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III Pausa para café?

Terça-feira, 04.09.12

I have measured out my life with coffee spoons.

T. S. Eliot

 

I like cappuccino, actually. But even a bad cup of coffee is better than no coffee at all.

David Lynch

 


Coffee and Cigarettes é o título de três curtas-metragens e um filme de 2003 de Jim Jarmusch. Este último é constituído por um conjunto de 11 short stories e inclui, ainda, as três curtas iniciais. Pode ser, fácil e fidedignamente, sintetizado na constatação proferida por Iggy Pop durante uma das suas cenas:

Cigarettes and coffee, man, that's a combination.


O filme ajuda a justificar a opção, que pode parecer estranha ou até despropositada, de escrever uma crónica inteira a propósito do café. Em todo o caso, a juntar a isso posso afirmar que a minha vida não seria a mesma sem café ao Domingo de manhã e isso compensa o risco. Mas isso explicarei adiante.

De qualquer maneira, nesta altura, posso garantir que revoluções inteiras foram preparadas em cafés. Esboços passaram a obras-primas, guardanapos foram usados para conjecturar novelas e longas-metragens. E, a maior parte, começou com uma pergunta simples: "Queres ir tomar café?".

   "Queres ir tomar café?" é provavelmente o convite mais repetido em todo o mundo. Não é original, mas serve perfeitamente. Justifica tardes inteiras e entra pela noite dentro.

   Comecemos pelo café, propriamente dito…  Podemos chamar-lhe café, bica, cimbalinocoffee, Kaffee, koffie, caffè, kaffe, kahwah ou cahue que vai tudo dar no mesmo. 

Não conhecer a classificação Coffea arabica oferecida pelo naturalista Lineu não exclui saber degustá-lo. Nem desconhecer vocabulário gravitando em torno de grãos, plantações, máquinas e moinhos de café, como coffee break, coffee maker, coffee table ou coffee-table book. 

   Pode-se apreciá-lo com moderação ou beber demasiado. Usá-lo para justificar mais um cigarro. Temê-lo por causa das insónias. Tê-lo por perto para preparar, madrugada dentro, o exame final. Jurar que ataca os nervos. Afirmar que de manhã não se funciona sem ele. Querê-lo cheio, curto, em chávena escaldada, pingado, com cheirinho... Habituarmo-nos até a conviver com os que preferem chá.

Mas, acima de tudo, foi um dia feliz quando a humanidade alcançou o café instantâneo. Uma hora H ou um dia D.

   Confesso que escrevi este  post enquanto tomava café, o que demonstra o quanto é evidente a sua importância. Olhando em volta com gente mergulhando em jornais, ao telemóvel, escrevendo, consultando documentos pergunto-me: "Pausa para café?". 

Um café finaliza, mas também acompanha: o cigarro, o brandy, os nossos pensamentos, a nossa solidão... Um café ajuda a procrastinar. Dá azo.

   Sei do que falo (chegamos, finalmente, à explicação). Há dez anos e duas filhas atrás costumava encontrar-me "casualmente", num pequeno café, sem vivalma ao Domingo de manhã com alguém com quem partilhava estremunhado as peripécias do Sábado à noite e do resto das agruras semanais. Tempo parado e café duplo revitalizante à minha frente. Durante esse período continuei simulando encontros espontâneos e acidentais e a aparecer "casualmente" ao Domingo de manhã no café num horário terrivelmente madrugador com o pretexto de ter ido tomar café. 

Casamento foi o resultado desses cafés matinais. Até hoje.

Desengane-se quem aposta na Internet como local privilegiado para o romance, o meu conselho é o, nunca fora de moda, café do quarteirão onde moramos.

  Ora, o que o exemplo prova é que tomar café é um pretexto para uma série de coisas: para parar, para sair de casa, conversar, ver gente, uma oportunidade para espairecer. Mas também para fazer uma declaração de amor, trabalhar, um convite à reflexão, fechar contratos. Vai para lá do que cabe na chávena. Tomam-se notas, lançam-se olhares, escutam-se e observam-se os outros. Rodeado de artistas, intelectuais, apaixonados, pelo homem comum. Em espírito de tertúlia, reunião de negócios, encontro amoroso, de quem não tem dinheiro para mais ou que faz tempo para alguma coisa. É a saída mais barata.

E isso pode ser feito tanto num boteco simpático de São Paulo, num snack-bar da avenida da Liberdade, na esplanada da Pastelaria Suíça, n'A Brasileira do Chiado, numa qualquer coffee shop de Amesterdão ou num bistrô em decoração Belle Époque  francês. No Le Procope parisiense que por cá anda desde 1686, epicentro do Iluminismo francês e abrigo de Voltaire, Rousseau e Diderot  e berço da Encyclopédie ou na Rua Santa Catarina, no portuense Majestic, como Teixeira de Pascoaes, José Régio, António Nobre, Leonardo Coimbra.

Café, há em todo o lado. Serve-se tanto a muitos pés de altitude como no meio do oceano. 

É democrático, sinónimo de liberdade, não interdita.

   Perigos? 

Como se pode constatar pelo já dito, um café nem sempre é só um café. É, sem dúvida, a desculpa perfeita, o que o torna perigosíssimo.

  Um café empolga-nos, liberta-nos, dá-nos tempo, serve como pretexto, iliba-nos, tira-nos da rua, do que estávamos a fazer, das preocupações, dá-nos conversa.

É preciso dizer mais?

Serve-nos de companhia e tem a vantagem de não ter pompa nem circunstância.

  Vantagens? 

As mesmas que os riscos e o facto de saber bem, mais servir-nos de companhia, ser credível ao ponto de não ser mal-intencionado e soar melhor do que convidar para jantar ou ir dar um pezinho de dança. Para não falar de que não embaraça como uma ida à praia. No fundo, com ele, ninguém se mete em apertos.

Também não inibe, não obriga, não exige roupa a condizer, não é preciso saber estar e dá sempre para pagar os dois.

  Tomar café é gozar o ambiente e fazer parte dele. Desconsidera-se o prático, o ter que ir de propósito, a desproporção entre o que custa e a quantidade que se recebe.

Com sorte pode mudar a nossa vida, posso garanti-lo.

  Vou ter que ficar por aqui porque não há serviço às mesas e tenho de ir arranjar um copo de água para beber no final do meu abatanado.

Quando voltar quero olhar, novamente, para as minhas anotações e nada me daria maior satisfação do que contar com a sua opinião.

Os cafés são por minha conta!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:30





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