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III Ódios de estimação

Quarta-feira, 30.10.13

Antipatizo com ódios de estimação. Não nos dão descanso. Controlam-nos. Seguem-nos fiéis e incansáveis, de soslaio, para todo o lado e atraiçoam-nos na primeira oportunidade. 

   Calculo que toda a gente os tenha, mas arrependo-me como se sentisse o aperto de uma contrição infligida pela minha consciência pesada agonizando, num abraço com o ímpeto de uma anaconda adulta voraz.

   Não chego à penitência e tento não amar o próximo com que me cruzar, mas fico a desejar ter uma natureza vetusta de santo misericordioso, com infinita capacidade de Madre Teresa para perdoar e aceitar as coisas como são (imperfeitas e por vezes abjectas e de mau gosto).

   Infelizmente, peco e acabo sempre voluntariamente a arremessar, violentamente, a primeira pedra, sorrindo comovido ao vê-la planar sobre as minhas vítimas preferidas até as estilhaçar, irremediavelmente, num golpe certeiro letal que só o granito crítico é capaz de proporcionar.

   Gostava de ter um gosto eclético menos lancinante, um palato pouco exigente com os sabores, uma visão com pouca acuidade, fazendo vista grossa ao que a rodeia, uma inteligência analiticamente pouco espontânea e distraída.

   Percebo que os ódios de estimação são contraproducentes, impopulares, fonte de embaraço e de inimizades. Precisam de ser alimentados como Chihuahuas frágeis e esfomeadas. Lembrados, num canal memória com programação própria e contínua, para não caírem no esquecimento. Justificados num julgamento constante, num tribunal sem processos pendentes. Uma canseira!

   Não há dúvidas de que tenho uns quantos ódios de estimação. Bastantes, admito. Que só eu cá sei. Mais outros que são do conhecimento geral. 

  Gostava de encontrar em mim motivação de aspirante ambicioso a Masterchef para os perder. Mas não sigo correctamente a receita. Fico a várias caramelizações aquém de o conseguir. Tiro do forno antes de tempo. 

   Infelizmente tenho a mesma pressa em perder ódios de estimação do que na entrega da declaração de IRS e a mesma capacidade para fazer isso acontecer do que em desfazer-me de jornais e revistas criando pó. Acumulo.

Provavelmente afeiçoei-me.

Pensei começar pelos mais pequenos. Fasquia bem em baixo. Abdicar, lentamente, de meia dúzia de autores e compositores odiosos. Perdoar cores exuberantes. Para depois continuar por aí acima até governos inteiros fracassados e tops inteiros com sucessos improváveis.

Passadas pequenas, mas firmes, em cortejo corajoso, numa complicada estrada até Damasco com sinistralidade de IC perigoso em que, habitualmente, corto a direito ou esbarro atacando a curva como contracurva.

Nem assim!

   Não é fácil perder o hábito. Custa mais do que arranjar lugar em transportes alternativos em dia de greve geral. É mais fácil arranjar ódios de estimação do que perdê-los, acrescentá-los a uma lista implacável já extensa do que vermo-nos livres deles. Como se desbaratássemos preciosidades a preço de bric-à-brac. Com remorsos de quem se desfaz das joias de família.

   Facilmente nos empenhamos em arranjar espaço para mais uns quantos, como quem encafua mais gente na lotação já esgotada de um Mini. Antevemos dificuldades de que quem não encontra lugar na gaveta para as meias novas e desistimos.

   Consciente dos riscos, resolvi jogar pelo seguro. Não faço promessas nem juras que acabam em desilusão. Não me quero transformar num executivo delapidando paciência do erário público. Acrescentando juros ao tempo já perdido, enquanto alimenta ilusões. Compromissos ficando pelo caminho íngreme, numa Falperra de uma vida em que nos esgotamos ainda a meio da rampa.

   Sinto que começam a desistir de mim. Desinvestiram em mim. Exonerado prematuramente. O tempo urge.

Tentarei arranjar motivação de Masterchef para os demover.

Entretanto, nos próximos anos cooperarei, convicto, ainda assim, de que será mais fácil mudar o eixo magnético da Terra do que atingir o que pretendo.

Até porque em relação a ódios de estimação, sinto que ainda não estou no ponto.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 19:11

III Nails & Snails

Quinta-feira, 24.10.13

Na constante colonização de costumes a que estamos expostos e que tem para a maioria o mesmo grau de atração do que a luz para a traça, o caso das unhas de gel é um fenómeno de proporções bíblicas e contornos frankenstinianos. Uma eventual forma de vingança da costela que a mulher tem atravessada há séculos. 

    Confesso que ando há anos abaixo da média nacional para unhas. A considerada normal. Para homem, claro está. Talvez por isso tenho-me mantido em pleno alerta vermelho contínuo, olhos postos num farol de bom senso que me afasta das traiçoeiras águas do ridículo. 

   As actuais dimensões, originadas num qualquer Pesadelo em Elm Street, (confrangedoras para o ascetismo mais milenar) que as unhas têm atingido entre nós, faz-nos satélites de um escalão sénior de superpotência e linha avançada na estatura global. 

A nossa posição indisputada só é questionada pelo Brasil (berçário invicto das unhas de gel) onde o hábito tem importância de filosofia de vida.

    Longe vão os dias em que as unhas eram, exclusivamente, fonte de distracção votadas a mordomias de roedores humanos empenhados no seu corte até ao sabugo como castores desvairados.

    Onde tudo começa?

Na inveja de Cleopatras seguidoras das novas tendências que via mirone cobiçam a cutícula estrangeira.

   Numa fase posterior, pequeno passo para a humanidade mas grande para o neófito das unhas de gel, em que as opções mais controversas já foram efectuadas - cores, design em filigrana, stencil vanguardista, proporções generosas de lâmina de Sandokan e aplicação da capa gelatinosa - segue-se a adaptação às próteses afiadas.

   Segue-se a conclusão de que nada será como dantes: atar atacadores, tirar o passe social ou uma fatia de fiambre, procurar um contacto na lista de endereços do telemóvel…  e a inevitabilidade de que é nos detalhes que as coisas se complicam, num emaranhado inconciliável entre a prática e a estética.

   Manter-se em glória no panteão dos imortais exige esforço e dedicação, somando-se gastos equivalentes a um périplo pela Escandinávia, resolução de problemas mecânicos de delicadeza aeronáutica e atenção permanente e premente no que à manutenção diz respeito - retoques, substituições, decapamentos - corolário de desprendimentos, infiltrações e acidentes envolvendo terceiros, até atingir a harmonia perdida.

   Anseio por um tempo primordial onde tudo volte à normalidade. Unhas sendo unhas. Aberrações erradicadas para as entranhas da terra ou espaço sideral. Que se organize um poderosíssimo exorcismo ou fogueiras em que acabem derretendo em banho-maria no calor das labaredas do Hades do mau gosto.  

Mas, entretanto, no actual estado das coisas, a minha grande dúvida é: 

     Como é que se comem os caracóis?

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publicado por Carlos M. J. Alves às 19:25

III Domingos de Apocalipse

Domingo, 03.03.13

Ao Domingo, durante a tarde, não estou para ninguém. Durante a manhã entrego-me a uma actividade física restrita que me permite concluir que realmente a forma física já não mora aqui. Corro até à banca de jornais mais próxima e só dou o exercício por terminado quando a entrega do testemunho jornalístico me é feita em condições e a meta é uma evidência.

   Ao almoço acamo, com saladas, o estômago para o ambiente de desgraça e/ou extinção da humanidade que se avizinha, mas à tarde, desligo telemóveis, fico off line, simulo febres e contágios de vírus mortais  e escondo-me para combater insistências porta a porta.

    Testo a minha invisibilidade e vou até à janela, enceno o meu desaparecimento e, por volta dos cafés, enterro-me no sofá até à iris que se transforma em periscópio, guardo lugar na sessão da  tarde e fico solidário com um qualquer Apocalipse da televisão pública ou da concorrência que acabe pela hora de jantar.

    Ao Domingo a humanidade precisa de mim. Estabeleço alianças, livro-me de envenenamentos e faço voluntariamente parte do exército de salvação do mundo. Armamento poderosíssimo à base de lasers, satélites espiões, misseis Stinger, mecanismos telecomandados, canetas dinamitáveis, submarinos disfarçados e helicópteros portáteis ao serviço de soldados universais bem preparados, lutando pela sobrevivência de democracias até ao último bastião do mundo livre, capazes de derrotar mercenários a soldo de ditaduras cruéis. 

   Até hoje passei honrosamente à reserva e fico a observar da poltrona os EUA salvando pela enésima vez o mundo, enquanto 007 numa qualquer operação tentáculo se aplica na única parte do globo a que os americanos não conseguem chegar a tempo.

   Também não desdenho psicopatas terríficos, meteoritos a entrar mortíferos na atmosfera, desabamentos fulminantes, incêndios ardendo como um fogo eterno e inundações copiosas de última hora.

   No inverno aqueço-me com cidreira e lúcia-lima e alguma tisana, eventualmente, mais exótica. Mas, ao fim da tarde, alinho num gin que tónico baixa mais agradavelmente e tem uma entrada facilitada em ambiente gástrico com a assistência da gravidade. Entre o ponto i de início e f de fim fica um espaço ocupado por banquetes diversificados de rissóis, pastéis de bacalhau e massa tenra e sandes várias. 

   Durante esse tempo em que ocupo o meu tempo livre dominical a fazer com que a espécie humana escape à justa de um fim iminente, alimento conspirações, faço anti-jogo e torço pelo inimigo público nº1. O meu envolvimento domingueiro deixa perceber que, também, simpatizo com explosões, maldições com 300.000 anos, invasões alienígenas, salvamentos arriscados, resgates, hecatombes e cataclismos naturais.

  Ao Domingo empolgo-me, luto pela independência de nações, tomo partido, assusto-me e entusiasmado grito alto as contagens decrescentes próprias de um fim do mundo: 10, 9,8, 7, 6...

  Bem, às 16.20 temos Roger Moore na RTP1. Não há tempo a perder. Durante, mais ou menos 120 minutos mais intervalos, também eu, estou ao serviço de sua Majestade, com licença para matar e apto para tirar de apuros donzelas indefesas.

Está quase na hora: 10, 9,8, 7, 6...

Quando me deitar posso dormir descansado porque o meu contributo para que o mundo como o conhecemos prosseguisse o seu rumo foi inestimável. E, sabendo isto, ponho as coisas em perspectiva, arranjo coragem e as almofadas, dou uma dentada num rissol de camarão e preparo-me para enfrentar o último reduto das forças beligerantes até poder entrar com Roger Moore num bar de hotel e beber consigo um dry Martini.

Há que aproveitar porque sei que a um Domingo de Apocalipse se segue sempre uma segunda-feira de inferno.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 14:19

III No futuro todos seremos bonitos

Segunda-feira, 14.01.13

Para a dona Perpétua que em relação a estética sempre esteve à frente de Kant.

 

 

Em dia de enfartamentos próprios das náuseas, derivadas dos exageros, não há trapo ou elogio que compense os estragos feitos na carcaça. Nesses dias lembro-me, invariavelmente, da dona Perpétua. 

     A ficção é pouco certa no que diz respeito a verdades, mas posso jurar que de tempos em que achava que tivessem sido outras as condições e eu me distinguiria da classe operária ao ponto de ocupar, com destaque, o lugar de McCartney nos Fab Four, das minhas vizinhas - tão certeiras nos vaticínios como na aposta ganha de estender roupa em dias de chuva iminente veio a promessa:

 

"Vai deixar muitas sem ceia!"

 

Para efeitos de exactidão narrativa foi com a mais velha - dona Perpétua - com mais de pitonisa do que as outras e algures entre os treze e os catorze ou pelo menos recém-chegado à adolescência que surgiu a aposta. Suscitada pelo vislumbre do meu corpo franzino, com tufos de pêlo insuficientes na cara para  ter barba cerrada. 

     Dona Perpétua que de proprietária só tinha a largueza pública das ruas era mulher de olhar certeiro e insidioso o que me levou a considerar o que afirmara. Suacelência Miss Moneypenny dona Perpétua, olhando com deferência para os meus contornos, arredondando onde era preciso e concedendo vértice onde ele fazia falta embelezou onde carecia a minha silhueta, em acne perfeito, em ângulo insidioso de estéticas favorecedoras e fez despontar em mim - a seus olhos em reação anafiláctica míope - um semblante de anjo da capela sistina e corpo voluptuoso de Adónis. Uma figura alienígena inexistente e esbelta chegada de fresco da nave mãe.

     No entanto, suacelência Miss Moneypenny dona Perpétua, falhou. Talvez por a beleza poder ser subjectiva, relativa, exótica... O futuro não exigiu convites apressados a artistas solidários com a luta contra a fome no mundo, provocada pela minha beleza estonteante e nenhum Live Aid extra foi organizado por minha causa. As vítimas não se contaram às centenas e a probabilidade de isso acontecer é equivalente à de Courtney Love se tornar uma dona de casa prendada e entusiasta dos lavores. Ninguém ficou sem ceia, por minha causa.

     Obviamente que a explicação para a aposta das minhas vizinhas se encontrava no seu passado áureo (que replicavam em mim) repleto de êxitos ao nível da sua capacidade ímpar para dançar (bailar será o termo mais aproximado) dignos de um Bolshoi e a sua beleza inebriante (desmentida pelas fotografias da época, ainda, em circulação).

     O passado das minhas vizinhas turvado pelo futuro que se lhe seguiu catapultava-as para a fama de belas Helenas (Como habitualmente acontece!), com pretendentes embeiçados em múltiplos portos por si nunca pisados  e rainhas da pista de dança em tabuados de clube recreativo de aldeia, partilhando um único poste de electricidade. Como elas também eu seria belo e dotado para os boleros.

     Parece que ainda a estou a ver dona Perpétua à janela a dizer adeus a quem passa. E eu a olhar para ela com ares de Humphrey Bogart a caminho do nono ano, de respiração presa para enfolar o peito. Uma estampa hollywoodesca nascida e criada lá na rua.

     Claro que acabamos por perceber primeiro que a beleza está nos olhos de quem vê e não em pormenores de simetria, harmonia, luz ou ângulos. Blá, blá, blá... E segundo que, mesmo mergulhado num escafandro mal enjorcado ou com a costura do umbigo proeminente, todos temos uma hora de sorte. Mesmo para aqueles que nunca vivam a Vida Loca ou nunca passem o tempo a comer ostras, acabando afrodisiacamente activados para o que der e vier.

A dona Perpétua sempre teve razão. No futuro, mesmo discordando no que diz respeito a Godard e à quantidade ideal de hidratos de carbono a ingerir, aos olhos de alguém, todos seremos bonitos. Mesmo que ninguém acabe sem ceia. 

     Não tenho dúvidas de que as promessas (mesmo as não concretizadas) do passado dão óptimas ilusões para os dias em que achamos que a idade nos pesa como se andássemos cá desde o primeiro dia em que o homem ganhou polegar oponível. E nos transformámos num ogre com flacidez crescendo até nas pálpebras. Tiram quilos, mudam pneus e desempalidecem consoante as necessidades. Obrigado dona Perpétua.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 14:26

III Salde-se quem puder!

Sábado, 05.01.13

Há alvoroço junto à secção das peúgas, paredes meias com os peúgos aos losangos. A menina-que-está-a-tomar-conta-das-gangas é amorosa e uma óptima embaixadora da boa vontade para os 50% de desconto e leva velocidade de INEM ao chegar ao local. Pergunta, pronta com ares de funcionária do mês:

- Em que posso ajudar?

Ninguém responde e ela ainda mais pronta do que antes riposta, exacerbando calmas:

- Chega para todos!

     Uma correria desenfreada aos trapos despontou logo à abertura. Uns chegam mais bem preparados do que outros. Veem-se listas  nas mãos dos mais metódicos e folhetos sublinhados com escolhas feitas de véspera nos mais organizados. Há quem apareça com orçamento miúdo e quem arrisque a bancarrota se baixar a guarda quando passar perto dos blazers da última colecção.

     Um homem contagiado à última da altura pelo espírito sôfrego do "bom preço", encolhe, à socapa, quinze quilos do abdómen como se fosse o primeiro dia do resto da sua vida, até lhe servirem umas calças de terylene com  desconto de 30% para quem tiver cartão cliente.

     Esgotaram-se os M da campanha das camisolas interiores do corredor do fundo onde estão, também, os soutiens daquela empresa do norte que faliu. O S, também parece que está por um fio. Uma mãe barafusta com a colega da menina-que-está-a-tomar-conta-das-gangas por já não haver o número da sua criança recém-nascida que já anda perto de ter corpo de uma de três. Consta que sai ao pai que está empenhado algures no Centro a conseguir um colete para latagão, sem mangas, para lhe proteger os brônquios cobiçados pela frialdade das noites em que chega tarde, depois dos desafios concorridos de bisca lambida, no café do Antunes, que só não está com ele porque não vai em modas.

     Às treze horas um pelotão pedala enfurecido até ao monte de camisas de flanela axadrezadas.

Vindo das quinze horas o grupo da frente chegou isolado, com um avanço de pelo menos três minutos às bombazines.

     Uma adolescente continua a arfar histérica frente a uma tshirt estampada com a Lady Gaga trajando dezasseis quilos de polpa da alcatra que dança nas mãos vitoriosas de uma concorrente da escola rival que a acabou de agarrar e que está convencida que irá lindamente com uns sapatos de prateleira que estão duas prateleiras a norte. 

     Alguém cortou a curva por dentro ao sair desiludida de perto das caixas dos artigos com defeito e atirou-se aos pullovers de pura lã virgem. Dizem que são tão bons que há quem jure que ainda ouve as ovelhas balindo. 

     A idosa que se agarrou aos collants pretos espanhóis deu um encontrão violento a uma mulher que apanhou a última mala com pele a imitar cascavel e arriscou-se a uma falta perigosa mesmo à entrada da pequena área dos casacos de malha que ficam mesmo na fronteira com a secção da menina-que-está-a-tomar-conta-das-gangas.

     O  hipster de bigode camiliano perdeu a cabeça no corredor dos hooded tops. Aqueles com nomes de universidades americanas e inglesas.

     O namorado da menina-que-está-a-tomar-conta-das-gangas tirou um bocadinho da sua rotina de quem tem que andar de sol a sol ao tostão para a ir buscar e aproveitou para comprar umas camisolas baratas para o trabalho.

    O hipster de bigode camiliano está descontrolado por ter percebido que a camisa axadrezada nº40 que tinha acabado de namorar tem uma mancha que parece tintura de iodo.

    Será que a gula também se aplica às écharpes?  Estou a pensar na minha vizinha, que Deus tenha a sua alminha em descanso, que não falhava a um dia de saldos e que as tinha lindas.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 20:49

III Cartilha para a garantia de sucesso

Segunda-feira, 17.09.12
Lição nº2 - A cunha.


Com ela o sucesso é garantido. Evita [mássurpresas, beneficia, faz cair nas boas graças, serve de rampa, ajuda, troca as voltas para chegar onde se pretende. Uma vez que embora deixe indícios e levante suspeitas, as pistas regra geral são insuficientes, para não restarem dúvidas, vamos chamá-la pelo seu nome verdadeiro: cunha.
   A cunha é uma besta a que mesmo que se corte a cabeça tem enormes probabilidades de sobreviver e, quem sabe, até tornar-se mais forte. 
   Não é de hoje e  move influências como sempre.
A sua [omni]presença é clandestina, invisível, dissimulada. Passa por nós [à nossa frente], desconfia-se, sente-se, pressente-se, insinua-se, desconfia-se de novo e acha-se que foi por causa dela que não se conseguiu, não se foi escolhido ou não se acabou sendo opção. Até porque dela se sente mais os efeitos, uma vez que não aparece à luz do dia e como desmente e nega, nós acabamos sem provas para a desmascarar.
   É um amparo, uma garantia. Também pode ser um empurrão e em qualquer das situações favorece, servindo o próprio e os que lhe são próximos
Senãos? 
Tem consciência de que andamos todos ao mesmo e aproveita-se. Cobra.
É só para alguns: não depende do que se faz, mas de quem se conhece. É dos e para os amigos.
Modo de funcionamento?
Geralmente não se partilha e vive das ocasiões. Nisso é um pouco ladra.
Apela às boas vontades. Põe à frente. Fecha os olhos. Passa para cima sem olhar ao como, quando e  porquê, sempre pronta para mexer uns cordelinhos, dar uma palavrinha ou conceder favores. 
Vota favoravelmente, independentemente das circunstâncias e cria ou arranja maneira de favorecer.
Não vai em habilitações, experiência, méritos, antiguidades ou talentos. Não respeita idade, prioridades ou lugar na fila. Não é preciso provar, estar à altura, ter ou saber fazer. Se der jeito, finge-se daltónica até quando lê o nome das cores. Faz de conta. Valoriza o que tem interesse e olha para o lado se for preciso.
É mais do conhecer alguém e de uma mão lavando a outra. Do favor. Do envelope que se entrega. Conquista pela influência, pela palavra certa ao ouvido interessado em escutar. É um "A quem devo telefonar?", "Com quem devo falar?", "Quem é que eu conheço?", a que do outro lado alguém responde com um "Não se fala mais nisso, não se preocupe!".
Problemas?
Revolta.
É injusta.
Desaponta os bons, os que tinham para dar, os que conseguiriam, os do legítimo lugar.
Em desespero de causa, dá inveja.
  É diversificada e expedita: arranja mesa, emprego, crédito, contactos, vaga, bilhete, entrevista, trabalho.
Uma rameira voluptuosa que se dá, mas quer em troca e se oferece a quem oferecer mais. É duvidosa. Apoia o vento dominante, a tendência, a maioria, quem está por cima, sem comprometer nem arriscar.
   Em suma, em relação à cunha, das duas uma: ou contorna ou é um atalho.
Bem, fim de lição. Não tinha dado conta das horas. Ando cheio de vontade de ir àquele restaurante novo, o... sim, esse. Parece que não é fácil. Lista de espera gigantesca... Modas é o que é! Alguém sabe a quem ligar? Pensei no... sim, esse mesmo. Se alguém consegue isso é ele. Não? Então quem?
Como é? Posso contar com a vossa ajuda? Somos amigos ou não?



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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:22

III Atrasos médicos

Quinta-feira, 06.09.12

"O senhor doutor pede desculpa, mas está atrasado", anunciou a morgada da portaria, ilibando o médico, como quem o salva de uma lapidação sumária, aproveitando uma altercação homeostática súbita que o reteve para lhe legitimar a falta.

"Oooooh!!!", ouve-se em sinal de desilusão colectiva.

"O senhor doutor pede muita desculpa.", repete a recepcionista, descrevendo-o como incapaz de resistir a tirar das trevas esterilizadoras um milhar de agentes de propagação de doença identificados no rastreio hospitalar.

  Para a minha contabilidade pessoal a situação soma-se à última vez em que estive no consultório em que a razão da demora foi uma espécie de rebentamento de bexiga. Mas houve outras ocasiões de maiores ou menores complicações que resultaram em adiamentos, delongas, prorrogações e protelações.

Um desaguisado de bojadores médicos abdominais, achaques respiratórios uns mais temperamentais do que outros e de dificuldade superior com consequências idênticas: atraso.

  E nós, espoliados da saúde, com dores não debeláveis, imaginando-o atravancado com suturas, gangrenas inesperadas e febres coléricas incapazes de contestar, desculpando-o, altruístas. Reconhecendo-lhe um dia com pelo menos trinta e sete horas de conquistas médicas ininterruptas, acumuladas em hospitais, centros de saúde, consultórios, ambulatórios de norte a sul do país.

Os da marcação das nove ficando para as dez, esses caminhando para as onze, alterações em escadinha e eu avançando impávida e involuntariamente nos degraus até à viragem de um século próximo, a meia cura de um desfecho saudável, imediatamente, atrás da propaganda médica. Não contestando os empecilhos médicos repentinos (por medo às represálias) que fizeram o senhor doutor voltar atrás, estacionando de volta o BMW na sombra reservada. Compreendendo a sua falha. Apercebendo-me dos plantões acumulados, das clínicas sobrepondo-se, urgências assoberbando-o, piquetes solicitando-o, mais as horas extraordinárias, domicílios e os horários extra.

"E vai demorar muito?", pergunta o da marcação das treze.

"O senhor doutor acabou de ligar a dizer que saiu agora de banco", contrapôs a funcionária, defendendo o patronato com dentes de quem não tem pele para desaforos, crescendo dentro da bata branca, enquanto fecha a porta do meio gabinete a que o especialista tem direito nas instalações que partilha com os colegas da ginecologia, ortopedia, clínica geral, pediatria e nomes cumpridíssimos fazendo adivinhar capacidades médicas extraordinárias, a que chamam pomposamente "Centro Clínico".

"O senhor doutor acabou de sair de banco", repete salpicando o branco da bata com a sua ira, apropriada a quem se especializou em apanhar um ror de palavras por minuto, em débito agressivo, rápido e continuado, fixando-as estenograficamente primeiro, e depois passando-as para carta (noutros tempos)  e, mais recentemente, email. Isso mais telefonemas e gestão de agenda e recursos, não sobrando daí tempo para justificar atrasos altamente compreensíveis. Até porque o tempo do senhor doutor só a si pertence, deixa ela insinuado no ar para desilusão dos aflitos. E só os infiéis da ciência médica são incapazes de o não reconhecer. Nós, pagantes ingratos, pouco cuidadosos, que se deixaram adoecer.

   A parte da sala de espera adstrita ao meio gabinete  do senhor doutor foi transbordando de mazelas: pernas lascadas, braços imobilizados, pessoas que só estão para mostrar exames, reis magos com oferendas de caixas Casa Ermelinda para trocar por disponibilidade.  

"O senhor doutor está ligeiramente atrasado", lança a secretária do nosso especialista em atrofias e contratempos do sistema imunitário para o casal de tísicos, recém-chegado, que procurava informações junto da jovem vestindo na íntegra um catálogo de "roupa alegre e colorida". Confirmando essa evidência aos que a rondavam em especial os das marcações das dez e dez e meia que já íam a caminho das onze e meia e meio-dia, respectivamente.

"Veja lá o que pode fazer", solicita uma idosa com um colar cervical desempenando-lhe o pescoço contorcido à morgada da portaria.

" O senhor doutor anda muito ocupado" ouve-se retorquir dissuasora.

“Só se for para o fim do mês que vem”.

"Veja lá o que pode fazer", solicita, novamente, a idosa, com as mãos dispostas em apelo.

As pessoas só-para-mostrar-exames agitam-se e os reis magos com as caixas-Casa-Ermelinda-para-trocar-por-disponibilidade, também.

Os meus olhos estão fixos nas caixas-Casa-Ermelinda-para-trocar-por-disponibilidade, pronto para subornar atenções. Começo a pôr em causa o dia de quarenta e oito horas do senhor doutor e a desejar que tenha vinte e quatro como o meu.

"O senhor doutor vai demorar?", questiono.

"O senhor doutor foi almoçar.", responde a recepcionista incrédula, por uma manhã perdida não ter sido suficiente para eu perceber que o tempo do doutor é diferente do dos doentes.

"Almoçar?", pergunto céptico, questionando, novamente, para verificar se ouvi bem. Percebendo ou supondo, pelo espanto da recepcionista, que estou cinco horas adiantado em relação ao "horário médico".

"Não quer que ela não coma, não é!", responde ela percebendo a minha desilusão. Provavelmente, com as contas da conversão do "tempo normal para o comum dos cidadãos" para  "horário médico" e concluindo que, contas feitas, afinal, o doutor está praticamente em cima da hora.

  Calo-me. Arrependido de ter perguntado. Sem querer ser responsável pela sua debilidade. Esperançoso que o almoço o liberte da fraqueza e lhe dê inspiração médica suplementar, para não errar diagnósticos, libertando os enfermos das dentadas de rafeiros microbianos que andam por todo o lado e estrafegam o que lhe aparece pela frente com saúde. 

  Observo a aia, remexendo a agenda, e espero um milagre: não ter que voltar outro dia. E, sem hesitar, olho primeiro para os reis magos (Baltazar, analisando-me desconfiado) e levanto-me, passando-lhes à frente.                                                                                                                

  Ultrapasso Baltazar pela direita e Melchior pela esquerda. Gaspar há muito que ficou para trás. Perco, automaticamente, o lugar onde estava sentado para a marcação das dezassete. Pisco o olho à morgada da portaria que pára, momentaneamente, de escrever um email e entrego-lhe, discretamente, uma caixa da Casa Ermelinda reserva que tinha no carro e que vem comigo sempre que vou ao médico. A marcação das duas e meia é minha.  

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publicado por Carlos M. J. Alves às 07:50

III Água na Boca

Segunda-feira, 03.09.12

Humm, o que eu não dava para estar agora em Marraquexe. E o bem que me sabia um Bloody Mary, para não falar de que só de pensar num bife Wellington me crescem calores.

   A vida tem muito de apetecer. É desejo (incontrolável, às vezes). Querer. É cobiçar, ter ganas. Deixa-nos com água na boca para o apetitoso que coabita connosco. Seja lá isso o que for. Tolda-nos o raciocínio e deixa-nos de mãos atadas, presos ao que nem sempre devíamos. Põe tudo em estado de sítio e depois sai de fininho. Sabemos que não podemos (ou não devemos), mas...

   A água na boca serve para olear os parafusos que impedem um estômago vazio de amalucar. É como um varapau no ar, açoitando o fastio. Vem pegada ao abrir o apetite ou mostra-lhe o caminho e põe-no em liberdade entregando-nos a si. Sem ela nem o conheceríamos. E não pára até se instalar a fraqueza.

É um entretém. Primeiro põe-nos a esfregar a sola dos sapatos frente à porta principal e a fazer tempo, mas como não faz cerimónias, assim que consegue dirige-se à sala e senta-se à mesa, a postos, conquanto é uma espécie de casamenteira que nos prepara para as entradas e para o que se segue. 

E só ao vislumbre de digestivos dá o seu trabalho por terminado.

    A água na boca cresce sem se dar conta. É, obviamente, de vontades. É um "Deve estar óptimo!" ou "Que bem que deve saber!". Parte do pressuposto de que, provavelmente, vale a pena e que é, certamente, bom. Tem a ver com o parecer: parece que o gelado é óptimo, que a carne é tenríssima, que sabe ainda melhor do que aparenta. 

Vai ao cheiro. Afiança. É um "Acho que devias!" ou, sob a forma de desafio, "Assim, nunca vais saber!". Pode até enganar-se, mas convence. E faz gato-sapato até o alcançar.

Como é impulsiva, intempestiva e acelerada é coisa de e para espírito jovem, mas não só.

   Marimba-se para o resto, obrigando-nos a enfrentar o precipício com que nos deparamos. Não é de modas nem tem horários, mas tem tudo a ver com a barriga a dar horas. E é não ver o dia em que se sucede, ansiosa, e dar com os pés ao resto.

   Vira-nos do avesso. É um ferver de sangue que mata, implacavelmente, o mensageiro se não gostar do que ele traz.

É estar à rasquinha. Quase a rebentar. A não aguentar mais.

Uma vontadinha. Incontrolável. Impaciente.

Em rigor é diferente da inveja que é traiçoeira, maldosa e mal-intencionada.

    Sintomas?

Os pêlos atrás do pescoço são os primeiros a dar sinal, eriçando-se. Depois certo tipo de fornicoques e o inevitável ficar sem forças para resistir.

    Responsáveis?

A água na boca está entregue a mãos experimentadas: livreiros maquiavélicos, publicitários conhecedores das fraquezas humanas, a várias gerações de avós capazes de resistir há mais horrífica das torturas para salvaguardar os segredos que condimentam as travessas, chefs talentosos, vendedores...

    Exemplos?

Uma citação de Thomas Mann que nos deixa com vontade de ler de um fôlego A Montanha Mágica e Morte em Veneza, a lembrança dos cozinhados da avó, o sabor daquele mojito naquele bar a que não vamos há uma eternidade e que nos ficou, um trailer publicitário que nos desassossegou ao ponto de fazer reaparecer na nossa vida, durante todo um fim-de-semana, o que estava adormecido desde a infância: a saga da família Cartwright em Bonanza.

   Os especialistas bem que avisam que não se deve ir às compras de estômago vazio, mas o que me assusta é a água na boca. Passar nas proximidades de uma feira de enchidos é ficar a aguar para as alheiras de Mirandela e para o presunto de Chaves. Rondar a secção dos queijos é ficar assoberbado pelo amarelinho da epiderme dos lacticínios da ilha de S. Jorge ou obcecado pelo rótulo onde se lê Estrela que parece piscar o olho só para pôr o incauto a arfar e de água na boca, para lá da salvação. Perdido. Em apuros.

   Bem podemos repetir "Häagen-Dazs nunca mais, Häagen-Dazs nunca mais, Häagen-Dazs nunca mais", mas se nos distrairmos e nos começa a crescer água na boca, o caldo está, irremediavelmente, entornado.

   A água na boca não pode ser compensada. Faz estragos e pronto. E não é só com a comida.

Também funciona diante de uns sapatos Luís Onofre que antecipamos calçar que nem uma luva. 

Livros. Alguém falou em livros?

Se houver um bibliófilo que me convença de que não há sempre um livro a fazer falta, exijo que partilhe o segredo de como o consegue.

Fnac, BertrandBulhosa... as prateleiras das livrarias têm propriedades de refogado aromático em preparação no que ao despertar água na boca do leitor concerne.

E os gadgets?

Repletos de funcionalidades high-tech, apelando convincentes ao consumismo.

Mais os automóveis?

Espaçosos, confortáveis, poderosos, na cor preferida, repletos de estatuto. 

Também empregos bem pagos são uma possibilidade excelente para nos fazer crescer água na boca. Ele são os rendimentos elevados, as regalias, prémios, comissões, estacionamento...

   É preciso estar atento. A água na boca é o início da tentação.

Um entusiasmo.

É um fazer-se ao piso.

Um tambor atacando o rufo, preparado para o grande evento.

O antes de tomar-lhe o gosto.

É um nhami!.

   Solução?

Fugir é o melhor remédio. Mas tem, obrigatoriamente, de se ser rápido.

   O meu truque pessoal?

Entregar a carteira a terceiros. Imediatamente. E fazê-los jurar que esta nunca será devolvida, mesmo sob ameaça de subir ao ponto mais elevado do El Corte Inglés e atirar-se. Falando, meramente, no campo das possibilidades, coser a boca seria outra hipótese. Mais extrema, admito.

   E agora alguém que me tire aquela sobremesa do meu ângulo de visão. Não sei se o sou capaz de fazer ordeiramente. Há regras simples que não devemos desrespeitar. Conhecer os nossos limites é uma delas. Tenho medo de tentar furar o esquema. Preciso de ajuda. Alguém que me demova, que me acuda, rapidamente. O melhor é pôr-me ao fresco.

Claro que, em relação à água na boca, tudo acaba quando passa a vontade. Mas isso pode demorar algum tempo e às vezes é tarde demais.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 08:41

III Praguejar: sobre o grau de pureza de cada um

Sexta-feira, 31.08.12

Perante uma posição de perigo, a presa agiliza o trote e precipita-se na sua mais impetuosa corrida. Alguns animais camuflam-se ludibriando o predador com a paisagem circundante. Outros desafiam as probabilidades e apostam no ripostar. Certos lançam odores dissuasores. Se o animal rosna, barafusta, larga baba, em situação de desagradável confronto o homem perde-se em palavrões. O que nos distingue dos animais face à adversidade é a nossa capacidade de praguejar em barda.

   Nem sempre somos civilizados, delicados e bem comportados apreciadores de Bach e Moët & Chandon. Um palavrão é visceralmente indispensável para a nossa caracterização e diz muito sobre nós enquanto espécie.  

  Ante a demora da senha nº56 para a porta B, ante o apuro ou irritação, o nosso instinto não é de fuga, luta ou de estratégia de sobrevivência, é praguejador.  

  Se o palavrão possibilitar avaliar o grau de virilidade, a maioria dos elementos que se deparar com uma fila de trânsito será, maioritariamente, considerado homem de aço e em relação ao seu grau de pureza estará longe de ser apreciado como uma  lady virginal.

   O palavrão atravessa o nosso próprio crescimento individual. O nosso estado de desenvolvimento pode ser, facilmente, atestado em certos escalões etários pela cifra de palavrões conhecidos, cujo mínimo não poderá (por questões de garbo) ser inferior ao da miúda no ano a seguir a quem cresceu peito nas férias grandes e que sabe suficientes para contrapor aos elogios que lhe são dirigidos ao crescimento repentino.

   Também em condições de aprendizagem o palavrão é fundamental. Para ninguém ficar embaraçado fica a pergunta retórica:

Gramáticas à parte o que se decora, imediatamente, quando iniciamos o estudo de uma nova língua?

   Praguejar não é bem um defeito, é uma necessidade, um alívio... é como as gorduras cujo bem que sabem não compensa o mal que fazem, mas... as vantagens são inúmeras: praguejar tem propriedades anedóticas e, portanto, mais piada do que a erudição; parece ter capacidades apaziguadoras mas, também, de incitamento, admoestação, intimidação...

   Em termos de comunicação, praguejar é um comportamento de superior riqueza e potencial. Uma instituição. Um palavrão não se diz, entoa-se, como um cântico ancestral. Não é uma questão de vocabulário rudimentar. Se pensarmos bem, quantos sinónimos conhecemos para fezes? E pénis? Dezenas? Centenas?

   Obviamente que existem cenários e situações mais propícias que outras para a utilização de um palavrão: o árbitro que parece que não vê, o condutor que dá a sensação de ter comprado um carro sem piscas...

Também em termos de inferno de ordinarice podemos ir de um círculo exterior mais rudimentar ao nível de um "Raios te partam!" até ao círculo mais interior e central desta circunferência brejeira e de fazer corar o marinheiro mais bêbedo.

    É verdade que à força do palavrão as coisas não andam mais depressa nem correm melhor, mas praguejar liberta. Faz bem. Tem pundonor. É o fim da linha. Uma descarga de bílis contra as gasolineiras, as petrolíferas, o fisco, o governo, o serviço nacional de saúde, o vizinho... coloca-se a cara de Scarface e zás!

    Com o mais popular dos palavrões não se esgrimem argumentos, parte-se, automaticamente, para a boçalidade, mas isso não é nem uma preocupação nem um embaraço. 

   Em retrospectiva, um palavrão é um exagero. Injustificável.

Tudo o que vai além de um "Chiça!" é indecoroso, indesculpável, ofensivo.

    O palavrão é rasca. É reles. Sem classe. É descer à lama. Tira estatuto.

Alguém conhece penitência? Haverá adequada?

    O palavrão manda-nos para caminhos remotos e sinuosos. Expulsa-nos das boas maneiras e do bom gosto. Carece de bom senso e senso comum. Quem ouve olha com feições de "Deves estar muito orgulhoso!".

Um palavrão acusa, elimina, é prático. Em caso de dor, por exemplo, não dizemos:

 

"Estou com uma sensação incómoda, excruciante, associada a um processo destrutivo dos tecidos expressa através de uma reação orgânica" ou  "Estou aqui com uma resposta lancinante, resultante da integração central de impulsos dos nervos periféricos, activados por estímulos locais" ou, ainda, "Esta dor ciática que se iniciou na região lombar e que percorre todo o meu membro inferior é muito desagradável".

 

Largamos, prontamente, um "raios e coriscos" com bolinha vermelha no canto superior direito da moralidade e há um alívio de placebo que, embora ilusório, resulta. Retempera-nos.

     

Sobre praguejar que mais dizer?

Em relação aos palavrões, pode ser-se mais ou menos ousado. Se para alguns puristas um "carago" é uma bomba atómica, para outros não passa de um fulminante cacofónico.

   E depois há a parte cultural. Se o norte é uma nação, os palavrões preenchem pelo menos duas estrofes do hino. E ainda bem.  Tira-se a brejeirice ao S. João e só lhe resta a martelada.

   Orgulho?

Não.

Mas o que é que podemos fazer?

Nem todos podem ter temperamento de jovem gazela fugindo lesta ao leão.

A culpa não é nossa. Não se pode travar a evolução.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:00









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