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III Papas na língua

Terça-feira, 03.12.13

 

As "papas na língua" são a irmã do meio. Nascem entre os "paninhos quentes" e o "tento na língua".
Surgem amedrontadas e crescem pouco sérias, sem evitar as "falinhas mansas".

Andam, habitualmente, em bicos dos pés, são pouco exigentes e mais do parecer do que do ser.
Raramente dão a cara e preocupadas com aquilo que os outros pensam enjeitam responsabilidades.
Num discurso preparado com “papas na língua” receia-se até as vírgulas e a verdade fica para outro dia.
Sussurra-se e deixa-se de fora. Não se inclui com receio de ser excluído e exclui-se para ser incluído.
Um discurso com "papas na língua" sai sempre de uma consciência que mesmo quando pesa não incomoda.
É um discurso fraco, em surdina, que começa, sempre, com um: "desculpem qualquer coisinha". E depois esconde-se anémico e sem cor, evitando o confronto.
Percebe-se, imediatamente, ao que vai porque acrescenta aspas mesmo quando não é preciso,  indirecto e sem dar nome aos sujeitos.
Reconhecível porque não tem princípio, meio e fim e passa, automaticamente, para o que não interessa.
Não é grande em tamanho e acaba antes de começar. É, até, bem mirrado pois não precisa de muito português e dá mais páginas do que as necessárias, com parágrafos longos que dariam poucas frases curtas.
Evita, liminarmente, a contestação e por isso não se dá por ele.

Deixa passar ou vai a reboque, não quer saber e deixa andar.
Apazigua.
Não entusiasma nem acrescenta.
Como os restos de um bom prato que chega à mesa requentado.
Um mosquito com horror a sangue.
Uma cerveja quente.
Água que não chega a matar a sede.
Carne com vocação para peixe.
Salgado com sabor a doce.
Conduto que não deixa sustento.
Um orgasmo fingido e uma dor de cabeça que não se sente.
É de quem evoca esquecimento, acaba citando terceiros e diz: "já cá não está quem falou".
De quem se encolhe num tempo em que faz falta é quem se estique.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 19:16

III Relativizar por aí

Sexta-feira, 15.11.13

A partir de hoje vou relativizar.

Passo a desvalorizar e a encolher os ombros.

Vou tirar importância às coisas. Passá-las de extrema a assim-assim e achar que não é tão mau como parece.

Vou enganar-me de propósito. Trocar códigos e PIN.

Não vou reparar em rugas, passo a descontar cabelos brancos e acabo a subtrair quilos a mais.

Tirar tempo aos atrasos e, por minha conta e risco, juros à dívida.

Aproximar distâncias e saltar degraus.

Vou abrandar a pulsação e diminuir batidas por minuto.

Abolir solenidade às cerimónias, abandonar ralações e por de lado preocupações.

Vou vencer o stress, desbaratar complicações e recuperar horas de sono perdidas.

Pânicos e desesperos não são para mim!

Não vou em crises!

Vou por fim às azias e mal estares, tirar graus à febre e não dar importância às alergias.

Acabaram-se as maleitas!

Vou ganhar anos.

Rejuvenescer.

Acabar, praticamente, recém-nascido.

Serei optimista. Passarei a descontrair, a desconsiderar, a deixar-me de pressas, a evitar confrontos e iras.

Acharei que há pior, que não vale o sacrifício, que se pensar bem… que depende do ângulo.

Vou andar de olho nas perspectivas e amantizar-me com o deixa andar.

A minha frase favorita vai ser: “pensando melhor…”.

Saindo de fininho quando a coisa der para o torto.

Nada será como dantes.

Estou a falar a sério! Muito a sério. Os dias não estão para brincadeiras.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:52

III Ódios de estimação

Quarta-feira, 30.10.13

Antipatizo com ódios de estimação. Não nos dão descanso. Controlam-nos. Seguem-nos fiéis e incansáveis, de soslaio, para todo o lado e atraiçoam-nos na primeira oportunidade. 

   Calculo que toda a gente os tenha, mas arrependo-me como se sentisse o aperto de uma contrição infligida pela minha consciência pesada agonizando, num abraço com o ímpeto de uma anaconda adulta voraz.

   Não chego à penitência e tento não amar o próximo com que me cruzar, mas fico a desejar ter uma natureza vetusta de santo misericordioso, com infinita capacidade de Madre Teresa para perdoar e aceitar as coisas como são (imperfeitas e por vezes abjectas e de mau gosto).

   Infelizmente, peco e acabo sempre voluntariamente a arremessar, violentamente, a primeira pedra, sorrindo comovido ao vê-la planar sobre as minhas vítimas preferidas até as estilhaçar, irremediavelmente, num golpe certeiro letal que só o granito crítico é capaz de proporcionar.

   Gostava de ter um gosto eclético menos lancinante, um palato pouco exigente com os sabores, uma visão com pouca acuidade, fazendo vista grossa ao que a rodeia, uma inteligência analiticamente pouco espontânea e distraída.

   Percebo que os ódios de estimação são contraproducentes, impopulares, fonte de embaraço e de inimizades. Precisam de ser alimentados como Chihuahuas frágeis e esfomeadas. Lembrados, num canal memória com programação própria e contínua, para não caírem no esquecimento. Justificados num julgamento constante, num tribunal sem processos pendentes. Uma canseira!

   Não há dúvidas de que tenho uns quantos ódios de estimação. Bastantes, admito. Que só eu cá sei. Mais outros que são do conhecimento geral. 

  Gostava de encontrar em mim motivação de aspirante ambicioso a Masterchef para os perder. Mas não sigo correctamente a receita. Fico a várias caramelizações aquém de o conseguir. Tiro do forno antes de tempo. 

   Infelizmente tenho a mesma pressa em perder ódios de estimação do que na entrega da declaração de IRS e a mesma capacidade para fazer isso acontecer do que em desfazer-me de jornais e revistas criando pó. Acumulo.

Provavelmente afeiçoei-me.

Pensei começar pelos mais pequenos. Fasquia bem em baixo. Abdicar, lentamente, de meia dúzia de autores e compositores odiosos. Perdoar cores exuberantes. Para depois continuar por aí acima até governos inteiros fracassados e tops inteiros com sucessos improváveis.

Passadas pequenas, mas firmes, em cortejo corajoso, numa complicada estrada até Damasco com sinistralidade de IC perigoso em que, habitualmente, corto a direito ou esbarro atacando a curva como contracurva.

Nem assim!

   Não é fácil perder o hábito. Custa mais do que arranjar lugar em transportes alternativos em dia de greve geral. É mais fácil arranjar ódios de estimação do que perdê-los, acrescentá-los a uma lista implacável já extensa do que vermo-nos livres deles. Como se desbaratássemos preciosidades a preço de bric-à-brac. Com remorsos de quem se desfaz das joias de família.

   Facilmente nos empenhamos em arranjar espaço para mais uns quantos, como quem encafua mais gente na lotação já esgotada de um Mini. Antevemos dificuldades de que quem não encontra lugar na gaveta para as meias novas e desistimos.

   Consciente dos riscos, resolvi jogar pelo seguro. Não faço promessas nem juras que acabam em desilusão. Não me quero transformar num executivo delapidando paciência do erário público. Acrescentando juros ao tempo já perdido, enquanto alimenta ilusões. Compromissos ficando pelo caminho íngreme, numa Falperra de uma vida em que nos esgotamos ainda a meio da rampa.

   Sinto que começam a desistir de mim. Desinvestiram em mim. Exonerado prematuramente. O tempo urge.

Tentarei arranjar motivação de Masterchef para os demover.

Entretanto, nos próximos anos cooperarei, convicto, ainda assim, de que será mais fácil mudar o eixo magnético da Terra do que atingir o que pretendo.

Até porque em relação a ódios de estimação, sinto que ainda não estou no ponto.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 19:11

III Tanto barulho para nada

Quinta-feira, 08.08.13

 

I wish my horse had the speed of your tongue.
Shakespeare, Much Ado About Nothing


Colectivamente somos BARULHENTOS. Incómodos. Agitação, balbúrdia, rebuliço não nos intimidam. Impomo-nos, aos safanões, como povo alérgico ao silêncio e apto para provar a todos os dotes de Caruso em cacofonia.

O "demasiado alto" foi riscado vitaliciamente e por isso vamos à frente e isolados, numa competição quase sem rivais, como vuvuzelas incómodas e histéricas.

  Por natureza própria e confirmada, falamos  alto com o vizinho do lado como quem assume que ele está a quilómetros de distância e sem nos ouvir. 

  Temos pré-amplificação hereditária garantida ao nível das cordas vocais. Estridência ao nível da língua. Entoação de eco em promontório  alpino.

  Somos, congenitamente, incapazes de sussurrar. Decibéis ao rubro. Como quem nasce equipado com microfones e colunas adequadas para espectáculos em grandes espaços. 

Desprovidos de motivação para passar despercebidos. Colocando-se em bicos dos pés e anunciando-se (ALTO): “Estou aqui, estou aqui!!!!”.

  Ao contacto leve com o areal não gaguejamos e perdemos as maneiras. Aparecendo na praia, desde cedo, com dois meses de forno não para garantir anonimato mas inveja. Evidenciando-se com ruído idêntico ao do Maracanã em dia de Fla-Flu, enquanto se avança pela zona dos chapéus dentro com toda  a torcida do futebol de praia em polvorosa.

O mundo bem pode ser um palco mas é no relvado atlântico que se revelam os talentos.

  Usam-se os quatro, cinco, seis ventos para levar a mensagem mais longe. Berrando como se os fígados estivessem a pingar derretidos, directamente, para a toalha.

Apregoando a dúvida se são mais as varizes, as estrias ou as ilhas de celulite da jovem à beira-mar. Se havia necessidade do cabelo loiro da mãe que a acompanha. E se os estampados florais nos fatos de banho da promoção podem ser considerados revivalismo de bom gosto.

  O relógio interior que nos regula o barulho anda desregulado há anos e o tom de conversa normal está subido e com débito de banda de garagem empenhada. 

  Colectivamente somos barulhentos. Falamos por cima de quem tiver que ser.

Não acreditamos em aparecer com pezinhos de lã. Andamos com um púlpito atrás, constantemente, convencidos de que estamos a falar com grandes plateias  e auditórios ávidos por nos ouvir. Sempre preparados para o contacto com as multidões.

Trombetas em riste anunciando-nos ao mundo. Em constante atitude provocatória toureira: “Ei, tu aí!?”.

  Em termos europeus fazemos claque por todo o continente. Damos a conhecer a vida ao mundo e subvalorizamos a descrição. Deixando para trás a pergunta: TANTO BARULHO PARA QUÊ?

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:54

III Agora só se for depois

Sábado, 27.07.13

Quantas vezes já não hesitou ou deixou de fazer por achar não se tratar do momento certo?
Se perdeu em considerações, entretantos, desembalou e embalou para, finalmente, renunciar definitivamente?
Como quem teme ir afrontar os astros se for em frente, afundando dois Titanics à sua conta.
Sentindo nos ossos um vento que se levanta nas rótulas, uma humidade que se instala no azimute lombar ou uma tempestade psicológica que se forma no enclave parietal.
Ou põe a hipótese, como quem reinventa o método experimental, de que em relação ao que pretendia haverá, certamente, uma altura mais adequada como desconfia ser o caso para ter varicela, andar de olho nos dentes do siso ou tirar as amígdalas.
Sem ter consciência de que, no fundo, evocar um mau timing é como quem diz: "O que não tem remédio, remediado está".
    Haverá circunstâncias certas para o prazer e para o trabalho da mesma maneira que, e embora esta não seja a melhor escolha de palavras, tenhamos que dar a mão à palmatória que há um momento em que a próstata faz parte mais evidente da nossa vida?
Ou, quando mesmo prendendo a respiração, não conseguimos disfarçar o globo Michael Jordan Special que dá guarida ao nosso umbigo mais do que um melão em disputa de sevens será melhor não pensar em galanteios?
   Não é o momento certo, anda nas bocas do mundo, de cá para lá, como uma chiclete abusada e deglutida por um palato debochado viciado em hálito mentolado.
   Não é o momento certo para uma imensidão de coisas. Para avançar, para dizer sim ou não, para entusiasmos, para arriscar. Não é o momento certo porque nos falta altura, peso ou idade. Por estarmos fora de prazo ou ainda não termos lá chegado. Por nos terem dito isto ou aquilo, termos pressentido aqueloutro ou adivinharmos sabe-se lá o quê. Também não é o momento certo porque nos sobra que fazer ou porque nos sabe bem não ter de.
   Se é certo que quem não arrisca não petisca, o seguro morreu de velho e no fim são poucos os que não pedem tempo extra, concluímos, como consolo.
   Não é o momento certo porque nos falta o interesse ou porque temos outros. Porque não estão reunidas as condições, não eram bem aquelas ou são mesmo essas e cheira a esturro. Não é o momento certo porque não era bem aquilo ou não nos podemos dar ao luxo. Não é o momento certo porque os contras ultrapassam os prós e o negativo foi superior ao positivo. Porque não podemos aceitar senão ficamos a dever favores e como é sabido não há almoços grátis e depois temos a obrigação e e e e e e…
   Não é o momento certo, é um agora não dá. É de quem está convencido que o tempo não está a seu favor ou teme enfrentar o oceano e prefere ficar em terra.
   Justifiquem como anti-precipitação, mas se pretendermos chamar devidamente o nome às coisas é ter medo do ridículo por sentir sobre si todos os olhos de uma enchente no estádio da Luz em noite de jornada europeia, fugir às responsabilidades como da fogueira da inquisição espanhola, estar de pé atrás como quem adivinha areias movediças iminentes, arranjar desculpas como quem jura ter avistado o Bigfoot.
  Se quisermos ir mais longe, para zonas francas mais próximas daquilo de que realmente se trata, temos de admitir que é uma merda de uma perda de tempo. E uma atitude de marinheiro de água doce temendo alergias do sal do mar, de quem vê rugas onde não as há, dá o corpo ao manifesto alheio, se voluntaria para as dores de terceiros.
De quem em relação a ele – o tempo – esquece o mais importante: ele passa a correr.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:49

III Nada se perde, tudo se transforma

Sábado, 13.07.13

Talvez haja um tempo próprio. Alturas adequadas, situações mais aliciantes, mais um aperto e um vagar que facilitam. Uma espécie de pré-requisitos para a mudança que impliquem que a partir de certas idades ela traga mais complicações, eczemas e febres súbitas. Talvez se passe da idade e se fique agradado com o carácter definitivo da nossa natureza, temendo, bonacheirões, pela nossa maneira de ser que consideramos, orgulhosos, obra acabada.

Razões mais do que suficientes para não querer mudar.

   Estou habituado às cores usuais, às mesmas marcas, sabores e odores. Honro tudo o que é o de sempre e repugna-me o passageiro das modas. Faço questão no que é do costume e não ligo a tendências.

   Mudar é uma incógnita. Tentativas que podem acabar falhadas. Perdem-se garantias. A mudança destabiliza, desarruma ou, pelo menos, troca o sítio às coisas. Uma canseira que exige coragem e obriga a reconsiderar os gostos, as atitudes, a forma de ser e pensar.

Tudo começa com uma vontade que não tenho. Porque mudar é um recomeço ou, ainda pior, um início. Um rompimento com uma certa familiaridade gostosa, com que bem ou mal tudo lá ía funcionando. É uma traição ao já feito, ao já conquistado, ao já conhecido. É um certificado de menoridade passado ao anterior. Uma ruptura sem garantias.

   Na maioria das vezes são os outros que instigam em nós a necessidade (pouco ou nada evidente para nós) de mudança. Devido ao convívio que mantêm connosco. A nós falta-nos a paciência e disponibilidade, mas eles, atiram-nos para um tribunal identitário implacável, contestando rabugices e subtraindo defeitos. Do seu julgamento sanguinário, sem recurso, retiram (para nossa frustração) como pena a obrigação de nos civilizarem, amansarem e amestrarem.

Bem-intencionados, pedem-nos que mudemos hábitos de anos sem opção de pegar ou largar ou quem está mal que se mude. Em nome de um ar mais moderno, jovial ou de uma maior facilidade no trato.

Idealizam-nos uma nova identidade. Um eu que na maioria dos casos é deles. Preparam-nos para uma recauchutagem urgente e indeclinável, lançando-nos, sem comiseração, num degredo de carácter, um exílio forçado do nosso temperamento. Tiques e manias de sempre deixadas ao abandono. Fatias e mais fatias de uma personalidade arduamente construída contestadas. Um remexer numa estrutura frágil que pode fazer ruir todo o edifício. Uma aparadela nas medidas e organização. Alternativas envenenadas para as nossas falhas.

   A mudança assusta e é arriscada porque mexe no andar da carruagem. Para funcionar tem de ser voluntária e a minha opção, temendo o descarrilamento, é clara:

Não, não quero mudar, muito obrigado!

Até porque depois de tudo contabilizado, facilmente se conclui que os ganhos são mínimos. Mais uma simulação do que uma evolução. Pormenores. E, no fim, há sempre um perigo:

                 há coisas que nunca mudam. 

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publicado por Carlos M. J. Alves às 16:13

III Eu desiludo-te, tu desiludes-me, ele desilude-me

Sexta-feira, 12.07.13

Há a espinha que se atravessa, o doce que se amarga, a oportunidade que não se aproveita, aquilo que nos escapa, a insensibilidade de quem não cabe em si de importante, a dor de cotovelo, o atraso, o pacto que se quebrou, a negociação que ficou a meio, a sensação de que, afinal, não se conhecia assim tão bem. Amizades que se esfumam, amores que se trocam, livros que não sobrevivem às primeiras páginas, filmes que não chegam aos créditos finais.

Capítulos vitais inteiros preenchidos com o desconforto de uma personagem secundária que morre logo no início da história. De quem não foi convidado para a festa. Sofrendo do embaraço de quem está na cadeira do cabeleireiro e verifica, olhando em volta, que tem o pior penteado do salão.

Com a motivação de quem está no dentista e sente necessidade de justificar que reconhece que devia ter vindo mais cedo. Até ao fim.

Desilusões. Escabrosas, lamentáveis, mortais, definitivas, dignas de dó, sem misericórdia, apelo ou agravo ou penosas. Vividas em complemento directo ou indirecto, na primeira, segunda ou terceira pessoas.

  A desilusão põe um ponto final no optimismo e na esperança. Põe travão no nosso empenho e confiança, ganha embalagem na falta de sorte, cruza-se com o insucesso e acaba-nos com a vontade de fazer planos e nos lançarmos no desconhecido.

Ficar desiludido é uma realidade imensamente conhecida que fica, como é do conhecimento geral, no virar da esquina. 

É ir além do desejável, ficar aquém do desejado e nos antípodas do que queríamos.

É uma palavra que volta atrás, uma promessa que fica por cumprir, um contrato que fica por honrar.

   A desilusão é a nódoa que cai no melhor pano. A expectativa que se gorou. As pernas faltando na reta final. O título fugindo no último minuto. Um pitéu excessivamente salgado. Uma bebida demasiado  aguada. Atendendo à época, um sol que pouco dura, uma bandeira amarela num dia de calor ou um escaldão num dia perfeito de praia. Se preferir, uma bolha no fim do passeio. 

É, também, o produto que não é bem aquilo que parecia no folheto. É chegar quando já não há para nós... 

  As desilusões são tantas que bem se podem identificar como constante ou uma variável omnipresente.

Desiludem-nos os governos, o nosso saldo bancário, a filiação partidária do nosso escritor favorito, a meteorologia, a nossa resistência para chegar à meta, a quantidade de calorias da nossa sobremesa favorita, a estratégia da nossa equipa que valeu pontos preciosos para o campeonato, as paixões que deixaram de ser arrebatadoras, os amigos e nós mesmos.

Estamos constantemente a centímetros da nossa altura ideal. A um voto da eleição. Ultrapassando em quilos o nosso peso. Amores que se tornam desamores. Promoções tentadoras em época de contenção.

Neurónios preguiçosos para o que nos propomos. Espírito com pouca liderança. 

   Vamos abrindo caminho, desilusão  aqui, desilusão ali. Alimentando-nos de fantasias. Sonhos sobrando. Ambições por um fio. A contas com o descrédito e a crítica. Paredes meias com a derrota. Mortificados. Desiludidos.

Em relação à desilusão, o melhor é não nos iludirmos.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 17:25

III Contras feitas

Quarta-feira, 13.02.13

Ser do contra não é instalar-se, desordeiro, no meio da claque da equipa adversária. Nem é mudar de ideias quando já se pisa as praias da Normandia. Não é de quem só tem garganta ou vive de bico calado.

    Num país de observatórios não há em Portugal um estudo disponível que permita demonstrar que por cada milhar de portugueses que, estóicos, aguentam de papo cheio a situação deprimente a que se chegou, como um ganso vendo passivo o fígado passar a foie gras há uma voz do contra. E o mesmo se diga para quem a gorja serve, unicamente, para com a mesma naturalidade de Van Gogh pintando girassóis, se armar em treinador de bancada consensual. Para não falar do mais do que consciente e modesto cidadão que acha que "Vozes de burros não chegam ao céu".

Por cada um desses milhares há uma voz do contra.

     A voz do contra não consegue curas para doenças incapacitantes. Às vezes engana-se. E até pode defender que os óscares estariam melhor entregues a Bo Derek do que a Meryl Streep. Jurar a pés juntos que a parede branca caminha perigosamente para um negro máximo. Contestar penalties apesar das imagens esclarecedoras. Apontar para o norte quando o caminho é para sul. Teimar que O Paciente Inglês é uma comédia. Ou ter voz estridente de Fran Drescher em de The nanny named Fran (Competente e Descarada). Pode, mesmo, não ir além de dar dois gritos.

Mas, não é essa que interessa. Mas, a outra, a construtora, que sozinha consegue erigir pirâmides. Essa é linguaruda. Refilona. Não se cala nem deixa por dizer.

É o contrário de uma voz resignada que é mansa e anda em bicos dos pés, sem pernas para tomar a dianteira.

     É por isso que a voz do contra é rara, porque a maioria das vezes perde mais do que ganha. Faltam voluntários para ela.

Mas, não há dúvidas de que em termos de importância mais vale uma voz do contra afónica do que uma resignada esganiçada.

     Uma voz do contra é inoportuna, desagradável e altiva.

É desinibida e faz mais alarido do que um gato com cio. Fala alto e não se encolhe. Barafusta.

Finca o pé e não se desvia. O que a faz pouco popular.

Uma voz do contra dá o corpo às balas nas guerras que vai comprando. Não gosta de perder nem a feijões. E, também, não deixa que lhe passem a perna.

Ao contrário de uma voz resignada que é mansa e anda em picos de pés, sem pernas para chegar à dianteira. Para quem tudo são favas contadas.

    A voz do contra não é cega, tem até os olhos bem abertos e vê mais longe do que o habitual. Tem um pouco de rufia, de pedra no sapato. É casmurra e nunca dá o braço a torcer. Incomoda. É uma pedrada no charco, uma sacudidela no marasmo, um abanão vigoroso.

     A voz do contra foge ao habitual. Nem sempre está do lado da razão mas, facilmente, se encontra do outro lado. É uma voz que se levanta e não se preocupa em ficar sem lugar.

Não afina pelo mesmo diapasão, o que a torna dissonante. Nem se perde em silêncios ou vai em conversas, muito menos nas moles.

Em relação a concordar com terceiros é objectora de consciência uma vez que não se deixa intimidar.

Essa é a razão porque às vezes parte a loiça toda: um pirex cheio de desilusões que estavam atravessadas, uns cristais raríssimos repletos de coisas que ficaram por dizer, umas porcelanas deslumbrantes escondidas atrás de umas orelhas moucas a que se disse basta. E quando a cristaleira não for suficiente abre-se mão das cerâmicas que quando se parte a loiça toda não se olha a estilhaço de barro.

Sai caro? Às vezes. Mas, conhecem alternativas?

Façam as contas.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:53

III O sítio onde se deixa a cabeça

Sexta-feira, 07.12.12

Ninguém viu a minha caneta? Não faço ideia onde a larguei. Não é pela estimação ou preço, mas pela falta que me faz. Alguém tem uma que me empreste? Não sei onde guardei a minha. Já vi nas algibeiras, na pasta,  nos sítios normais e nada. Provavelmente está no casaco de que me esqueci no carro. Clássico!

  O problema é antigo. Perco papéis, não encontro documentos, não sei onde pus livros, desaparecem-me cd's. Já falei nas chaves? Ah, claro e canetas... Pior, muito pior do que ficar com conversas a meio, por não se saber o que se ía dizer.

   Habitualmente, baralho-me, "acho que...", Tenho a certeza de "ter posto...", "de ter ficado em cima de...", mas as coisas trocam-me as voltas. Os objectos insubordinam-se e procuram novas moradas. Sobrevivem sem mim. Fazem vida à minha revelia. Começo a questionar-me se serão, realmente, imóveis.  Se o inanimado que há em si na minha presença desaparece ou, pelos vistos, ganha ânimo.

    Perco, facilmente. Encontrar deve ser para um certo tipo de indivíduo. Manter a mesma coisa. Eu sou dos que perco. Consigo a proeza de fazer desaparecer a carteira no bolso de trás das calças. Perco e pronto! Não tenho prioridades ou preferências. Mas o norte será o mais frequente. O "Onde está?" é a minha pergunta mais habitual. Assim que saio de perto das coisas  a minha memória fraqueja. O meu discernimento, também. 

Onde deixámos ontem não encontramos hoje, concluo, abonatoriamente.

A distracção perde-nos as coisas, acrescento, em defesa própria.

   Tenho agendas, obrigo-me a tomar notas, repito para não me esquecer, mas um autêntico triângulo das Bermudas cresce à minha volta, como um vórtice para onde todo o meu quotidiano é atraído. A minha realidade escapa-se pelo ralo. O meu mundo é esburacado como um queijo suíço.

A minha arrumação amontoa o que, também, não ajuda. A minha visão despassarada agudiza o problema. As minhas mãos emaranham o que sobra.

   Em relação ao lugar onde deixei "aquela" gravata perco, facilmente, a noção. No que diz respeito ao comando da TV desconheço o último paradeiro. Não vejo maneira de estar de boas relações com o que deixo de ter à mão.

   Há, sem dúvida, um génio maligno de género cartesiano que me atormenta. Não me faz crer que estou acordado quando estou a dormir. Descartes comigo ter-se-ia enganado nisso. Também não me baralha as certezas matemáticas, trocando-as por devaneios pseudo-científicos. Antes fosse isso. A álgebra não é para mim uma escolha evidente. Esconde-me, clara e distintamente, entidades concretas como a escova de dentes e sweat-shirts. Faz-me perder aleatoriamente o que quer que seja ou, simplesmente, só para me baralhar põe tudo em lugares inacessíveis e inusitados. O meu Cogito? Se está perdido é meu.

   Outra possibilidade para o meu descontrolo é um poltergeist se divertir substituindo o conteúdo das gavetas e tudo a que deite a mão.

   Preciso de referências. De um norte novo a estrear ou constelações adequadas para quem tenha dificuldade em encontrar camisas. De colaboração. Humana ou não. Satisfaço-me com uma Bimby capaz de me por as meias em ordem.

   Estou desesperado. Gagá. As minhas faculdades mentais estão por um fio. Pondero na lobotomia. As minhas certezas ruíram. Arruíno guarda-roupas. Impossibilito colecções por transvio de elementos. Preciso de várias cópias do mesmo livro para conseguir chegar à última página. Acabo a vestir o que consigo descobrir. O meu problema atingiu proporções ridículas. Tenho conhecimentos mais do que suficientes para me orientar na obra de Norman Mailer, mas sou incapaz de encontrar  o carro no parque de estacionamento. Serei o único?

Não se arranja, mesmo, uma caneta? Está mesmo a fazer-me falta! Onde é que eu ía?

Ultimamente, prometo o impossível. Detectar agulhas em palheiros. Todos os lugares são insuspeitos e servem para procurar até prova em contrário.  Juro que nenhuma pedra ficar por revirar, garanto que nenhum chapéu ficará deixado para trás, agasalho algum levará sumiço mas...  

    Claro, que se o problema é antigo a causa para ele, segundo dizem, é, também, fácil de identificar. Aparentemente, a maior parte do tempo não sei onde ando com a cabeça.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 16:18





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    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

  • Lwillow

    Ora aqui está mais uma 'pérola para porcos' ! O mo...

  • LWillow

    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...