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III Limpezas de verão

Segunda-feira, 30.07.12

Antes da praia, parecendo ter que a merecer ou depois dela em forma de "quem não aproveitou que aproveitasse", surgiam invariavelmente as limpezas de verão.

   Enojados e pouco convencidos com o argumento de que "a limpeza nunca é demais" e promotores de um asseio que não se quer enfezado começávamos, em redenção pelo resto do ano, acudindo ao mais urgente, desfazendo-nos do que ficara do inverno. 

Não sem principiar com uma investidura, fundamental para a depuração seguinte, de "tu fazes isto e aquilo", "tu limpas aquilo e tu aqueloutro", "atenção a isto e a outro tanto". 

Numa fase que contava já com o pai ricamente disfarçado como se fosse assaltar um banco e a mãe equipada para fugir às nódoas como se escapasse à radioactividade. 

Eu cumprindo involuntariamente o encargo pré-determinado e escapando aos calduços dos investidos enquanto passarinhava com uma desonrosa roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga.

   Deitar fora, arrumar e limpar, em penitência pelo acumulado, tornava-se uma missão. Dava-se caça aos bolores, às rachas, ao pó, às teias de aranha, a algum mau gosto; limpava-se, decapava-se, raspava-se, tapava-se, pintava-se até ao ponto de quando empanturrados pelo expurgo se achar que ficava assim até ao próximo ano para nova despoluição.

Lixívia, detergentes das marcas que no ano anterior conseguiram bons desempenhos (frequentemente pelo menos um limpa vidros e um par de desinfectantes não resistiam e viam o seu esforço suprido), tinta (de areia, óleo e água) encomendada ao balcão de uma loja de ferragens gerida por especialistas, vassouras, espanadores, pincéis e rolos faziam o nosso dia-a-dia. Mais tempo, tarefas divididas e partilhadas, má vontade e resignação à mistura com barras, pinturas novas, desinfecções, rádios debitando clássicos, admoestações, estratégias entusiastas e repreensões.

   Aspiradores em plena sucção e trinchas de alto débito passavam de mão em mão. Os vidros andavam em alvoroço e os impressionistas que algumas limpezas antes tinham destronado as cenas de caça da sala de jantar arejavam, obrigatoriamente, na varanda.

A meio ouvia-se o habitual  dlim, dlão - "É aqui que é para entregar três latas de tinta?" - após se concluir mais uma vez que as encomendas não davam nem para metade das necessidades.

A arte sacra (duas santas facilmente reconhecíveis e uma imagem de S. João Baptista pouco consensual) ficavam no guarda-fatos até final, conseguindo o milagre de não acabarem com tinta.

Os livros ocupavam uma fracção das escadas, não se sabendo muito bem onde acabava o ensaio e começava a poesia.

Os tachos ganhavam vez para serem areados a seguir ao  hall de entrada que perdia em demãos para os fritos da chaminé.

Os tapetes acabavam substituídos antes do limite do prazo de validade previsto pelo vendedor optimista que lhes confirmara a qualidade imaculada.

Ainda comigo patinando na conversão, muitos comentários formativos  à base de "porque tu um dia terás a tua casa" eram acrescentados à já longa lista de minudências que caracterizavam as nossas limpezas de verão. 

Eu, pouco convencido, fazendo a minha parte, segundo quem participava nas exéquias, com olhos de carneiro mal morto e de roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga. Lutando calduço a calduço pela liberdade.

Um espectáculo digno de ser visto e aplaudido.

  E depois o final, com os anjos voltando para o firmamento do costume e mais o resto. Eu  usando, por imposição, roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga. O pai ainda como inimigo público número um preparado para o golpe do século. E a mãe ilesa, acabando de ludibriar mais uma vez a radioactividade.

   Felizmente, nem sempre temos que seguir os conselhos dos pais.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:30





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