Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


III O caso da folha suícida

Quinta-feira, 15.03.12

[Conto surrealista sobre a relação, tensa, na escrita, entre homens e objectos]


 

Aqui se conta o relacionamento conturbado de determinada folha – branca – e uma caneta de tinta permanente (adquirida a um brigadeiro com problemas de jogo (póquer)), cujo envolvimento culminou num alegado crime passional. Não serão citadas marcas e os intervenientes indirectos permanecerão no recato.

       - Bloody hell! – vociferou o escritor quando se deparou com o sucedido (a folha brutalmente rasgada), atirando a caneta, ainda estremunhada por ter saído recentemente do estojo em veludo vermelho e tampa com brasão,  para longe, afortunadamente, sem a ferir, frustrado por não conseguir terminar a frase que as musas lhe haviam inspirado momentos antes:

         - A fé não serve para muito, mas sempre dá para mover montanhas.

Isto na língua do narrador, a quem se permitem certas veleidades, e não na do escritor que era inglês e de Paddington.

        - Logo agora! – lamentou a caneta, em defesa do escritor, com o aparo rombo pelo acidente, recuperada do trambolhão, enquanto a folha se contorcia rasgada.

        - Ai, Ai – queixou-se a folha, agonizando.

        - Que maçada – continuou a caneta pouco impressionada, com o aparo ultrajado – E tu? – interpelou ela à musa – Nenhuma ideia?

A musa sentada à cabeceira da secretária do escritor encolheu os ombros ao ver o buraco na folha.

Era um buraco grande. Não havia dúvida. Dava até a sensação de ter ultrapassado o último parágrafo e saltado até ao antepenúltimo.

        - Ai, ai – queixou-se, novamente, a folha.

      - Vá coragem! – incitou a caneta de tinta permanente com o aparo ligeiramente encrespado.

As autoridades acabaram por chegar ao local pelas 17h30. «Trata-se do caso de uma folha rasgada», confirmaram com veemência ao juiz no dia do julgamento.

       A caneta de tinta permanente foi acusada. Apesar de ser de colecção. A lei não se compadece com canetas de aparo dourado, porte nobiliárquico e modelo do princípio do séc. XX. Atentara na parte mais frágil - a do ponto final – de uma folha em branco vulgar de gramagem normal para escrita (embora permitindo dobragem e pintura simples) e altivez tísica rasgando-a criminosamente, por rivalidades antigas, sem honra nem glória.

A pena? Cento e cinquenta cópias monótonas e um ano sem poder exercer escrita criativa. Do resto nada se sabe porque está protegido por segredo de justiça.

      A família da vítima vendo a folha privada precocemente das suas potencialidades resolveu recorrer, por considerar a pena demasiado branda. Alguns adultos atemorizados pela folha em branco defenderam o agressor.

      O processo continua a decorrer, após ter sido aberto um novo inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu o acidente e peritos em folhas em branco A4 estão a ser consultados. Fosse ela uma folha A3 e tudo seria mais complicado.

      - Porquê ela? – interrogam os familiares. Relembrando todas as folhas que tombam anónimas e as que estiveram na origem de obras como a Metamorfose, D. Quixote, Madame Bovary ou até os Lusíadas e que são constantemente preteridas em relação ao livro acabado.

A tese de suicídio começa, entretanto, a ganhar consistência. «Harakiri», esclareceram os especialistas em folhas A4 brancas. Parece que a folha tinha papel de origem japonesa e andava deprimida.

     Desiludido o escritor desfez-se da caneta de tinta permanente, trocando-a por uma daquelas modernas de ponta fina que falham facilmente, com que palavra a palavra, frase a frase vai continuando o seu trabalho até precisar de outra folha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos M. J. Alves às 14:10

III Dois sapatos esquerdos

Domingo, 11.03.12

Margarida tem os olhos cansados. Margarida gosta de revistas sobre gente atraente. Os pais são pessoas normais.

Na escola os professores queixam-se de que nos dias em que ela não vem com os olhos cansados ela não aprende. Os pais compreendem e desculpam-se dizendo que ela é lenta a aprender.

Margarida tem os olhos cansados porque o médico lhe receitou um medicamento que os cansa. Os pais concordaram porque entendem que essa é a única maneira de ela se concentrar.

Sem os olhos cansados a sua cabeça ocupa-se com coisas que não vêm a propósito.

Com os olhos cansados Margarida é uma rapariga completamente diferente. Nisso toda a gente concorda: pais, médico e professores.

      Margarida não é uma rapariga como as da sua idade. Não tem interesses, dizem. Não liga a cinema. Não pega num livro. A escola aborrece-a. E não gosta de música. O que é estranho para os pais, que são pessoas normais. A única coisa, para além de revistas com gente atraente, que lhe interessa é a moda. Passa as aulas a fazer desenhos com manequins desfilando vestidos imaginados por si. O médico que lhe põe os olhos cansados já lhe explicou que para isso é preciso estudar muito e já. Não há tempo a perder! Os passos começam muito antes de se chegar aos sítios, argumenta. Os pais dizem-lhe que ela assim não vai ser ninguém. Quando não tem os olhos cansados Margarida responde-lhes (torto) e barafusta. Mas o medicamento que lhe põe os olhos cansados é para ser tomado logo a seguir ao pequeno-almoço e, por isso, não é frequente isso acontecer. «E que tal?», pergunta a mãe sempre que lhe dá o remédio, esperançosa. Procurando outra filha na que tem à sua frente. A rapariga não responde.

        Um destes dias os pais de Margarida foram convocados para uma reunião na escola, para falar sobre o seu aproveitamento. Apanharam um táxi que tinha uma placa onde dizia: «A tua inveja faz a minha fama».

Margarida passou a viagem de olhos cansados e olhar vazio fixo nela.

        - Não tinhas outras calças? – admoestou a mãe quando reparou nos seus jeans rotos pela moda.

Na portaria da escola deixaram um documento identificativo e o porteiro indicou-lhes a sala onde se deviam dirigir, pedindo que aguardassem.

      - A verdade é que sempre fui uma criança feliz - disse a mãe, na primeira oportunidade, à professora que a recebeu a si e ao marido com o seu escanhoado bipolar e o pulmão cardíaco que o faz tossir em arritmia. Disse-o para explicar que às vezes o sangue é como um rio que se afasta da foz. Para não haver dúvidas de que são pessoas normais.

     - Olá, Margarida – cumprimenta a professora, incomodada pelo pulmão cardíaco do pai. A Margarida tem feito grandes progressos, disse a professora para tranquilizar os pais. Sorrindo para ela.

A mãe orgulhosa, incomodada com os jeans rotos pela moda, agradece, reparando que ela tem dois sapatos diferentes que calçou distraída, muito cedo, antes de ter os olhos cansados. Envergonhada olha para o marido em convulsão, desejando a invisibilidade para ambos. 

    - E o português? Tens alguma palavra difícil? A minha era escanaficobético – diz a professora brincando.

    - Para ela todas são difíceis. Nunca vais ser nada na vida – acrescenta a mãe, olhando para os dois sapatos esquerdos, entre dois AVC’s do pulmão cardíaco do marido.

     - Não diga isso – contesta a professora – olhe que a Margarida tem feito grandes progressos.

     - E que tal? - pergunta a mãe a Margarida, procurando outra filha na que tem à sua frente.

     - Grandes progressos, grandes progressos… - continua a professora.

     - A tua inveja faz a minha fama – responde Margarida com os olhos cansados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos M. J. Alves às 14:46





arquivos

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D





pesquisar

Pesquisar no Blog  


Posts mais comentados


comentários recentes

  • numadeletra

    Dramas balneares :-)

  • Maria

    Que delícia!!!

  • Sandra

    :) Se descobrires como se treina esse optimismo , ...

  • LWillow

    Dietas 'é uma coisa que não me assiste' e assim s...

  • LWillow

    http://www.youtube.com/watch?v=BV-dOF7yFTw

  • LWillow

    ehehehe! 'tamos nessa' 'brother' ! Mais um bom tex...

  • LWillow

    Thanks ! this reading was a pleasure !

  • Anónimo

    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

  • Lwillow

    Ora aqui está mais uma 'pérola para porcos' ! O mo...

  • LWillow

    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...