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III E Deus criou a mulher

Sábado, 29.09.12

We were together. I forget the rest.
Walt Whitman


Aparecem sempre por detrás de um grande homem. Suscitam mitos. Fizeram cair impérios. Foram alvo de cobiças. Inspiraram obras-primas. Fazem pulsar corações.

   Algumas destacam-se pelo sorriso de Gioconda. Outras pela forma como se passeiam em Ipanema. Pela coragem de Padeira de Aljubarrota. Pelo trágico de Maria Antonieta. Outras, ainda, por serem a nossa mãe.

    São musas, criaturas obsessivas no que aos sapatos diz respeito, termo de comparação com o pôr e nascer do sol, frescas como flores e são uma razão para viver ou dar a vida. Misteriosas, amigas, companheiras, amantes...

    Temos a balzaquiana, a femme fatale devoradora de homenscoquette, a loira explosiva, a bomba sexual. A todas é possível amar e delas dizer muito. 

     Descrevemo-las o melhor que conseguimos: as formas, os olhos, os seios, o sorriso, a voz. Através do som, da pedra, dos pigmentos. Obcecados por versos, melodias, enquadramentos e cambiantes.

   Invejamos-lhe a maternidade. Cobrimo-las de joias e criamos perfumes, especialmente, para si. Mas há uma única verdade insofismável que qualquer homem poderá garantir: possuímos sobre si uma compreensão limitada. Quando reclamam atenção, diálogo, da sala desarrumada e do ralo da banheira com cabelos.

Refiro-me às mulheres, claro!

     São delicadas, belas, mas também podem ser fortes. É um alívio que ter filhos seja uma coisa de mulher. Entregue aos homens ficaria pelo caminho.

      Estou convencido de que a poesia só existe porque precisamos dela para louvar o nosso amor por si. O mesmo se diga da música, da pintura, da escultura e das artes em geral.

Por elas construímos palácios, concedemos serenatas, fazemos declarações e trocamos votos. Em sua honra demos nomes de ruas e até o planeta é feminino.

    Ao longo dos séculos, as mulheres têm-nos obrigado às mais variadas coisas: a aprender a escrever, a pintar, a esculpir, a conseguir o escanhoado perfeito e a melhor combinação entre fato, gravata e camisa.

    Se é verdade que uma mulher se veste para outra mulher, é nela que pensamos quando nos arranjamos. É pelas mulheres que nos aprumamos. Que apresentamos as melhores maneiras e treinamos o requinte. Por elas abandonámos as cavernas. É por causa da mulher que o melhor de nós sobressai.

     A mulher libertou o homem da barbárie. Tirou-lhe os cotovelos de cima da mesa. Aparou-lhe o bigode e cortou-lhe as unhas.

Aprimorou-o e depois deixou-o ir em liberdade. Desinteressadamente, como os maiores gestos de amor.

   Sem mulheres os homens seriam incultos, barbudos e desprovidos de sensibilidade artística e necessidades estéticas e andariam desarranjados. Continuariam entregues à bestialidade e a serem sudoriferamente activos. Continuamente preocupados com guerras. Entretidos com disputas. 

A mulher amansou e civilizou o homem.

   Graças às mulheres vivemos num mundo repleto de hinos, odes, poemas, retratos, esculturas... Foram as mulheres que nos deram Modigliani, Paul Verlaine, Vinícius de Moraes...

Por causa delas o mundo não só sobreviveu como é hoje um sítio melhor, onde a beleza faz parte do nosso dia-a-dia.

   Apesar do longo caminho percorrido, muito há ainda para fazer. Falta tirar o homem de frente da televisão, ensiná-lo a não monopolizar o comando e a tirar os pés de cima da mesa do chá, arrancá-lo do sofá, mostrar-lhe que não deve deixar o tampo da sanita levantado nem encher o frigorífico com cerveja, pô-lo a fazer limpezas, a lavar o lavatório depois de fazer a barba, a sacudir os pés à entrada, a passear o cão. Mas só uma mulher teria a persistência necessária para o conseguir e só ela se proporia a semelhante tarefa. Podemos estar descansados.

    O que eu quero dizer é que primeiro eram as trevas e depois Deus criou a mulher e só então começou, realmente, o mundo.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 17:43

III Um dia nas corridas

Quarta-feira, 26.09.12

Conduzir não devia ser para todos. Conduzir faz soltar a franga. Impacienta. Violenta. Transforma a dona de casa pacífica a caminho das compras, num bombista sem escrúpulos. O Nobel da paz no Inimigo Público número um. Torna irreconhecível. Conduzir não devia ser para todos. Devia ser selectivo. Com direito de admissão. Ser preciso ganhar vez. Só para quem continuasse igual ao que era antes de entrar no carro.

  Ao volante acabam as indecisões, os modos, a paciência. Vale tudo. O pigmeu agiganta-se. O pacifista radicaliza-se. Somos leões esperando a presa desidratada para lhe dar uma coça quando aparecer para beber água.

  O trânsito torna irreconhecível. Tudo serve de pretexto para a mudança: o fluxo, as obras inesperadas e respectivas alterações, o estado do asfalto, as aselhices de terceiros, as passadeiras.

  A passadeira é um empecilho no percurso dos aceleras. Um tracejado proibitivo.

  Uma passadeira é um farol controlando passagens prioritárias. Um vórtice no local certo, sugando para a segurança. Protege. Dá abrigo.

Exige respeito e pressupõe ser acatada. É uma autoridade silenciosa.

  O problema da passadeira é que a passagem a certas horas do dia ganha contornos de corrida automobilística. Pais com crianças pela mão a caminho do infantário, saindo das escuderias escolares e equipas rivais versus condutores empenhadas em conseguir o melhor tempo de chegada ao emprego, conquistando pontos extra, precisamente, na renúncia à paragem na passadeira.

  O desrespeitador-de-passadeiras é assanhado. Não se intimida. Olha para o lado quando a vê. Desmerece-a. Desconsidera-a. Ridiculariza-a. Pergunta sarcástico: "Ah, estavas aí?". Investe sobre ela, planando acima dos limites, quando devia parar. Acelera em altura da travagem intuitiva e necessária. Prefere o viaduto e só reconhece o agente de autoridade.

Um apressado que conduz como quem rouba Helena. A caminho da fuga para a vitória. 

Não está para cumprir ordens. É mimado, birrento e faz como lhe apetece. Finge não perceber: "Ah, era para parar?".

Adultera prioridades. Põe-se à frente. Fica com a vez do peão.

  O desrespeitador-de-passadeiras é um Buck Rogers queimando atmosferas enquanto reentra em territórios alheios. Capaz de cortar gargantas pela prioridade, deixando para trás mulheres indignadas, esbracejando como Kali

Um cavaleiro do asfalto usando psicologicamente um capacete com marcas de óleos e pneus como um elmo velocipédico. Ávido por chegar, rapidamente, a Camelot.

Para ele  uma passadeira é uma meta instigando um confronto interior: "Consigo chegar antes dele, consigo chegar antes dele!". O "ele", o peão, em caso de vitória própria tomba, invariavelmente, sobre a zebra ante o impacto da derrota do condutor, que tendo chegado em simultâneo fez embater sobre o oponente o chassi da sua derrota.

Para si uma passadeira é uma provocação. Um perigo. Um atiçador de predadores da velocidade. É um fruto proibido.

É uma zona segura a saque. Um porto de abrigo, transformado em Pearl Harbour sob ataque cerrado.

Por sua causa, a passadeira mata quando era suposto salvar. Convida a acelerar quando devia fazer parar. 

  O desrespeitador-de-passadeiras tem pressa. Sempre. Mesmo quando não tem. Não se obriga a parar. Não percebe porque tem de o fazer. Teme a imobilidade. Distingue-se em tudo do peão.

O peão é vagaroso. Atrapalha. É um caracol sem a casa às costas.

  Ao primeiro contacto com a passadeira dá-se no desrespeitador uma inversão: "Ah, ele é suposto fazer isso, então faço assado!".

Dá-se ares de Schumacher sem regras para cumprir, sofrendo de um daltonismo especial para listas. Não segue convenções. Não cumpre códigos. Age sob a égide do ronco do motor poderoso, conquistando espaço, cavalo a cavalo, forçando a circulação.

Não liga, não repara, desobriga-se. Subjuga, arrasa, perdoa-se, justifica-se. É implacável. Nada o detém. Leva tudo à frente. Faz jejum ao que deve ser. Conduz para a vitória.

A esperança de o travar reside, unicamente, no vermelho do semáforo ou na obrigação de parar para reabastecimento.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 16:31

III Procrastinar é para todos!

Sábado, 22.09.12

Dou a minha palavra quanto a tentar mudar. Empenho-me na minha remodelação interior. Garanto que me esforço mas, em caso de necessidade, remeto para depois e vou à minha vida. Tenho mais que fazer. Não estou para pressas.

   Em situação de urgência, adio. Em contexto de indecisão, admito o mais prazenteiro. Em encruzilhada, opto pelo caminho menos íngreme.

    Globalmente, mandrio na preparação e hesito na deliberação.

Troco as horas, adianto ou atraso os ponteiros a meu bel-prazer, para minha conveniência.

Mando para trás das costas ou atiro para a gaveta e fico à espera da morte da bezerra.

   Reconheço que demoro a aquecer, a entusiasmar, a seleccionar a abordagem. Temo a precipitação. Esconjuro-a.

Troco de posição e volto atrás.

Deixo para mais tarde ou em pousio o que era para agora ou, simplesmente, escondo, infantilmente, debaixo do tapete.

Vou em conversas e esqueço o mais importante, confundindo prioridades.

    Sou um especialista genuíno em atenuantes e adiamentos. Um profissional autêntico. Não é de agora, tenho até muito tempo investido.

Invento desculpas, razões, coisas melhores para fazer e sou peremptório: “Não me dá jeito!”.

Preguiço, frequentemente (Nisso sou uma máquina.Preguiçosa, claro!).

Dedico-me, facilmente, a outra coisa.

Canso-me e dou um tempo.

Apelo à minha vontade, peço forças mas digo: “um destes dias”.

Desinteresso-me e acabo na sesta.

Não vejo necessidade ou razão para o contrário.

Desmarco e ponho-me ao fresco.

Suspendo.

Reagendo.

Justifico.

Desresponsabilizo-me.

Atraso.

Relaxo-me.

Entretenho.

Procrastino. Sou fraco!

   Procrastinar é algo que se mete pelo meio, é  não cumprir um dever, ter um livro para ler e não o fazer, uma coisa que substitui outra é empatar: cafés de vida ou morte, conversas inadiáveis, dores de cabeça ou barriga súbitas, ânsias de leitura e apetites vários, exibições de último episódio, cartazes de saída, peças a sair de cena, solicitações, devaneios mais o apelo da boa vida. 

   Procrastinar é um alívio. Desapertar para ficar mais à vontade. É não desistir da ideia mas, optando por lhe dar um tempo. E, acima de tudo, é de quem anda à procura de desculpas.

   Para os descrentes é considerada a opção mais fácil, mas é uma saída de emergência para quando tudo o resto falhou, o cerco começa a apertar e não há hipótese de fuga.

   Um procrastinador reconhece-se. Um procrastinador não engana. Denuncia-se. Dá indícios claros de que vai ficar pelo caminho. Embarrila. Não ludibria, equivoca-se. Tem semblante de quem retarda. Arrasta-se. Deixa-se topar.

   Um procrastinador não dá garantias. Diz que não tem tempo e fica, eternamente, a fazer planos. Baralha relevâncias. Troca: o estudo pelo lazer, o trabalho pelo ócio, o compromisso pelo adiamento, o importante pelo que sabe melhor. É a minha cara. Sou fácil de reconhecer. Estou há anos prestes a embarcar no Sud Express. Três viagens à volta do mundo aquém do desejável. Sou aquele com dez volumes debaixo do braço a precisarem de atenção desde a administração Reagan.

   Procrastinar é um: "hoje não me apetece, amanhã logo se vê!".

Mas, também, é esperar por melhor. Pôr à frente ou deixar de lado para retomar quando as condições forem mais aprazíveis.

Ficar à espera de melhor oportunidade, de apetecer, de ter ganas.

É um não comprometimento, um arrependimento, uma hesitação. Um: "não já!".

É protelar. Ficar para trás.

   Procrastinar colhe simpatias em toda a parte, embora seja contraproducente. Não produz ou tudo demora mais tempo. Não se põe ao caminho. Procrastinar não deixa obra. É mais do domínio da invisibilidade e do vazio.

Mas, há um reconhecimento mútuo e global. Um procrastinador, facilmente, identifica outro. Há uma espécie de irmandade democrática, sem tempo próprio mas, esperando pelo dia de ontem, a que, pelo menos uma vez na vida, todos já pertenceram. Quem nunca procrastinou?

   Sem mais delongas, procrastinar para mim é uma inevitabilidade, uma necessidade. 

Porquê?

Isso explico logo. Ou quando calhar.


Outras leituras sobre o assunto: The Thief of Time: Philosophical Essays on Procrastination
                                                   Chrisoula Andreou (Editor), Mark D. White (Editor)

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 14:06

III Cartilha para a garantia de sucesso

Segunda-feira, 17.09.12
Lição nº2 - A cunha.


Com ela o sucesso é garantido. Evita [mássurpresas, beneficia, faz cair nas boas graças, serve de rampa, ajuda, troca as voltas para chegar onde se pretende. Uma vez que embora deixe indícios e levante suspeitas, as pistas regra geral são insuficientes, para não restarem dúvidas, vamos chamá-la pelo seu nome verdadeiro: cunha.
   A cunha é uma besta a que mesmo que se corte a cabeça tem enormes probabilidades de sobreviver e, quem sabe, até tornar-se mais forte. 
   Não é de hoje e  move influências como sempre.
A sua [omni]presença é clandestina, invisível, dissimulada. Passa por nós [à nossa frente], desconfia-se, sente-se, pressente-se, insinua-se, desconfia-se de novo e acha-se que foi por causa dela que não se conseguiu, não se foi escolhido ou não se acabou sendo opção. Até porque dela se sente mais os efeitos, uma vez que não aparece à luz do dia e como desmente e nega, nós acabamos sem provas para a desmascarar.
   É um amparo, uma garantia. Também pode ser um empurrão e em qualquer das situações favorece, servindo o próprio e os que lhe são próximos
Senãos? 
Tem consciência de que andamos todos ao mesmo e aproveita-se. Cobra.
É só para alguns: não depende do que se faz, mas de quem se conhece. É dos e para os amigos.
Modo de funcionamento?
Geralmente não se partilha e vive das ocasiões. Nisso é um pouco ladra.
Apela às boas vontades. Põe à frente. Fecha os olhos. Passa para cima sem olhar ao como, quando e  porquê, sempre pronta para mexer uns cordelinhos, dar uma palavrinha ou conceder favores. 
Vota favoravelmente, independentemente das circunstâncias e cria ou arranja maneira de favorecer.
Não vai em habilitações, experiência, méritos, antiguidades ou talentos. Não respeita idade, prioridades ou lugar na fila. Não é preciso provar, estar à altura, ter ou saber fazer. Se der jeito, finge-se daltónica até quando lê o nome das cores. Faz de conta. Valoriza o que tem interesse e olha para o lado se for preciso.
É mais do conhecer alguém e de uma mão lavando a outra. Do favor. Do envelope que se entrega. Conquista pela influência, pela palavra certa ao ouvido interessado em escutar. É um "A quem devo telefonar?", "Com quem devo falar?", "Quem é que eu conheço?", a que do outro lado alguém responde com um "Não se fala mais nisso, não se preocupe!".
Problemas?
Revolta.
É injusta.
Desaponta os bons, os que tinham para dar, os que conseguiriam, os do legítimo lugar.
Em desespero de causa, dá inveja.
  É diversificada e expedita: arranja mesa, emprego, crédito, contactos, vaga, bilhete, entrevista, trabalho.
Uma rameira voluptuosa que se dá, mas quer em troca e se oferece a quem oferecer mais. É duvidosa. Apoia o vento dominante, a tendência, a maioria, quem está por cima, sem comprometer nem arriscar.
   Em suma, em relação à cunha, das duas uma: ou contorna ou é um atalho.
Bem, fim de lição. Não tinha dado conta das horas. Ando cheio de vontade de ir àquele restaurante novo, o... sim, esse. Parece que não é fácil. Lista de espera gigantesca... Modas é o que é! Alguém sabe a quem ligar? Pensei no... sim, esse mesmo. Se alguém consegue isso é ele. Não? Então quem?
Como é? Posso contar com a vossa ajuda? Somos amigos ou não?



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publicado por Máquina-da-Preguiça às 10:22

III Fim do verão, fim do mexilhão

Quinta-feira, 13.09.12

Para todas as mulheres que, invariavelmente, durante o veraneio, vêem os esposos contaminados, por imitação, pela síndrome da captura obsessiva de bivalves. Pagando pelo envenenamento com o encargo obrigatório da transformação diária da sua apanha em pitéu.

 

 

O homem  do bronzeado listado e artérias congestionadas adiantou-se em passada vigorosa de Usain Bolt para a revessa da barraca, vindo, directamente, da matança: três quilos de bivalves voando do ninho oceânico para uma primavera prisioneira em banho Maria, azeite e especiarias q.b. na cozinha do fogo arrendado para a época.

Manhã usada na íntegra. Submerso nas paredes das piscinas naturais, perseguindo os tesouros que se escondem na sua rugosidade, em equilíbrio instável. Separando o trigo do joio, em peneiração atenta e selectiva.

Gene Simmons de Speedo e saco de plástico transbordando de mexilhão, apanhado com mestria de homem aranha galgando rocha, esgueirando-se à concorrência como quem não dá tréguas aos arqui-inimigos.

Costas refulgindo, com a cor a que Rui Costa, em tempos de glória, gostava de se entregar.

Passada vigorosa de Bolt, altiva, como quem enceta jornada no ar, circulando sobre cabedal italiano para almofadar a pegada.

Saco transbordando de espécimes timidamente vivos com a concha negra azulada estorricando. Campeão inflado de uma Champions league de apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse. Açambarcadores da maré vazia, rivais da biodiversidade. Distribuídos às mãos cheias pelos territórios de pernoita da espécie.

As costas com o rubor que Rui Costa gostava de usar. Em labaredas. Alerta laranja. 

Orgulhoso. Preparado para fazer mais vítimas.

"Para arranjares para o almoço", diz à mulher, mal corta a meta, fazendo-a saltar páginas  na Crónica Feminina. Passando-lhe a taça. Diana arrependida, estendida na toalha, divorciada da caça e com leitura comprometida. Sobressaltada. Cabeça ainda tombando para a revista. Sonolenta. Sonhando com mexilhões gigantescos irados acabando de tomar o mundo, fazendo reféns terráqueos sanguinários, aproveitando-os para a frigideira, salteando-os, vingando os companheiros que tombaram época balnear após época balnear às mãos, sem remorsos, dos apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse.

"Não te esqueças os de limpar bem", aconselha o esposo, membro dos apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse, com desejos de grávida, colocando-os aos seus pés como tributo à sua Diana reformada da caça.

Os outros apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse invejando-lhe o saque como abutres. Sem medo aos mexilhões extraterrestres. O areal demasiado módico para todos aqueles caçadores furtivos, naquele oeste marítimo iodado.

"Os de ontem não estavam bem lavados", acrescenta enxertado em boa disposição. Descrevendo a higiene parca, pretérita, do seu garimpo mexilhoeiro como uma púbis sobrando do exterior da concha assexuada.

"Amanhã apanho mais", garante preparado não para enfrentar mares traiçoeiros, mas as derrapagens inerentes a quem avança sôfrego pelos rochedos molhados e com penugem marinha deslizante, com o fito da captura da presa e sem preocupações suficientes para não acabar estendido sobre os agulhões dos penhascos, resvalando, com as costas lancetadas pela caruma vulcânica como um faquir impreparado.

A mulher olha-o, incrédula, resignada ao confronto com a aderência das cataplanas e ao desbaste da púbis bivalve, como quem diz:

"As coisas que a gente faz por amor!".

Resignada. A contribuir para a final da Champions league de apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse. Com expectativas de ver os mexilhões com direitos de espécie protegida ou aguaceiros poderosos e marés vivas horrendas, capazes de os rapar da costa vitaliciamente. Disposta a ceder o marido a uma terapia especial que o torne um cidadão consciente da necessidade da reposição dos stocks marinhos ou o leve a alternar os mexilhões por estrelas-do-mar, sem préstimos apreciáveis para refogar.

"As coisas que a gente faz por amor!", repete, arrependida e consciente de que isso vai desaparecendo como um rímel que vai esborratando e precisa urgentemente de retoque.

"Pescada com todos", pensa em tom de grito de Ipiranga, lembrando-se do jejum forçado interrompido pelo mexilhão dos almoços, com que obrigatoriamente se vai amanhando.

Para o ano apregoará para si o acumulado de anos de dedicação conjugal. Sofrerá por insinuação hipocondríaca de enfizemas gravíssimos, faltas de ar ininterruptas e devastações pulmonares improváveis. E insinuando-se em apelo "As coisas que a gente faz por amor!" reclamará veemente, na fronteira do impropério, que férias só nas termas.

Enquanto isso não acontece, felizmente, amanhã têm de entregar a casa e o verão está a acabar.

Se o plano das termas não funcionar, pelo menos, na pior das hipóteses, mexilhão só para o ano.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 08:19

III Cara-metade

Segunda-feira, 10.09.12

Um Romeu sem Julieta só vale metade. O mesmo se diga de Bonnie sem Clyde. Furos abaixo das possibilidades, subaproveitados e aquém das expectativas.

   Essa é, pelo menos, a minha desconfiança. A cara-metade é a parte em falta. O nosso find Wally particular. Os cinquenta por cento que procurávamos e nos equilibram o orçamento sentimental, hormonal, afectivo. Que nos escapavam ou escondiam e nos oferecem a redenção para as nossas insuficiências.

A cara-metade preenche, completa. É um passo de gigante para uma dream team, conquistando campeonato atrás de campeonato.

Está na cara!

   Mas, complica-nos as contas. Esquiva-se. Às vezes é o trabalho de uma vida e outras não chega. Por não sabermos muito bem onde procurar, para começar. E porque vive de encontros e desencontros, de experiências, erros de casting, de ir em conversas.

  Quem procura cara-metade tem de ter para oferecer à procura. Seja ela obcecada, espontânea, desinteressada, metódica, sem rei nem rock. Capaz de afugentar, motivar, estimular. Atenta, encontrando quando menos se espera, com sucesso quando não procura. 

Quer em pânico ou ânsias. Quando exagerada ou discreta.

Como quem não quer a coisa ou apregoada aos quatro ventos.

Em andamento acelerado ou instalada, confortavelmente, numa  LC4 Chaise Longue exclusiva, com a revista preferida disponível.

   Quando o encontro é feliz é a nossa cara. Inteira. Somando e seguindo.

Encaixa. Avança em progressão de Tangram, já com Wally debaixo da asa.

Dá-nos a sensação de estarmos ou sermos completos. É um compromisso desejável.

   A cara-metade tem a ver com ir com ela.

Se todo o bocadinho acrescenta, em relação a qualquer cara-metade o que dizer dumas suíças fartas e cuidadas para toda a vida?

   Mas há mais perguntas. 

Quem dá para cara-metade?

E o que é que leva a uma?

O que fica para cara-metade?

O que se exclui?

Tormentos?

   Em relação a esses, não são meia dúzia de sardas ou um nariz mais aquilino que impedem de se juntar à sua cara-metade. Ou o ruivo mais crespo e arrepiado.

Também não há regras. A uma cara redonda pode caber uma cara-metade pontiaguda.

Ao rosto mais luminoso pode convir uma cara-metade sorumbática.

Às maçãs do rosto mais vermelhas a tez mais pálida.

Com sobrancelha farta pode ir bem um par de circunflexas.

A anca roliça não afugenta.

A barba hirsuta não intimida.

O esquálido não tem que se sobrepor ao gordo.

Dente encavalitado pode não rejeitar dentição perfeita como, também, a pode trocar por um sorriso desdentado.

Às vezes até o improvável resulta. Como aqueles gelados Ben & Jerry’s com sabores e combinações estranhas. Uma cara-metade pode muito bem ser um Late Night Snack (sorvete de baunilha com calda de caramelo levemente salgada com pequenos pedaços de batata frita, segundo indicação dos próprios). Metaforicamente falando, claro!

Atenções?

   As caras-metades podem não ser um verso e reverso perfeito. Escolher cara, sair coroa e não resultar daí dano. Uma roca com mais de um fuso.

A cara-metade pode não ser evidente.

Pode até, muito bem, não ser a escolha perfeita.

Por ir por tentativas, acabar não acertando à primeira, segunda ou terceira.

Findar ou começar num piscar de olhos ou passar despercebida enquanto ele dura.

A cara-metade pode ser a parte mais feia ou mais bonita.

Pode ser um + que se junta a um - ou o contrário.

Nem sempre tem lógica.

   Mas para funcionar, a cara-metade é acolitada por uma personalidade que encaixa, uma química que não aparta, gostares que não chocam, regras que não impedem, manhas, tiques e manias que não impossibilitam a convivência.

Complicações?

   Nem sempre se percebem ou antecipam. Porque quem vê caras nem sempre vê corações e há quem consiga esconder no mais recôndito dos fundos o que não interessa: um ressonar porcinobufando em apneias asfixiantes e sonoras; não se importar de viver num aterro sanitário e em Karaoke histérico e constante.

   Porém, se a Romeu se subentende Julieta, no que às caras-metades diz respeito, com o tempo vão aparecendo borbulhas temperamentais, alguns pontos negros de mau feitio, rugas inultrapassáveis. Os resultados deixam de aparecer.

O problema maior é aquela altura, triste, terrífica, princípio do fim, em que se olha para o espelho  [tarde demais para um  facelift conciliador]  farto do que se vê e sem gostar mais da cara... metade.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 09:36

III Destaque no Sapo

Sexta-feira, 07.09.12

Um agradecimento, muito especial, para o destaque no Sapo à Máquina da Preguiça.

O muito obrigado pela atenção e agradável convivência.

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 08:53

III Atrasos médicos

Quinta-feira, 06.09.12

"O senhor doutor pede desculpa, mas está atrasado", anunciou a morgada da portaria, ilibando o médico, como quem o salva de uma lapidação sumária, aproveitando uma altercação homeostática súbita que o reteve para lhe legitimar a falta.

"Oooooh!!!", ouve-se em sinal de desilusão colectiva.

"O senhor doutor pede muita desculpa.", repete a recepcionista, descrevendo-o como incapaz de resistir a tirar das trevas esterilizadoras um milhar de agentes de propagação de doença identificados no rastreio hospitalar.

  Para a minha contabilidade pessoal a situação soma-se à última vez em que estive no consultório em que a razão da demora foi uma espécie de rebentamento de bexiga. Mas houve outras ocasiões de maiores ou menores complicações que resultaram em adiamentos, delongas, prorrogações e protelações.

Um desaguisado de bojadores médicos abdominais, achaques respiratórios uns mais temperamentais do que outros e de dificuldade superior com consequências idênticas: atraso.

  E nós, espoliados da saúde, com dores não debeláveis, imaginando-o atravancado com suturas, gangrenas inesperadas e febres coléricas incapazes de contestar, desculpando-o, altruístas. Reconhecendo-lhe um dia com pelo menos trinta e sete horas de conquistas médicas ininterruptas, acumuladas em hospitais, centros de saúde, consultórios, ambulatórios de norte a sul do país.

Os da marcação das nove ficando para as dez, esses caminhando para as onze, alterações em escadinha e eu avançando impávida e involuntariamente nos degraus até à viragem de um século próximo, a meia cura de um desfecho saudável, imediatamente, atrás da propaganda médica. Não contestando os empecilhos médicos repentinos (por medo às represálias) que fizeram o senhor doutor voltar atrás, estacionando de volta o BMW na sombra reservada. Compreendendo a sua falha. Apercebendo-me dos plantões acumulados, das clínicas sobrepondo-se, urgências assoberbando-o, piquetes solicitando-o, mais as horas extraordinárias, domicílios e os horários extra.

"E vai demorar muito?", pergunta o da marcação das treze.

"O senhor doutor acabou de ligar a dizer que saiu agora de banco", contrapôs a funcionária, defendendo o patronato com dentes de quem não tem pele para desaforos, crescendo dentro da bata branca, enquanto fecha a porta do meio gabinete a que o especialista tem direito nas instalações que partilha com os colegas da ginecologia, ortopedia, clínica geral, pediatria e nomes cumpridíssimos fazendo adivinhar capacidades médicas extraordinárias, a que chamam pomposamente "Centro Clínico".

"O senhor doutor acabou de sair de banco", repete salpicando o branco da bata com a sua ira, apropriada a quem se especializou em apanhar um ror de palavras por minuto, em débito agressivo, rápido e continuado, fixando-as estenograficamente primeiro, e depois passando-as para carta (noutros tempos)  e, mais recentemente, email. Isso mais telefonemas e gestão de agenda e recursos, não sobrando daí tempo para justificar atrasos altamente compreensíveis. Até porque o tempo do senhor doutor só a si pertence, deixa ela insinuado no ar para desilusão dos aflitos. E só os infiéis da ciência médica são incapazes de o não reconhecer. Nós, pagantes ingratos, pouco cuidadosos, que se deixaram adoecer.

   A parte da sala de espera adstrita ao meio gabinete  do senhor doutor foi transbordando de mazelas: pernas lascadas, braços imobilizados, pessoas que só estão para mostrar exames, reis magos com oferendas de caixas Casa Ermelinda para trocar por disponibilidade.  

"O senhor doutor está ligeiramente atrasado", lança a secretária do nosso especialista em atrofias e contratempos do sistema imunitário para o casal de tísicos, recém-chegado, que procurava informações junto da jovem vestindo na íntegra um catálogo de "roupa alegre e colorida". Confirmando essa evidência aos que a rondavam em especial os das marcações das dez e dez e meia que já íam a caminho das onze e meia e meio-dia, respectivamente.

"Veja lá o que pode fazer", solicita uma idosa com um colar cervical desempenando-lhe o pescoço contorcido à morgada da portaria.

" O senhor doutor anda muito ocupado" ouve-se retorquir dissuasora.

“Só se for para o fim do mês que vem”.

"Veja lá o que pode fazer", solicita, novamente, a idosa, com as mãos dispostas em apelo.

As pessoas só-para-mostrar-exames agitam-se e os reis magos com as caixas-Casa-Ermelinda-para-trocar-por-disponibilidade, também.

Os meus olhos estão fixos nas caixas-Casa-Ermelinda-para-trocar-por-disponibilidade, pronto para subornar atenções. Começo a pôr em causa o dia de quarenta e oito horas do senhor doutor e a desejar que tenha vinte e quatro como o meu.

"O senhor doutor vai demorar?", questiono.

"O senhor doutor foi almoçar.", responde a recepcionista incrédula, por uma manhã perdida não ter sido suficiente para eu perceber que o tempo do doutor é diferente do dos doentes.

"Almoçar?", pergunto céptico, questionando, novamente, para verificar se ouvi bem. Percebendo ou supondo, pelo espanto da recepcionista, que estou cinco horas adiantado em relação ao "horário médico".

"Não quer que ela não coma, não é!", responde ela percebendo a minha desilusão. Provavelmente, com as contas da conversão do "tempo normal para o comum dos cidadãos" para  "horário médico" e concluindo que, contas feitas, afinal, o doutor está praticamente em cima da hora.

  Calo-me. Arrependido de ter perguntado. Sem querer ser responsável pela sua debilidade. Esperançoso que o almoço o liberte da fraqueza e lhe dê inspiração médica suplementar, para não errar diagnósticos, libertando os enfermos das dentadas de rafeiros microbianos que andam por todo o lado e estrafegam o que lhe aparece pela frente com saúde. 

  Observo a aia, remexendo a agenda, e espero um milagre: não ter que voltar outro dia. E, sem hesitar, olho primeiro para os reis magos (Baltazar, analisando-me desconfiado) e levanto-me, passando-lhes à frente.                                                                                                                

  Ultrapasso Baltazar pela direita e Melchior pela esquerda. Gaspar há muito que ficou para trás. Perco, automaticamente, o lugar onde estava sentado para a marcação das dezassete. Pisco o olho à morgada da portaria que pára, momentaneamente, de escrever um email e entrego-lhe, discretamente, uma caixa da Casa Ermelinda reserva que tinha no carro e que vem comigo sempre que vou ao médico. A marcação das duas e meia é minha.  

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 07:50

III Pausa para café?

Terça-feira, 04.09.12

I have measured out my life with coffee spoons.

T. S. Eliot

 

I like cappuccino, actually. But even a bad cup of coffee is better than no coffee at all.

David Lynch

 


Coffee and Cigarettes é o título de três curtas-metragens e um filme de 2003 de Jim Jarmusch. Este último é constituído por um conjunto de 11 short stories e inclui, ainda, as três curtas iniciais. Pode ser, fácil e fidedignamente, sintetizado na constatação proferida por Iggy Pop durante uma das suas cenas:

Cigarettes and coffee, man, that's a combination.


O filme ajuda a justificar a opção, que pode parecer estranha ou até despropositada, de escrever uma crónica inteira a propósito do café. Em todo o caso, a juntar a isso posso afirmar que a minha vida não seria a mesma sem café ao Domingo de manhã e isso compensa o risco. Mas isso explicarei adiante.

De qualquer maneira, nesta altura, posso garantir que revoluções inteiras foram preparadas em cafés. Esboços passaram a obras-primas, guardanapos foram usados para conjecturar novelas e longas-metragens. E, a maior parte, começou com uma pergunta simples: "Queres ir tomar café?".

   "Queres ir tomar café?" é provavelmente o convite mais repetido em todo o mundo. Não é original, mas serve perfeitamente. Justifica tardes inteiras e entra pela noite dentro.

   Comecemos pelo café, propriamente dito…  Podemos chamar-lhe café, bica, cimbalinocoffee, Kaffee, koffie, caffè, kaffe, kahwah ou cahue que vai tudo dar no mesmo. 

Não conhecer a classificação Coffea arabica oferecida pelo naturalista Lineu não exclui saber degustá-lo. Nem desconhecer vocabulário gravitando em torno de grãos, plantações, máquinas e moinhos de café, como coffee break, coffee maker, coffee table ou coffee-table book. 

   Pode-se apreciá-lo com moderação ou beber demasiado. Usá-lo para justificar mais um cigarro. Temê-lo por causa das insónias. Tê-lo por perto para preparar, madrugada dentro, o exame final. Jurar que ataca os nervos. Afirmar que de manhã não se funciona sem ele. Querê-lo cheio, curto, em chávena escaldada, pingado, com cheirinho... Habituarmo-nos até a conviver com os que preferem chá.

Mas, acima de tudo, foi um dia feliz quando a humanidade alcançou o café instantâneo. Uma hora H ou um dia D.

   Confesso que escrevi este  post enquanto tomava café, o que demonstra o quanto é evidente a sua importância. Olhando em volta com gente mergulhando em jornais, ao telemóvel, escrevendo, consultando documentos pergunto-me: "Pausa para café?". 

Um café finaliza, mas também acompanha: o cigarro, o brandy, os nossos pensamentos, a nossa solidão... Um café ajuda a procrastinar. Dá azo.

   Sei do que falo (chegamos, finalmente, à explicação). Há dez anos e duas filhas atrás costumava encontrar-me "casualmente", num pequeno café, sem vivalma ao Domingo de manhã com alguém com quem partilhava estremunhado as peripécias do Sábado à noite e do resto das agruras semanais. Tempo parado e café duplo revitalizante à minha frente. Durante esse período continuei simulando encontros espontâneos e acidentais e a aparecer "casualmente" ao Domingo de manhã no café num horário terrivelmente madrugador com o pretexto de ter ido tomar café. 

Casamento foi o resultado desses cafés matinais. Até hoje.

Desengane-se quem aposta na Internet como local privilegiado para o romance, o meu conselho é o, nunca fora de moda, café do quarteirão onde moramos.

  Ora, o que o exemplo prova é que tomar café é um pretexto para uma série de coisas: para parar, para sair de casa, conversar, ver gente, uma oportunidade para espairecer. Mas também para fazer uma declaração de amor, trabalhar, um convite à reflexão, fechar contratos. Vai para lá do que cabe na chávena. Tomam-se notas, lançam-se olhares, escutam-se e observam-se os outros. Rodeado de artistas, intelectuais, apaixonados, pelo homem comum. Em espírito de tertúlia, reunião de negócios, encontro amoroso, de quem não tem dinheiro para mais ou que faz tempo para alguma coisa. É a saída mais barata.

E isso pode ser feito tanto num boteco simpático de São Paulo, num snack-bar da avenida da Liberdade, na esplanada da Pastelaria Suíça, n'A Brasileira do Chiado, numa qualquer coffee shop de Amesterdão ou num bistrô em decoração Belle Époque  francês. No Le Procope parisiense que por cá anda desde 1686, epicentro do Iluminismo francês e abrigo de Voltaire, Rousseau e Diderot  e berço da Encyclopédie ou na Rua Santa Catarina, no portuense Majestic, como Teixeira de Pascoaes, José Régio, António Nobre, Leonardo Coimbra.

Café, há em todo o lado. Serve-se tanto a muitos pés de altitude como no meio do oceano. 

É democrático, sinónimo de liberdade, não interdita.

   Perigos? 

Como se pode constatar pelo já dito, um café nem sempre é só um café. É, sem dúvida, a desculpa perfeita, o que o torna perigosíssimo.

  Um café empolga-nos, liberta-nos, dá-nos tempo, serve como pretexto, iliba-nos, tira-nos da rua, do que estávamos a fazer, das preocupações, dá-nos conversa.

É preciso dizer mais?

Serve-nos de companhia e tem a vantagem de não ter pompa nem circunstância.

  Vantagens? 

As mesmas que os riscos e o facto de saber bem, mais servir-nos de companhia, ser credível ao ponto de não ser mal-intencionado e soar melhor do que convidar para jantar ou ir dar um pezinho de dança. Para não falar de que não embaraça como uma ida à praia. No fundo, com ele, ninguém se mete em apertos.

Também não inibe, não obriga, não exige roupa a condizer, não é preciso saber estar e dá sempre para pagar os dois.

  Tomar café é gozar o ambiente e fazer parte dele. Desconsidera-se o prático, o ter que ir de propósito, a desproporção entre o que custa e a quantidade que se recebe.

Com sorte pode mudar a nossa vida, posso garanti-lo.

  Vou ter que ficar por aqui porque não há serviço às mesas e tenho de ir arranjar um copo de água para beber no final do meu abatanado.

Quando voltar quero olhar, novamente, para as minhas anotações e nada me daria maior satisfação do que contar com a sua opinião.

Os cafés são por minha conta!

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 18:30


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