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III A Máquina da Preguiça

Domingo, 25.03.12

Greed is good. Sex is easy. Youth is forever.

 Bret Easton Ellis, The Informers

 

Partamos do pressuposto que o pecado é uma realidade. Uma certeza como os vampiros de Stephenie Meyer em Twlight e nas séries da FOX. Podemos dizer em relação a eles que: a ira nos estrangula a tensão arterial, a inveja nos vai secando, o orgulho isola-nos, a gula ataca-nos o colesterol e diabetes, a avareza corrói-nos. Mas a preguiça… a preguiça é o menor dos pecados. Inteiramente desculpável.

Semi-opcional. Podemos dizer: «hoje não me apetece fazer nada» e ser admissível. Uma fase. Uma anomalia. Temporária. Disfarçável. Um hobby (uma preguiça com objectivos) serve perfeitamente para procrastinar e faculta uma desculpa para não nos dedicarmos a coisas mais importantes.

    Orgulho, luxúria, gula… possuem seriedade e respeitabilidade superiores.

   A maior ameaça ao pecado para além da moderação é a idade. Com ela limitam-se as opções. Percebemos que estamos velhos quando começamos a ficar preguiçosos. O que nos resta.

   Num mundo de empreendedores a preguiça é um luxo. Tirando isso… não se pode comparar com a gula, por exemplo. Ter dificuldade em levantar-se não se compara com merendar quatro tobleron gigantescos sem intervalo e ficar com uma fraqueza. Não se pode equiparar a luxúria à balda a uma aula ao tempo terminal ou de um trabalho de casa.

   A preguiça é o mais maneirinho dos pecados. Não compromete. À partida pode nem implicar terceiros. Não prejudica ninguém a não ser o próprio. A preguiça devia ser considerada um não-pecado. Uma escusa à virtude, na melhor das hipóteses. A preguiça liberta-nos do hedonismo. Mais vale sermos virtuosos. Somos um Dexter domesticado. Um tareco à trela e a Whiskas.

   Um pecado exige soberba. Menos que isso é nada. Não existe a não ser noutra dimensão (na Twilight Zone e com a condescendência de Rod Serling).

   A preguiça tem uma característica amigável, pacífica, não algo de que se foge como o diabo da cruz. Como a ira que nos recruta para a hipertensão.

  A preguiça repousa-nos. Amansa-nos. Poderemos imaginar-nos lobos, mas não ultrapassamos o cordeiro manso. Não acrescenta peso (ou menos do que a gula), nem ritmo cardíaco. O único risco em relação aos preguiçosos é o de morrer à sede. Mas isso é um mal menor.

É o único pecado que nos dilata a longevidade. O preguiçoso não se apoquenta. Não se esforça. Não cai em exageros. Com a preguiça fica-se Zen.

Com a preguiça vamos ao tapete. Dispensa testosterona. Até porque pode ser, somente, um mandriar.

Só exige paciência. De Job.

É o mais burguês dos pecados. Uma chatice.

     Salvé dias de luxúria. Ó desejada vaidade. Abnegai-vos na ira. Sede servis com o orgulho.

Devemos desconfiar dos preguiçosos e admirar os glutões. Venerar os que passam a vida irados e envoltos em vaidade. Os que vivem para a luxúria.

    Era o que eu faria se não fosse a idade. Mas, não vale a pena propormo-nos correr a maratona quando só nos resta pernas para 100 metros. Não se pode aspirar a actividades radicais quando só conseguimos estar à altura dos jogos de tabuleiro. Que é como quem diz: temos os olhos postos na luxúria mas, a partir de certa altura, sobeja-nos a preguiça. Sonhamos com os prazeres da carne mas não vamos além de um acordar domingueiro, sonolento e espreguiçado de braços abertos, de par em par, como cristo redentor: preguiçosamente. Os demais pecados são para os mais novos. Passa a ser uma questão de saúde e não teológica. Os dias de luxúria e gula são uma saudade. O que continua em vontade falta-nos em corpo. Por falhas várias na manutenção. Ninguém pode ser glutão se tem problemas com açúcares e gorduras. Apesar de ser um descafeinado vale-nos a preguiça.

E se houver uma máquina…

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publicado por Carlos M. J. Alves às 17:52





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