Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



III Eu desiludo-te, tu desiludes-me, ele desilude-me

Sexta-feira, 12.07.13

Há a espinha que se atravessa, o doce que se amarga, a oportunidade que não se aproveita, aquilo que nos escapa, a insensibilidade de quem não cabe em si de importante, a dor de cotovelo, o atraso, o pacto que se quebrou, a negociação que ficou a meio, a sensação de que, afinal, não se conhecia assim tão bem. Amizades que se esfumam, amores que se trocam, livros que não sobrevivem às primeiras páginas, filmes que não chegam aos créditos finais.

Capítulos vitais inteiros preenchidos com o desconforto de uma personagem secundária que morre logo no início da história. De quem não foi convidado para a festa. Sofrendo do embaraço de quem está na cadeira do cabeleireiro e verifica, olhando em volta, que tem o pior penteado do salão.

Com a motivação de quem está no dentista e sente necessidade de justificar que reconhece que devia ter vindo mais cedo. Até ao fim.

Desilusões. Escabrosas, lamentáveis, mortais, definitivas, dignas de dó, sem misericórdia, apelo ou agravo ou penosas. Vividas em complemento directo ou indirecto, na primeira, segunda ou terceira pessoas.

  A desilusão põe um ponto final no optimismo e na esperança. Põe travão no nosso empenho e confiança, ganha embalagem na falta de sorte, cruza-se com o insucesso e acaba-nos com a vontade de fazer planos e nos lançarmos no desconhecido.

Ficar desiludido é uma realidade imensamente conhecida que fica, como é do conhecimento geral, no virar da esquina. 

É ir além do desejável, ficar aquém do desejado e nos antípodas do que queríamos.

É uma palavra que volta atrás, uma promessa que fica por cumprir, um contrato que fica por honrar.

   A desilusão é a nódoa que cai no melhor pano. A expectativa que se gorou. As pernas faltando na reta final. O título fugindo no último minuto. Um pitéu excessivamente salgado. Uma bebida demasiado  aguada. Atendendo à época, um sol que pouco dura, uma bandeira amarela num dia de calor ou um escaldão num dia perfeito de praia. Se preferir, uma bolha no fim do passeio. 

É, também, o produto que não é bem aquilo que parecia no folheto. É chegar quando já não há para nós... 

  As desilusões são tantas que bem se podem identificar como constante ou uma variável omnipresente.

Desiludem-nos os governos, o nosso saldo bancário, a filiação partidária do nosso escritor favorito, a meteorologia, a nossa resistência para chegar à meta, a quantidade de calorias da nossa sobremesa favorita, a estratégia da nossa equipa que valeu pontos preciosos para o campeonato, as paixões que deixaram de ser arrebatadoras, os amigos e nós mesmos.

Estamos constantemente a centímetros da nossa altura ideal. A um voto da eleição. Ultrapassando em quilos o nosso peso. Amores que se tornam desamores. Promoções tentadoras em época de contenção.

Neurónios preguiçosos para o que nos propomos. Espírito com pouca liderança. 

   Vamos abrindo caminho, desilusão  aqui, desilusão ali. Alimentando-nos de fantasias. Sonhos sobrando. Ambições por um fio. A contas com o descrédito e a crítica. Paredes meias com a derrota. Mortificados. Desiludidos.

Em relação à desilusão, o melhor é não nos iludirmos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos M. J. Alves às 17:25





arquivos

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D





pesquisar

Pesquisar no Blog  




comentários recentes

  • numadeletra

    Dramas balneares :-)

  • Maria

    Que delícia!!!

  • Sandra

    :) Se descobrires como se treina esse optimismo , ...

  • LWillow

    Dietas 'é uma coisa que não me assiste' e assim s...

  • LWillow

    http://www.youtube.com/watch?v=BV-dOF7yFTw

  • LWillow

    ehehehe! 'tamos nessa' 'brother' ! Mais um bom tex...

  • LWillow

    Thanks ! this reading was a pleasure !

  • Anónimo

    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

  • Lwillow

    Ora aqui está mais uma 'pérola para porcos' ! O mo...

  • LWillow

    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...