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III Pãezinhos sem sal e croissants

Terça-feira, 23.10.12

O que não faltam para aí são pãezinhos sem sal. Bonitinhos, quadrados e arranjadinhos, passeando-se  insonsos e peneirentos, sem um cabelo fora de sítio, por entre os madraços.

Anjinhos papudos, que nunca aparecem amarrotados, com caras de enjoo e o resto. 

Destacam-se, topam-se, sobressaem. Pelo modo, pelos ares. Dá-se, facilmente, por eles: desvalorizam, rejeitam, negam, bamboleiam-se. 

Dá, imediatamente, vontade de lhes fazer mal, abanar, azucrinar, enfiar um dedo no nariz, tirar do sério, borrar ou, pelo menos, fazer estalar a pintura. Obrigá-los a passar para o lado obscuro da força ou transformá-los em diabinhos, tirando-os do caminho do Senhor. 

É impossível ficar-lhes indiferente. Após o contacto (mesmo que ligeiro) consigo, entra-se em  warp speed e atinge-se num nano-segundo os rigores de um inverno aziado. Complicam com o sistema nervoso. Estão, aparentemente, bem por dentro mas, a morrer por fora.

   Ao contrário do chico-esperto, o pãozinho sem sal faz-se de parvo. Põe cara de "Quem, eu?". De “Não estou para isto!”

Arranca o pelo da venta e é cumpridor, não hostiliza, não se atreve e é, aparentemente, conciliador, diplomático. Mas isso pode ser um engano!

Em relação a ele, fica-se sempre com a ideia de que não vai dar para o peditório. Põe-nos a baixar as guardas, convencidos de que não é concorrência séria e catrapimba, apanha-nos na curva. 

   Não gosto de   pãezinhos  sem sal. Crescem como os outros, aproveitando-se das humidades alheias mas, às vezes, não passam de uma carcaça. Nem vale a pena passar-lhes manteiga, quanto mais pensar em marmelada.

Dão-me seca. Desidrato, rapidamente. Um Sáara de média dimensão desponta, subitamente, debaixo dos meus pés.

Põem um ar desinteressado. Olham de soslaio. Disfarçam. Fazem de conta e são dissimulados, fingidos, sonsos. Por fora parecem uma coisa, mas por dentro são outra. Avozinha  versus lobo mau. Uma Cruella de Vil  perdida de amores por latidos tenrinhos.   Uma freira sem hábito. Percebem a ideia, certo? Aparentemente não são frescos mas... se no melhor pano cai a nódoa, eles são um terylene disponível e sempre pronto.

   Um pãozinho sem sal não contribui. Desdenha. Não se compromete e parece bonzinho. Pisca o olho à direita, acena à esquerda e mantém amizade com o centro.

Pode ser uma Maria-vai-com-as-outras mas, nem sempre. Parece que nos dá razão, mas faz as coisas à sua maneira e, por isso, acaba como figurão.

Dá com uma mão e tira com a outra.

Quer que toda a gente goste dele, mas a maior parte das vezes está-se nas tintas, vivendo de aparências.

   Os pãezinhos  sem sal  não têm idade. Começam no infantário, enfastiados com a cor da chucha e acabam no centro de dia desconfiando da organização do bingo semanal.

   Dizem que não fazem, mas já fizeram, que não querem e já quiseram. Fazem-se caros e ficam à espera de troco.

Fingem que não lhes apetece, mas são sempre os primeiros.

Convencem-nos de que são inibidos, sendo traiçoeiros e falsamente hesitantes.

Fazem-se amigos do amigo.

Ficam-nos, “desinteressados”, com os filhos à sexta-feira à noite.

Aparentam estar perdidos, mas sabem, perfeitamente, para onde vão.

Requerem atenção redobrada, porquanto acabam tricotando casaquinhos com as nossas peles.

   Um pãozinho sem sal é daqueles que se incomoda rapidamente. Apesar de ter facilidade em concordar. Tem peneiras. Manias. Não se mistura.

Aborrece-se. Dá-se bem com pessoas-que-parece-que-não-partem-um-prato e indivíduos de sorriso amarelo.

Um pãozinho sem sal sofre de uma filoxera que o torna enjoativo.

   Os pãezinhos sem sal enervam, tiram do sério. São Cuchi Cuchi Cuchi. 

Uma desilusão: fazem sempre amor e nunca sexo, não vão além do Ginger Ale, não tossem, pigarreiam, não falam, sussurram (pianinho), não dizem palavrões, não têm gases, não arrotam, nem têm borbulhas.

São consensuais.

Não se enfurecem, não se irritam, apoquentam-se.

Têm ideias fixas e impõem limites.

    Os pãezinhos sem sal, as pessoas-que-parece-que-não-partem-um-prato e os indivíduos de sorriso amarelo são de um mundo à parte. Despoluído. Livre de altercações.

São exclusivos. Os mais perfeitos seres humanos. Têm numeração própria, não ultrapassando as 100 unidades.

    Prefiro gente desinibida, desenvergonhada, género Girls just wanna have fun, tipo Good Girls Go to Heaven, bad girls go everywere ou Live fast, die young and leave a nice corpse.

Que é como quem diz, em relação aos pãezinhos sem sal eu é mais croissants.

Já se sabe ao que se vai.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 19:04

III A conversa de chacha

Sexta-feira, 19.10.12

Quem não sentiu já os seus efeitos? Dispensa apresentações e é impossível escapar-lhe. Consideramo-la agitadora, mas não desafia, propriamente. É mais de entreter.

Diz sem dizer. Faz de conta. É circunstancial.

Não tem tema principal ou único: o tempo, aquela jogada, aquele episódio, o político, a novela... isto e outro tanto, servem perfeitamente.

Percebe-se que não é de fiar. Mal começa, deve-se aproveitar para fugir de si a sete pés. Enquanto é possível.  

   Palpites? Não?

Tem tempo certo e altura adequada. Vive de reações. Apercebe-se disso e aproveita-se: das ocasiões, da paciência alheia, de não haver nada de melhor para fazer. Alimenta-se do ar que respira e é um produto dos tempos.

Pressupõe que: ninguém se importa, é o desejável, será uma mais-valia.

E adapta-se. É um réptil com aspirações a mamífero superior.

É predatória, apanha os mais desprevenidos e ataca os mais fragilizados.

   Chega de pistas? Ainda são insuficientes? Continuemos, então.

Forma-se com base em eras de tédio e períodos de solidão. Situa-se na ponta da língua.    

Floresce nos elevadores, velórios, salas de espera, primeiros encontros, situações incómodas, inusitadas, comprometedoras ou confrangedoras e a caminho do bloco operatório para a cirurgia que nos horroriza.

Não marca posição. Surge quando não havia nada para dizer ou quando nem sequer era preciso fazê-lo.

Conta anedotas, faz trocadilhos, perde-se em baboseiras, considerandos e trivialidades. 

Prepara o estômago, faz o aquecimento, abre caminho e embala para uma conversa importante.  

   Já desconfia? Ainda não? Mais pistas? 

Não adianta nada nem acrescenta. É de falar  sem se perceber de quê. É treta. Não diz coisa com coisa. Banaliza, não dá uma para a caixa, não diz nada que se aproveite, algaravia baboseiras e pragueja.

   Então já percebeu do que se trata? A olhar para o título também eu. Mas, se disse conversa de chacha, acertou.

  A conversa de chacha faz comentários de circunstância. Não se percebe o que ela quer. Puxa a interjeição, suscita a concordância, desbarata atenção, não se preocupa com o desenrolar dos acontecimentos, não fraqueja, não desarma nem dá tréguas. É uma espécie de maratonista robusta que termina quando tiver de terminar.

Dela não se tiram lições. Não educa nem cultiva nem se aproveitam informações para decisões vitais ou outras. 

Não serve, portanto, para muito, mas serve para alguma coisa: para desinibir, para pôr de boa disposição, para não estar calado e quebrar o gelo.

   Nela, facilmente, se percebem imprecisões, erros, devaneios, especulações arbitrárias e grosserias. Desrespeita, desgoverna e arrasa a concorrência: a conversa séria. E, por isso, é pouco esclarecedora. 

   Além do mais, a conversa de chacha é espontânea, despreocupada, leviana, evasiva.Também não obedece a regras e não tem pré-requisitos nem exige conhecimentos extraordinários ou experiência prévia. Não fecha portas a ninguém. 

   Em relação à conversa de chacha gosta-se ou desgosta-se. Afinal, serve para ocupar momentos, para matar o tempo, evitar silêncios incómodos.

É mandar bitaites  [com o devido respeito por quem domina a arte].

É epidémica. Alastra numa proporção de um conversador por cada 5 indivíduos à espera do autocarro e um conversador por cada 4, partindo de comboio de Santa Apolónia. 

Pessoalmente desagrada-me. Satura, não há pachorra. Incomoda. Não nos deixa pensar. Acaba com qualquer possibilidade de discussão. É insuportável. E volta sempre ao local do crime. 

Para não falar que, do ponto de vista da comunicação, é um encolher de ombros, um bocejo, um trejeito, um suspiro.

   Por mim a conversa de chacha devia ser expatriada para um país especial: a Chacholândia. Um paraíso para a conversa de chacha onde a coberto de um gosto exagerado por banalidades residiriam, exclusivamente, os apreciadores e os interessados. Todos aqueles que quisessem desfrutar de um diálogo prometedor não teriam aí lugar. Frases começando com "Já viu que...", Nem parece que estamos...", "Já não há remédio para...", Isto cada vez anda pior...", "Repare que..." seriam escutadas em cada esquina.

Enquanto isso não acontece, continua a dita a falar do que sabe e do que não sabe, retirando protagonismo ao pensar no dia de ontem e na morte da bezerra e em altura de nada para fazer ganha adeptos.

Triunfa sobre a falta de interesse e por causa disso envaidece-se. Divaga em toda a sua glória. Exagera. Empola.

   Bem, por falar nisso, e este tempo hã?!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 14:15





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