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III O coração é uma grande dor de cabeça

Domingo, 08.07.12

Mesmo em época de casa e descasa, mesmo que se faça orelhas moucas, e que se diga que só serve para o que a gente sabe, o coração é que manda. Não vai em troikas.

A prudência aconselha-nos a desconfiar dele. Uma vez que a inteligência vai, imediatamente, de carrinho e a inconsciência se outorga privilégios especiais nas suas imediações. Mas nós vamos na conversa.

Até o tempo passa de maneira diferente sob a sua influência. Uma vida pode ser pouco, mas dez minutos podem ser demasiado. Depende das circunstâncias.

   «Quem não se sente não é filho de boa gente», dizem quando as coisas descarrilam. Também se diz que «o que os olhos não veem o coração não sente». Mas o coração sente e vê primeiro do que nós. E tira as suas próprias conclusões. Sem dar cavaco. É autónomo. Não precisa de nós para nada. Não ouve a nossa opinião. Nem precisa de conselho. É de ideias fixas e sabe o que quer. É obstinado. Persistente. Teimoso. Não vê necessidade em justificar-se. Só depois quando apanha por tabela é que se lembra que existimos. E vem chorar no nosso colo. Sofrendo dos seus males. Procurando consolo. Desculpando-se. Arrependido de nos ter abandonado. Aflito. Carente. A precisar de um ombro amigo. Aí volta-se para nós. Ronronando. Como noutras alturas, consegue ser convincente. Encetando uma amizade colorida. Está bom de ver que não se trata de trocados.

O coração é um bico-de-obra. Só dá chatice. Afinal, nunca ter sofrido por sua causa é tão improvável como nunca ter acabado com o nariz a pingar e a caldos de galinha, por culpa de uma gripe.

   Em matérias de coração diz-se que tudo vale a pena. Para mais ele pode ser mole. Justifica-se mesmo o impossível. Ou o, meramente, improvável.

Há os que o têm de poeta. Quem o tenha grande. Os recatados. Os abnegados. Os que o têm bem fechado a sete chaves. Os que parece que o têm entupido. Os que renunciam a ele. Os que parece que não o usam. Ou não precisam dele.

Os que o têm gelado. Os que andam pela vida espremendo os dias de peito aberto. Os que nunca aprendem. Constantemente embriagados por ele. E os que andam com o coração ao pé da boca. Os últimos são os que se dão. À morte. E ao que calha. Sem pensarem duas vezes. Imprudentes. Vão em cantigas. Arriscam. Petiscam. Dão dois passos à frente e três para o lado. Iludem-se. Arrependem-se. Sofrem. Têm que estar preparados para levar porrada. Para oferecer o corpo às balas. Em versão, o que arde cura. Mas parece que não se importam.

Quem poderá dizer quem sai beneficiado?

   Em matérias de coração quem sabe tudo? Ou alguma coisa que seja? Quem tem privilégios de cátedra? Ninguém está a salvo e o corpo é que paga. É mais sensato assumir a posição de leigo. Humilde. Ansioso. Inexperiente. Em formação. Mas com vontade de aprender. Esforçado. Ultrapassando os azares. Convicto de que às vezes as contas saem trocadas.

Não há caminhos fáceis. Atalhos. Só alguns becos sem saída. Avança-se às cegas. Não há preview.

   Em matérias de coração, em certas alturas dá vontade de o arrancar com as próprias mãos. Não chega oferecer flores. Escrever cartas de amor. Idas ao cinema. Ou convidar para jantar. Há sempre um novo dia. Isso é certo. Mas uns são melhores do que outros.

   Em matérias de coração, o outro faz sempre pior figura do que nós. Felizmente a memória é curta. E a melhor maneira de ultrapassar o susto é com mais do mesmo. Voltar a montar depois do tombo.

   Em matérias de coração a mulher do nosso melhor amigo é homem e a namorada irmã. Quem não sabe isso?

   Uma coisa é certa, em matérias de coração andamos sempre com lições em atraso.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 11:43





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