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III O verão do Sapo

Terça-feira, 31.07.12

O post Limpezas de verão foi referenciado no blog mantido pela equipa do SAPO Notícias dedicado ao verão. O blog segue e destaca caminhos trilhados, receitas,  leituras e tudo aquilo que promete tornar este verão inesquecível, dedicando-se a ajudar a aproveitá-lo. Para quem ainda não o conhecia fica o link.

E o obrigado pela inclusão.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:27

III Limpezas de verão

Segunda-feira, 30.07.12

Antes da praia, parecendo ter que a merecer ou depois dela em forma de "quem não aproveitou que aproveitasse", surgiam invariavelmente as limpezas de verão.

   Enojados e pouco convencidos com o argumento de que "a limpeza nunca é demais" e promotores de um asseio que não se quer enfezado começávamos, em redenção pelo resto do ano, acudindo ao mais urgente, desfazendo-nos do que ficara do inverno. 

Não sem principiar com uma investidura, fundamental para a depuração seguinte, de "tu fazes isto e aquilo", "tu limpas aquilo e tu aqueloutro", "atenção a isto e a outro tanto". 

Numa fase que contava já com o pai ricamente disfarçado como se fosse assaltar um banco e a mãe equipada para fugir às nódoas como se escapasse à radioactividade. 

Eu cumprindo involuntariamente o encargo pré-determinado e escapando aos calduços dos investidos enquanto passarinhava com uma desonrosa roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga.

   Deitar fora, arrumar e limpar, em penitência pelo acumulado, tornava-se uma missão. Dava-se caça aos bolores, às rachas, ao pó, às teias de aranha, a algum mau gosto; limpava-se, decapava-se, raspava-se, tapava-se, pintava-se até ao ponto de quando empanturrados pelo expurgo se achar que ficava assim até ao próximo ano para nova despoluição.

Lixívia, detergentes das marcas que no ano anterior conseguiram bons desempenhos (frequentemente pelo menos um limpa vidros e um par de desinfectantes não resistiam e viam o seu esforço suprido), tinta (de areia, óleo e água) encomendada ao balcão de uma loja de ferragens gerida por especialistas, vassouras, espanadores, pincéis e rolos faziam o nosso dia-a-dia. Mais tempo, tarefas divididas e partilhadas, má vontade e resignação à mistura com barras, pinturas novas, desinfecções, rádios debitando clássicos, admoestações, estratégias entusiastas e repreensões.

   Aspiradores em plena sucção e trinchas de alto débito passavam de mão em mão. Os vidros andavam em alvoroço e os impressionistas que algumas limpezas antes tinham destronado as cenas de caça da sala de jantar arejavam, obrigatoriamente, na varanda.

A meio ouvia-se o habitual  dlim, dlão - "É aqui que é para entregar três latas de tinta?" - após se concluir mais uma vez que as encomendas não davam nem para metade das necessidades.

A arte sacra (duas santas facilmente reconhecíveis e uma imagem de S. João Baptista pouco consensual) ficavam no guarda-fatos até final, conseguindo o milagre de não acabarem com tinta.

Os livros ocupavam uma fracção das escadas, não se sabendo muito bem onde acabava o ensaio e começava a poesia.

Os tachos ganhavam vez para serem areados a seguir ao  hall de entrada que perdia em demãos para os fritos da chaminé.

Os tapetes acabavam substituídos antes do limite do prazo de validade previsto pelo vendedor optimista que lhes confirmara a qualidade imaculada.

Ainda comigo patinando na conversão, muitos comentários formativos  à base de "porque tu um dia terás a tua casa" eram acrescentados à já longa lista de minudências que caracterizavam as nossas limpezas de verão. 

Eu, pouco convencido, fazendo a minha parte, segundo quem participava nas exéquias, com olhos de carneiro mal morto e de roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga. Lutando calduço a calduço pela liberdade.

Um espectáculo digno de ser visto e aplaudido.

  E depois o final, com os anjos voltando para o firmamento do costume e mais o resto. Eu  usando, por imposição, roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga. O pai ainda como inimigo público número um preparado para o golpe do século. E a mãe ilesa, acabando de ludibriar mais uma vez a radioactividade.

   Felizmente, nem sempre temos que seguir os conselhos dos pais.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:30

III Os segredos dos outros

Sábado, 28.07.12

Do de Estado ao amoroso, o segredo é a alma do negócio e sendo isso verdade é preciso quem se disponibilize para o acautelar. E que de preferência o seja capaz de aferrolhar a sete chaves.

  Ameaças? Curiosidades várias, consciência pesada, distracção, não saber quando parar de falar, prejuízos próprios da alcoolémia, favores, dinheiro...

  O princípio do fim? A pergunta: "Queres saber um segredo?".

  O fim? "Sabias que...".

  Um segredo exige ombros fortes para ser carregado, mais temperamento imperturbável e carácter não impressionável. E outras tantas características singulares que fazem escassear ainda mais os candidatos.

   Quem guarda um segredo remete-se ao silêncio. Faz votos. Diz não à tentação. Fecha-se. Esquiva-se aos apertos, para não deixar escapar nada.

É um túmulo. Ou um poço sem fundo.

Disfarça.

Faz orelhas moucas.

Nega.

Não cede. Tem fibra moral.

Sofre sozinho.

   Pedir para guardar um segredo tem um tanto quanto de abuso. Até porque em muitos casos quem pede segredo em situação de descoberta iminente é o primeiro a abandonar o barco, dizendo em sua salvação: "fulano de tal sabia". Insinuando que em qualquer momento podia ter contado ao mundo e só não o fez porque, cúmplice, não quis, estando tão ou mais envolvido em tudo do que o próprio. Saber escolher de quem guardar um segredo torna-se importantíssimo.

   Quem conta um segredo procura alívio. Alguém para partilhar os males. Egoísta. Quem guarda carrega. Amigo.

Guardar um segredo é a maior prova de amizade.

Dizê-lo, a traição das traições. Quando se conta um segredo confiado, troca-se de campo, de lado, de facção.

   Guardar um segredo é uma responsabilidade. Sobra para nós. Leva a um invariável: "E agora?". Dificulta-nos o seguir com a nossa vida. É escondê-lo, sabendo que alguns têm olho para o toparem à légua. É difícil. Uma espada sobre a nossa cabeça. A certa altura da vida toda a gente devia ser obrigada a guardar um segredo para saber o que custa e aprender a dar valor.

   O segredo não escolhe idades nem sexo.

Quem pede segredo só quer uma coisa: que alguém ouça, o não dizer nada a ninguém está subentendido.

   Guardar segredos não carece de explicação. Sabe-se apenas que um segredo bem guardado é um segredo que não deixa rasto e que os há mais difíceis de guardar do que outros, eventualmente por causa do tamanho, mas exigindo o mesmo: silêncio.

   Pedir segredo é um acto de confiança. Guardá-lo, de generosidade.

É uma tarefa sem termo certo. A prazo. Até a outra parte nos libertar.

Faz-se promessa. Obriga a cumprimento.

   Nem toda a agente é capaz: não tem propensão para ter a boca fechada, como se a ponta da língua lhes ardesse ou tivessem uma comichão insuportável no céu-da-boca. Até porque há alturas em que a boca nos foge para a verdade. Certas pessoas cedem ao tempo, a um pedido, a uma vingança, a uma desilusão. É mais fácil ser uma língua-de-trapos.

   Não conseguir guardar um segredo é mal visto. Não inspira confiança. Antecede problemas. Faz supor capacidades para coisa ainda pior.

   Não se percebe muito bem se com o tempo fica mais ou menos fácil guardar segredos. Talvez gradualmente se caminhe para um "não estou para isso" ou "deixem-me em paz", fugindo-se como se não houvesse amanhã dos abusadores.

   Os segredos são incómodos. Vivem o dia-a-dia abusivamente. São escusados.

Se um conhecido confessa, em allegro de choradeiras pungentes, estar prestes a saltar a cerca ou reconhece embaraçado que não perdeu, em tempos, um Porky's diga que não está interessado em saber mais. São segredos que ele partilha como se os entregasse para conservar em álcool. Presos finalmente naquela espécie de açude que é a sua capacidade em guardá-los. Empate. Tente ganhar tempo. Diga que não percebeu o que ele disse. Escape. É uma cilada. 

   Os segredos dos outros, não obrigado! Quem já não sofreu na pele os seus males?

Cada um que trate dos seus. Que os guarde agora ou que se cale para sempre.

   Sei, perfeitamente, porque é que me lembrei disto tudo, mas não posso contar. É segredo!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:50

III Tempo de verão

Sexta-feira, 27.07.12

O tempo é pouco. De menos. Ameaçado de extinção. Raramente encontrado em abundância. A queixa mais partilhada e a fazer jurisprudência dá-o como escasso, glorificando-o.

   É um luxo para bolsas privilegiadas. Maioritariamente inalcançável e sem versão simplificada, mais económica e depauperada em apps disponíveis.

Não se encontra à mão nas lojas de bric-a-brac, na prateleira dos perecíveis, nem se percebe que se disponibilize em fancaraia.

   É discriminatório e só para alguns afortunados. Tê-lo, entenda-se. Dispor dele, acrescente-se.

   É preciso até para não fazer nada, somando-se ao sofá fundamental, atitude consentânea com o ócio e luta contra o preconceito de que devíamos estar a fazer alguma coisa. "Alguma coisa" que pelo modelo vigente parece ser sempre preferível ao "nada", bem como o "ocupado" em relação ao "desocupado", a "acção" à "inércia", consumidores improdutivos e desnecessários de tempo.

Daí resultando a afronta inerente a alguém dizer "Vou aproveitar este bocadinho para não fazer nada". Uma contagem decrescente para a acusação. O que contraria a ideia de que a boa vida é gratuita. Não custa nada. Quando é sempre mal interpretada e nos incrimina.

   Porém, tudo é diferente nas férias, quando o tempo tem uma contabilidade própria, mais flexível e menos exigente.

O tempo que é pouco aí serve perfeitamente para os gastos.

   Ter férias é usar o tempo na falta de ocupação. Apostar na inexistência de preocupações. É mordomia. Viver em modo "não estou para isso", "E então?", "desde que não tenha que me chatear" ou "alinho desde que já venha feito".

A queimar a apatia e a roçar o desinteresse. O tempo de verão é diferente do tempo do resto do ano. As manhãs são longas e de persianas corridas, as noites prolongam-se despressurizadas, as temperaturas são desérticas...

   Ter férias é ter tempo a sobrar. Sem atrasos. Em exclusivo. Para desbaratar. Para si, para os outros, para o que der e vier. Para não pensar em nada. Privilegia-se o dar na bolha. Mais a boa vida. Menospreza-se a velocidade. Diz-se não às arrelias e às decisões. Vive-se em regime de estaca zero, sem ambições. Sem agenda. Com pouca roupa. E grelhados. À sombra q.b. Ao fresco. Bem hidratado e com película generosa de protector. Moelas saborosamente condimentadas mais caracóis em habitat de pires. Sem relógio à vista e horários de faz-de-conta. Aplica-se o tempo onde ele mais faz falta: em não fazer nada.

Fica-se orgulhosamente aquém. Desperdiça-se. Há toda uma lista a poder ser feita de coisas que ficam por fazer, por pensar, planear, por decidir, por ver, por verificar.

Há um acordo tácito de que não se regateiam horas, nem se conquistam pressas. Damo-nos bem em qualquer lado ou clima. Não há neblina ou temperatura desagradável. Vivemos em ambiente We are the world e/ou People have the power. Sem nada melhor para fazer. Disponíveis para ir a banhos, expulsando o muco nasal e para bronzear onde outrora empalidecera.

   O melhor de ter tempo nas férias é poder desperdiçá-lo sem nos acusarem de preguiçosos. Alimentá-lo carinhosa e languidamente a bolas de Berlim, pernas-de-pau e boémia, 40 graus à sombra com a pele gostosamente a desidratar.

   O pior é quando acaba e o temos de usar todo para fazer o que nos mandam. E mais houvesse. Aí suspiramos saudosistas por aqueles dias em que olhávamos para o horizonte despreocupados como se esperássemos por um espectro sebastiânico, séculos atrasado, de montada fresca e império para revitalizar. Dizendo, patrioticamente, para o defender que há coisas que vêm sempre a tempo.

E enquanto distraídos pensamos nisso, entre os apupos do chefe que nos faz abruptamente descer à terra, arrependidos e entre mil perdões, percebemos que voltámos a ter tudo para fazer para ontem.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:30

III Alguns diferentes para não sermos todos iguais

Quarta-feira, 25.07.12

"Ele sempre foi diferente", "Estás diferente", "Ainda bem que não és igual aos outros", comenta-se.

Em relação às diferenças podemos ultrapassá-las ou aprender a viver com elas, mas certo é que elas separam. Partem e repartem e não se percebe se ficam com a melhor parte.

   É-se diferente quando se sai do normal. Se dá guia de marcha ao banal. Se manda à fava o usual. Alinha na contra-corrente.

   No entanto, há quem faça por ser diferente e quem o seja. É a diferença entre ser e parecer. O costume!

   A diferença é fora do normal. Sai do comum.

Exige pré-requisitos: paciência, disponibilidade para estar sozinho... e por isso nem sempre medra.

É ambivalente. Há quem sofra por ela e por causa dela e quem a deseje.

Mas nesta coisa de antes de irmos de vez, deixarmos claro que se passou por cá, o melhor é deixar uma marca: diferente.

Não que o normal tenha que ser chato. Há muito diferente que fugindo a isso se torna no seu arquétipo, por força de lhe querer escapar.

   A diferença acha-se sem se procurar. Não exige cuidados. Está à vista. Não é preciso arregaçar mangas. Não  é porque sim, é porque se precisa. Não é diferente quem quer, mas quem necessita.

Pode ser incómoda. E tem engulhos: pode valer ou não valer a pena, moer-nos o juízo, nem sempre vir a calhar, não dar jeito, obrigar-nos a fazer quilómetros, a aprender línguas, ir a sítios, usar o impensável. E acabar pondo-nos de parte.

É tudo menos óbvia. 

É das margens. Dos cantos. Do menos visível. O menos seguido. O menos gasto. O feio não é tanto como julgam, por exemplo.

Não é habitual. Extravasa. Não se contém nem se fica.

É anti. Fora.

Sai dos eixos.

Como adjetivo é sui generis. Particular. Não serve o geral. Não se contenta. É contestatária.

Não é popular e ganha, rapidamente, antipatias. É do que fica para último.

Não cativa.

Na maioria das vezes é ser mais para si do que para os outros. Não se vai pela certa.

Não é tanto um caminho, é mais uma circunstância ou um par delas. Até porque pode ser-se diferente das mais variadas  maneiras: nas cores, atitudes, nas escolhas, na forma de amar, de dizer, de estar ou, simplesmente, ser.

   Às vezes sabe-se porque existe a diferença e a que propósito vem, mas outras nem tanto. É distinta até nisso.

Mas em relação a ela, uma coisa é certa, não podia ser de outra maneira e se pudesse era em tudo diferente. 

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publicado por Carlos M. J. Alves às 07:58

III Um óptimo dia para uma revolução

Segunda-feira, 23.07.12

Life is short, break the rules, forgive quickly, kiss slowly, love truly, laugh uncontrollably, and never regret anything that made you smile. Twenty years from now you will be more disappointed by the things you didn't do than by the ones you did. So throw off the bowlines. Sail away from the safe harbor. Catch the trade winds in your sails. Explore. Dream. Discover.

 

Mark Twain 

 

 

Aos treze anos desejava ser como Iggy Pop. Dúvidas? Não para mim. Esse era o caminho certo.

Mas não foi esse o caso. É difícil dizer o que correu mal. Estava seguro de que tudo se processaria sem problemas e que era o melhor para mim.

Algo semelhante aconteceu quando fiz projectos para escrever como Faulkner em 1986, melhorar o desempenho escolar em 1989, deixar de fumar em 2005...

É assim a mudança! Sangue, suor e lágrimas.

   Um dia simplesmente acordamos e percebemos que já deveríamos ter lido À la recherche du temps perdu, ter experimentado comida molecular ou ter estado em mil e quinhentos lugares com que sempre sonhámos. Ficámos a meio dessas etapas e de largar outras tantas. De mudar. De vida. De nós. Ser como Iggy Pop. Mudar hoje o que queremos ser amanhã.

   Mas, mudar, como, quando e porquê?

Com o passar dos anos queremos voltar atrás. Ao corpo de antigamente. Vítimas de uma idade desfigurante.

Estar onde nunca se esteve. Em desacordo com o percurso e o ponto de chegada. Cortar, definitivamente, com o já feito.

   Toda a gente acha que nunca acontecerá consigo. Tem como garantido um novo dia. Mas desengane-se, em algum momento sentirá a necessidade de mudar. Uma espécie de call of the wild dominador e visceral.

Porquê? Bem, ninguém sonhou chegar em último. Ou ficar pelo caminho. Ter horários de reformado.

   Há dias em que olhamos para o espelho e se pudéssemos mudávamos tudo. De alto a baixo. Nem a personalidade se salvava, quanto mais aquela camisa...

     Em certas alturas ouvem-se as pernas a esticar até à altura desejada. Hábitos mudando de mãos. Guarda-roupas completos passando à categoria "onde é que eu estava com a cabeça?". Aprovisionamos saladas rejuvenescedoras e bebidas energéticas. E rock n' roll!  É desta que vamos mudar!

    A mudança é um passar de um lado da rua para o outro oposto. Uma boia de salvação atirada para o meio da tempestade, logo após a queda de um homem ao mar.

     Há casos de mudanças que dão origem a  Frankenstein's. Remendos acumulando-se em exagero. Um patchwork vulgar e de mau gosto do qual brotam proto-Justin Bieber's. 

Nem todas as mudanças são, por isso, aconselháveis. 

Algumas limitam-se a abanar a estrutura, mas outras não deixam pedra sobre pedra. Destroem a certeza mais forte: de que  as crocs são calçado de enfermeira a que Rossetti era a alma dos pré-rafaelitas ingleses. Nada se aproveita.

São difíceis de digerir. São, todavia, as mais eficazes. Quanto às outras...

   Lamento admitir, mas tenho receio de viver num mundo onde existe alguém que quer ser como Justin Bieber. Uma personagem bem comportadinha, semelhante a um purezinho para quem está doente ou uma canjinha levezinha. Um conta-quilómetros a zeros.

   Mudar, mudar, mudar eis o mote.

 Mas não nos contentemos com Justin Bieber. 

Um é mais do que suficiente. Prometam-me esse tanto!

Deserdem os vossos filhos se chegar a isso. Expulsem-nos de casa se for o caso. Não mostrem misericórdia. 

Desconfiem das suas intenções.

Sejam inflexíveis.

É a única forma de dormirmos descansados.

Mudar, mudar, mudar [Quem gritar Carpe Diem leva um tiro por falta de originalidade].

De preferência começar de novo.

Acabar com o que se está a fazer.

Partir para outra. Deixar de lado as lamúrias.

Dar o tempo anterior como mal gasto.

Reconsiderar, ansiando por um volte face.

Mandar tudo à merda.

Aproveitar as férias, a fila do 47, a espera pelo médico da Caixa.

Acordar em Amesterdão ou no Rio só com a roupa que se traz no corpo.

Passear pela praia de Venice sem fazer a mínima ideia de como lá se foi parar.

Chegar ao fim do arco-íris.

Feliz!

Começar uma revolução inteira. Com o que estiver à mão. Por nenhuma razão especial e por ninguém.

Está um óptimo dia para isso. 

    Em relação a Iggy Pop, continuo a achar que poderia ter dado certo.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 20:40

III Cartilha para a garantia de sucesso

Quarta-feira, 18.07.12

Lição nº1 - Eu se for bom, nós se der jeito.


É a mesma história de sempre. A pessoa e o seu tipo.

Matreira ou leal? Torta e sem capacidade de se endireitar ou recta? Capaz de tudo ou escrupulosa?
   O "eu" constrói-se. De preferência sob alicerces sólidos. É complexo. Precisa de crescer firme, com dignidade e valores.
Mas um "eu" comprometido com a necessidade de sucesso já vem feito.
Aparece a querer o lugar do outro, sendo falsamente empreendedor.
Ninguém lhe corta as pernas.
Põe e tira máscaras. Assume identidades. É várias pessoas. Engraxador. Eu, EU, eu.
Tem várias peles. É o que der mais jeito.
   Em contexto de reunião, em versão depuradamente graxista, o "eu" sai do armário como: "eu fiz", "eu tive a ideia", "eu cheguei a horas"...
Diz que está ou que esteve. Não confirma nem desmente. Disponível agora e sempre. Que viu ou vai ver. Leu ou anda. Não pensou, vai pensando. Não se dedica, continua a dedicar-se. Tem sempre ideias. Mas fá-las parecer difíceis de ter. Por elas reclama protagonismo e arrufos de genialidade.
Desenvolve-se no lodo da crise, na oportunidade que cria, desleal, na miséria alheia.
Fala quando interessa e repete o que surtiu efeito. Sistematiza o óbvio.
Aí o "eu" passa a perna. Diz "presente!" quando se trata de elogios. Auto-vangloria-se. Atribui-se honras. Estende a passadeira vermelha para si. Diz venha a mim....
Insinua-se para chefe. Tem a língua esticada para lamber. Não renuncia a uma boa filha-da-putice.
   O "eu" faz recair sobre si todos olhos, a não ser quando quer passar despercebido, aí passa a "a gente". Ou quando a crítica assoma em que manda o "a gente" à frente.
   O "fui eu que fiz" procura a promoção. Faz-se à atenção alheia. Colhe créditos. Soma os dos outros.
Dá saltinhos no meio da fila, dizendo: "estou aqui, estou aqui!". Acaba passando à frente.
O "eu fiz" não queima pestanas. Delega.
Lança-se às grandes empreitadas. Ao visível.
Procura protagonismo. Não vai em anonimatos ou pseudónimos.
Assina em maiúsculas.
Não pulveriza o seu trabalho.
   O "eu" tem predicados não reconhecíveis no "a gente". Não vai em números. O que é seu é seu e o que é dos outros é "da gente".
   O "eu fiz" não anda ao tostão.
Estabelece diferença nítida com o "vocês".
   O "a gente" é conveniente. Dá jeito. Salva. Protege do descrédito. Um "achámos" é menos arriscado do que um "acho".
É selectivo. É cirurgicamente inclusivo. Distribui a crítica por todos. Partilha  a culpa.
Lança poeira para os olhos quando é conveniente.
Desvia as atenções.
   O "eu" chega longe, mas só à custa de muitos "a gente.
   Num país de "eus" quem tem um "a gente" tem garantias notórias de sucesso.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 21:49

III Poderão os últimos ser melhores do que os primeiros?

Segunda-feira, 16.07.12

Para a minha mulher

 

Em relação aos beijos há uns mais beijoqueiros do que outros.

Mas ninguém passa sem eles.

   Um beijo pode ser, simplesmente, um beijo. Mas, também, pode crescer para algo maior: um fale agora ou cale-se para sempre, por exemplo. Ou servir para desfazer dúvidas.

Pode motivar de pintores a psicólogos evolucionistas.

Ocorrer de variadas maneiras: espontâneo, medroso, controlado, desconfiado, enamorado... 

Ter ares de dandy, de  Madame Bovary ou de quem mete o nariz onde não é chamado.

Pode ter um itinerário natural ou fazer desvios.

Contentar-se com amor e uma cabana ou ser exigente e com gostos gourmet.

Movimentar-se à vontade como se dissesse: there's no place like home. Ou desconfortável, como se experimentasse uns sapatos novos.

   E o primeiro? 

O primeiro beijo segue as regras. Teme-as. Espera que haja um próximo. Tenta não comprometer. E depois vai para casa.

É de quem está a começar. A fazer pela vida, inexperiente. Traz areia agarrada.

É um ganhar embalagem.

Um means to an end.

Cândido.

Rápido. Vívido. Sôfrego.

Longo. Intenso. 

Irreverente. Efusivo.

É desembaraçado. Mas tem a subtileza de um elefante numa loja de cristais. 

Faz asneiras.

O momento de todos os perigos.

É uma sorte. Sobre ele dizemos: "foi espectacular". Mas sabemos que "foi benzinho".

Está sobrevalorizado. Em relação ao primeiro beijo o melhor é, realmente, o que se lhe segue.

   Em relação a um beijo, prefiro o último. O acabado de dar. Mais experiente.

Socorrendo-me de linguagem laboral, o primeiro beijo é uma entrevista prévia para ficar com o lugar disponível. O último é uma carreira consumada. Quem tem paciência para entrevistas?

Se no primeiro se ouvem campainhas, no último deliciamo-nos com as Variações Goldberg interpretadas na perfeição.

   Deveria exigir-se que cada beijo fosse dado como se fosse o último. Inclusive o primeiro. Em mote de "tudo acontece hoje".

   O último beijo pode ou não ser definitivo. Mas devia ser inflexível. Má escolha de palavras? Não me parece. O último beijo deveria ser um murro na mesa. Um: "não me contento com menos que isto". Um: "aguentas-te?".

Cada caso é um caso, como é óbvio. Cada voz deverá ser ouvida. Para apurar responsabilidades e tirar conclusões. Mas...

   O último beijo sobreviveu às dúvidas do primeiro. De olhos fechados. Humilde e grato.

Mas, no fim, o último beijo deve ser inconsciente. Como se fosse o primeiro e como se não houvesse amanhã. Ou outra oportunidade. Como se quisesse acabar de vez com o assunto. Mas, deixando água na boca para o próximo.

   Uma coisa é certa, em relação a um beijo, ninguém chega ao último, acabado de dar, sem ter tido o primeiro.

   De um último beijo, acabado de dar, espera-se tudo. Ao contrário do primeiro, que tem tudo a provar. 

O último beijo é mais sereno, mas não tem que ser menos apaixonado. Se o coração continuar a bater como com o primeiro, então tudo está bem. O meu foi há menos de trinta minutos e estou ansioso pelo próximo.

   Beijos!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:26

III As impressões de hoje serão as certezas de amanhã

Sábado, 14.07.12

Há quem deseje dar o nome a estádios de futebol ou aviões da TAP, mas muito antes dessa possibilidade se proporcionar tem de se preocupar com as primeiras impressões.

Quando correm bem são uma entrada triunfante em campo. Um ir a jogo, confiante, para ganhar destacado. Não podem ser desperdiçadas. E não pudemos ser perdulários em relação a elas. 

   O receio em relação às primeiras impressões é como um medo do escuro não ultrapassado. Certamente não serei o único a pensar isso. Vale a pena salvaguardar alguns pontos em relação ao assunto.

   "Sicrano parece simpático", "Beltrano tem pinta de...", "não vou com a cara dele", "tem ar de quem..." Assim são as primeiras impressões. Desdenham. Pressupõem conhecer os cantos à casa. São uma lotaria. Um torcer de nariz.

Em relação a elas nem tudo o que brilha é ouro. E quem vê caras não vê, necessariamente, corações. Pior que elas só o "diz que disse" ou a calúnia.

No entanto, podemos dizer que não contam, mas num mundo de aparências, onde todos desejam impressionar, isso é uma conclusão precipitada. 

   A primeira impressão não é ajuizada. Falta-lhe o tino. É enervante. Não faz cerimónias. Leva-nos a melhor. Boicota-nos, displicente, obrigando-nos a fazer figuras tristes ou a ter atitudes impensáveis perante a necessidade de agradar. Consegue ser maldosa. Aconselha-se prudência aos utilizadores.

Em seu redor há drama. Suspense.

Uma gravata pode comprometer. Uma palavra despropositada embaraçar.

Dá-nos vontade de não aparecer.

   As primeiras impressões são hipócritas. Apelam ao dar nas vistas. Ao armar-nos. Tiram-nos as medidas. E sai a nota. 

   Razões para isso? Em termos de primeiras impressões há uma procura desmesurada por Clooney's e Pitt's.

O intelectual taciturno está, completamente, out of fashion no que às primeiras impressões diz respeito.

   De uma maneira geral, em circunstâncias normais, não queremos ser pretensiosos. Inteligentes, sim, mas não demasiado. Porém, não queremos falhar. E devido às primeiras impressões sentimo-nos novatos com tudo por provar. A pressão é igual à de uma final. And the winner is...

Fazem-se figas. Contas. Podemos indignar-nos, dizer que o que interessa é o interior, mas...

   As primeiras impressões são um je ne sais quoi. Um há falta de fundamento.... 

Sentem-seEm relação a si sou céptico. Só as digitais dão certezas. 

   As primeiras impressões podem deixar-nos despachados. Prontos para o que se segue. Mas quando corre mal esperamos que a opinião mude rapidamente e que  nunca atinja a maioridade.

Preciso de um tira-teimas. Uma espécie de sistema de pontos. Talvez acrescentar apenso o comentário please consider.

  Provavelmente, há peritos em primeiras impressões. Contagiantes. Motivados. Incutindo nos outros necessidades tipo Bonnie Taylor I need a hero. Torcendo o nariz às críticas. Mas, por mim, as primeiras impressões deviam ser riscadas. Desvalorizadas. Menorizadas. Desprezadas. Se pudesse passava já para  a segunda ou terceira impressão. E dizia: "agora que já me conhecem melhor tenham paciência comigo".

  Porquê? Reconhecidamente, a primeira impressão prejudica-me.

À primeira impressão sou um chato. Apalpo terreno. Tento ganhar tempo para o depois. Hesito na mesa. Na camisa. E no que der para ter dúvidas. Acabo de t-shirt, em pé e calado.

  Em minha defesa declaro que não se deve abusar das primeiras impressões. A serem usadas só com moderação. E só quando acompanhadas de um contexto apropriado. Deviam ser uma espécie de migalhas que se deixam como rasto para algo mais importante. 

Em relação a uma reacção, o caminho devia ser íngreme e não ficar por uma primeira impressão. Todos deviam lutar pela camisola azul nessa difícil ascensão. 

Só as certezas são à prova de bala. Desenganem-se os aspirantes apressados a nome de rua ou a estátua.

É por isso que em relação às primeiras impressões aposto no beneficio da dúvida.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:27


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