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III A maneira de ser é para quem não tem personalidade

Sexta-feira, 17.08.12

Quem não ouviu já: "Não lhe leve a mal pois é a sua maneira de ser"?

Estou a abarrotar de comentários sobre a “maneira de ser”. A minha e a dos outros. É incontornável. Dela ninguém nos livra. Anda colada a nós. Uma encruzilhada fatal.

Admito que estou, completamente, embuchado. Cheio de si!

   Podendo ser excêntrica ou recatada, pirrónica e conflituosa, também é soma de atributos e serve, perfeitamente, como desculpa. Para quando você está no seu pior, pôs a boa educação em lista de espera e partiu para a bestialidade. 

É um farol para o dar na vinheta. Uma luz, ininterrupta, para a sua escuridão interior.

   Mas, se você é dos que acha que dois terços do mundo nem sequer devia fazer-nos desperdiçar tempo e que a rotação anda largada dos eixos, tem os ponteiros trocados e devemos improvisar-lhe um sentido alternativo, não me venha falar de "maneira de ser". Do que você continua à pesca é de uma licença para moer o juízo alheio, em nome de sua majestade o mau feitio.

   Por causa da “maneira de ser” muita falha desapareceu impune, muito encontrão passou a desequilíbrio, muita má vontade foi desconsiderada. É um crédito que acaba, inevitavelmente, mal parado. Um cheque em branco para um apuro de maus modos.

   Usada como justificação, a "maneira de ser" desarma. No que diz respeito a tratamento de terceiros, é uma espécie de "mãos ao alto" que daqui ninguém sai vivo ou será bruscamente descarteirado, profetizado com exuberância de vuvuzela.

 

E na recusa tímida do perdão contestam-nos, desacreditando-nos as intenções.

   Definida, assim, a “maneira de ser” faz vista grossa ao outro. Ou, pelo menos, olha para o lado.

Se preferirem a imagem náutica, é um "perigo a estibordo" e atenção que a bombordo, também, não está famoso.

   É uma aldrabice. Não é feitio, é defeito. Intransigência. É coisa de mitra ao ataque, saqueando como se não houvesse amanhã. 

   Não compensa agravos e é, inadvertidamente, uma porta escancarada para o disparate. Leva a tricas de Caim e Abel. Kramer contra Kramer. Kardashian invejando kardashian. E é sabido como é que tudo vai acabar!

   A “maneira de ser” é como uma promoção que nos saiu cara. É um paliativo para quem sofre as passas do Algarve com alguém que tem o seu feitiozinho.  Um tranquilizador de ânimos em automático. 

Não passa de uma escusa esfarrapada. Uma justificação. E por causa dela há quem leve a sua avante, devido ao seu préstimo generalista: para exigir perdão, pedir compreensão, para se entender a falta de paciência, o atraso, a antipatia pela Nini do Paulo de Carvalho, pelos iogurtes que acumulam sempre menos pedaços do que pretendíamos ou quando reagimos mal por nos desejarem os bons dias e já ser chegada a tarde.

Além do mais, indulta. Se houvesse justiça não funcionava.

   Se a "maneira de ser" é isso, comigo não contam. Não saio convencido e desencorajo tentarem fazer-me o ninho atrás da orelha.

   Podia fazer mais por nós, deixa-nos em apertos. Só vai até onde lhe apetece e deixa o resto em standby. Prefiro a contracorrente. Vou ali e já venho!

  Se não tem outra serventia, para mim é mais um põe-te a milhas. Grito: “Vá de retro satanás!”. E dou-lhe o número da besta com uns pozinhos: 666666666. Cuspo-lhe no focinho como ao demo. Ou é índole ou carácter ou não dou guarida. Não protejo galarós nem pãezinhos sem sal acabados de desculpar!

   Não se deve abusar, atropelar, prevaricar ou usar indevidamente a "maneira de ser". Ela não é para isso. E o que é, então?

A "maneira de ser" é o lado para que se tomba.

É como se pensa, como se faz, como se diz.

São os jeitos. E o ser.

É o para que se dá. Os predicados do sujeito.

Como se enfrenta e como se relaciona.

Também é como se ama, está bom de ver.

É aquilo a que não se pode fugir.

Pode muito bem ser aquilo para que se nasce.

É a razão para ser mais ou menos calado, alegre em vez de triste, galanteador, desconcertante ou antipático, chico esperto ou coninhas. Ter paleio para catorze ou ser incapaz de dizer o que pensa. Gostar mais do escuro ou do colorido. Ser reservado ou estouvado.

   É muita coisa. E, essencialmente, somos nós.

Tudo o resto é falta de personalidade.

 

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publicado por Máquina-da-Preguiça às 20:27





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