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III O verão precisa de espaço

Terça-feira, 07.08.12

Vejo-os aproximarem-se. Batendo asa para um sul que me inclui. Acercando-se de mim. Correndo esbaforidos como se temessem não ficar incluídos na distribuição dos ultravioletas por pura velhacaria. Não confiando na suficiência das dunas. A distância encurtando. Os chinelos encartuchados nos bolsos dos calções enramados. O saco da promoção Piz Buin abarrotando, competindo com outros dois de uma churrascaria, enfeirando brinquedos e mantimentos para a tropa. 

   Olho à minha volta. A praia tem pouca gente. Uma língua deserta do tamanho de Madagáscar. A crise... Estou tranquilo.

   Vejo-os aproximarem-se, encarniçados, em passada frenética, um ai sim, um ai não. Baralhado pelas t-shirts coloridas, anunciando hipermercados em promoção.

   Olho, novamente, ao meu redor. Confirmo que a praia é um interior desabitado. A crise, claro! Permaneço tranquilo. A salvo na minha língua deserta.

   Continuam a aproximar-se, reparo temeroso. Um ai sim, um ai não como se o areal tivesse propriedades vitrocerâmicas e atingisse temperaturas capazes de liquefazer aço. Nada os detém. Questiono a fartura da minha língua desértica.

   Aproximam-se. O cinéfilo que há em mim pensa em Jawsdam-dam, dam-dam, dam-dam. Barbatana assomando por entre as duas pernas de frango estampadas no saco da churrascaria, asfixiando na cova do braço do latagão que traz a bola de futebol.

   Sinto os dentes trincando. Dam-dam, dam-dam, dam-dam. Intranquilo. Nem a crise. Os ais cada vez mais próximos. A língua deserta do tamanho de Madagáscar desidratada.

Disfarço.

"Já está a escaldar", oiço ao meu lado, como se repartíssemos o Etna.

Já somos vizinhos.

Disfarço, ainda mais.

Não quero olhar, mas imagino as plantas dos pés derretidas.

"Bom dia!", cumprimenta o patriarca sacudindo para cima de mim a lava dos tornozelos.

São “simpáticos”, reconheço.

"Bom dia!", respondo.

Sou rapidamente ensanduichado. 

O chapéu-de-sol com a marca de um refrigerante acrescenta sombra ao meu.

Uma média assustadora de uma toalha por cada dez segundos vai crescendo geocentricamente, acrescentando-se à área coberta do abarracamento: armações e avançados.

   Tento relaxar entre as ameias. Dormir seria uma boa ideia. Descontraio. 

Mobilizo o sono:

 

Um veraneante assassinado, dois veraneantes assassinados, três...

 

 

Nada feito.

Os sacos açabarcaram o meu colo.

   O benjamim dos meus vizinhos tem fome e, sentindo-se provocado por ela, atirou-se às sandes, anunciando estar disponível para retraçar três, mais um Compal de pera fresquinho e lançando um repto mortal a dois iogurtes antes de se atingir o almoço.

   Abro os olhos com a ajuda da bola de futebol do Piranha que se estreou três palmos abaixo do meu tórax. Estou cabeça com cabeça com a centenária do grupo, imóvel como os Jerónimos.

   Faleci e estou bem no centro de um acampamento tuaregue em plenário com, pelo menos, quatro gerações. Na falta de tisana para partilhar, resta-me a bandeira verde.

   Devolvo uma embalagem que encontrei debaixo da minha carteira, onde só tenho tempo de ler: um antes do almoço e outro antes do jantar.

“É da minha namorada”, diz, sem agradecer, o mais rufia, olhando, em atitude de estampa, I'm too sexy for my love, para a jovem fixa ao telemóvel fluorescente.

"A água está boa?", pergunta-me a matriarca.

"Ainda não fui", respondo sereno.

"Olhe que parece", afiança.

Alguém que me ajude?!

Dr. Phill?!

A Marinha?!

O Exército de Salvação?!

Prometo que a partir de agora só campo ou termas.

Os ais só há pouco terminaram.

"A água está boa?", questiona o patriarca.

"Ainda não fui", respondo, novamente.

"Olhe que parece", contra-argumenta como se repisasse uma senha.

Desisto. Aceno e desejo bom dia.

“Já?”, sonda um dos sobrinhos do casal.

“A água hoje está fria!”, exclamo pouco imaginativo.

O rapaz, acabado de chegar do oceano, pingando-me o António Lobo Antunes que não fui a tempo de guardar, discorda incrédulo.

   Dez minutos depois estamos no carro.

O António Lobo Antunes vai, no banco de trás, aberto na página 55, a dessalinizar.

   É uma evidência. Em relação ao verão, preciso de espaço.

 

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:48


2 comentários

De LWillow a 08.08.2012 às 00:26

Ficou claro que chegas cedo à praia e que o tal Sul que te incluia ... não era ainda satisfazmente a Sul ! :)

De Eliza a 08.08.2012 às 16:59

gosto mesmo do novo header :)

fiquei a perguntar-me: de que A.L.A. se tratava?
'Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?' seria adequado, haha.

leio-o sempre,
Eliza

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