os dois sapatos esquerdos, entre dois AVC’s do pulmão cardíaco do marido.

     - Não diga isso – contesta a professora – olhe que a Margarida tem feito grandes progressos.

     - E que tal? - pergunta a mãe a Margarida, procurando outra filha na que tem à sua frente.

     - Grandes progressos, grandes progressos… - continua a professora.

     - A tua inveja faz a minha fama – responde Margarida com os olhos cansados.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 14:46


1 comentário

De momentosdisparatados a 15.03.2012 às 14:23

Bem, com uma mãe daquelas não admira que não fosse uma rapariga como as outras!
Boa semana

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