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III Dia de Natal

Segunda-feira, 24.12.12

Caso houvessem dúvidas, a maior árvore de Natal natural da Europa está em Viana do Castelo. Entusiasmado, provavelmente, por isso, inspirado pela quadra e, ainda, pouco convencido do mundo não ter acabado quando era suposto, o meu vizinho abriu o capot do carro e meteu mãos à obra.

A viatura, em termos de ânimo, ao nível da desistência, aparenta ser automobilisticamente inviável, mas ele parece estar convencido com a possibilidade de trocar o sítio das peças e não perder a motricidade/mobilidade.

As ferramentas estão espalhadas pela horizontalidade do chão em orientação feira da ladra, sobressaindo as chaves de caixa, Philips e fendas.

A mulher, que acabou no altar consigo devido ao gosto comum por Kayaks e pelo Benfica, assiste da varanda, orgulhosa e de cabelo encrespado à Robert Smith, embalsamado pela Laca Pantene Pro-V Caracóis Definidos e Suaves.

Parece aliviada pela possibilidade de até ao jantar de Natal ter o veículo em condições de sair à pressa caso, entretanto, haja um volte face e o mundo acabe dando, somente, tempo para apanhar o carregamento de salsichas Nobre e atum Bom Petisco que estão a jeito na garagem desde o dia em que o planeta, segundo previsão dos Maias, esteve para ir desta para melhor.

   Enquanto ía ao café passou por mim um corredor-de-fundo-com-pernas-e-fita-na-cabeça-de-Serena-Williams, precavendo-se das rabanadas extra da consoada. Um grupo organizado de gatos vai no seu encalço, aspergindo feromonas enquanto o persegue cioso.

   No café uma idosa-com-ares-de-Charles-Manson-se-ele-usasse-uma-jersey-como-as-de- Bill-Cosby-em-The Cosby Show parecia estar disposta a dar a vida até à última azevia na defesa do maior tronco de Natal, barricada entre os bolos sobrecarregados de gila do Sr. Fernandes que é cliente fiel da casa há quarenta anos. Pelo menos mais dez do que ela tem de aberta.

    Competindo em importância com o tronco defendido pela dona Perpétua, idosa-com-ares-de-Charles-Manson-se-ele-usasse-uma-jersey-como-as-de-Bill-Cosby-em-The Cosby Show, para quem interessar, saliente-se que por via adaptativa da Wikipédia se fica a saber que a Maior Árvore de Natal da Europa foi uma mega estrutura de aço e incontáveis luzes, oferecida pelo Millenium BCP ao burgo lisboeta em 2004, 2005 (com uma réplica em Varsóvia) e 2006, e à Cidade do Porto em 2007 (com uma réplica em Bucareste); em 2008 e 2009, via ZON TV Cabo, a árvore foi recolocada em Lisboa. “A maior altura atingida pela árvore foi 76 metros de altura, em 2007 (o que equivale mais ou menos a um prédio de 30/31 andares), sendo que em 2004 tinha apenas 62 metros de altura. Em 2008 e 2009, a árvore contou com apenas 44 metros de altura devido à sua localização, pois o local onde está instalada é uma passagem para aviões que descolam e aterram no aeroporto de Lisboa.”

As iniciativas não deixam dúvidas de que desde o contributo da Coca-Cola para o upgrade fashion do pai natal que é o tecido empresarial que dinamiza a época.

     Para deixar bem claro que o café "Deseja a todos os clientes um feliz e santo Natal!" o dono do dito, para todos "o Careca", fez crescer da vidraça principal uma mangueira com o diâmetro de uma anaconda em idade de infantário recheada de luminárias, neonizando a mensagem natalícia. Ao chegar à chaminé do prédio, a instalação descarna na ponta pelo que a electrocução pode ser uma possibilidade e um trote mais acelerado de Rodolfo pode deitar tudo a perder e transformar as crianças do bairro em órfãos desprendados. 

      Pelas onze horas, continuo a tentar convencer o empregado do café que "Só quero uma bica", mas ele permanece preocupado com os bolos de gila do Sr. Fernandes onde a dona Perpétua, idosa-com-ares-de-Charles-Manson-se-ele-usasse-uma-jersey-como-as-de-Bill-Cosby-em-The Cosby Show, se barricou em atitude Natural Born Killers das filhoses.

     O dono do Café, o Careca, alertou o empregado para o facto do Sr. Fernandes ser um cliente fiel com mais de quarenta anos de frequência da casa pelo que a minha bica fica para depois. Argumentei que era assíduo do estabelecimento há, pelo menos, quinze anos, mas, no fim, a década suplementar do Sr. Fernandes fez a diferença.

     O corredor-de-fundo-com-pernas-e-fita-na-cabeça-de-Serena-Williams continua a dar voltas em circuito fechado, deixando um rasto de gosma em posição centrífuga que permite saber rigorosamente o número de voltas já efectuadas. À excepção de um felino com pêlo Woolmark, todos os outros gatos desistiram.

    Pelos barulhos que saem do interior do automóvel do meu vizinho, este parece possuído e a precisar de um exorcismo. A minha vizinha, de cabelo impecável devido à Laca Pantene Pro-V Caracóis Definidos e Suaves continua desiludida quanto ao falso apocalipse de sexta-feira e permanece irredutível na varanda, expectante quanto ao desenlace mecânico do marido. Tão cedo não confiará em povos antigos que vaticinam fins do mundo.

E, ainda, só vamos na hora de almoço.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 13:05

III Boas Festas!

Domingo, 23.12.12

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:09

III O burro, a vaca e o vilão

Sexta-feira, 14.12.12

Gosto tanto do Natal quanto o próximo. Sou entusiasta das bolas coloridas, das fitas e das lâmpadas em intermitência controlada de semáforo hiperactivo. Preparo-me para ele com pompa e circunstância erguendo, entusiasmado, uma espécie de sambódromo natalício na sala de jantar. Trocando a batucada da Mangueira por um eterno I Wish You a Merry Christmas. A Vista Alegre perdendo preponderância para o pinheiro resinado que serve de esqueleto para as ambições festivas familiares.

    Não passo sem o Natal. Pelo menos uma vez por ano. Nem que seja o dos Hospitais ou em regime Jogos sem Fronteiras ou festival da Eurovisão.

De preferência como na canção de Irving Berlin em modelo White Christmas  (no original e não numa das versões que, como todas, acha que vai acrescentar alguma coisa, sem nunca o conseguir). De ar adocicado, a saber a rabanadas e sonhos. Clássico. Nada de devaneios pós-modernos trasvestidos de contemporaneidade.

   Sonho com Papai Noel anunciando-se triunfal, em vozeira estridente, imunizada pela mebocaína da época. Pronunciando em grito Weissmuler Tarzan das selvas do Pólo Norte: 

"Oh!, Oh!, Oh!".

As barbas brancas sobrando dois palmos do ano anterior, longe da adolescência pretérita.

Distribuindo brinquedos ou doces aos bem-comportados do mundo e carvão que ficou do tempo da revolução industrial ao lado obscuro da força, em vésperas nataleiras e em preparos vermelhuscos Coca-Cola/YMCA.

Rodolfo berregando altiva. Sapatinho a jeito e à mercê da generosidade alheia. Enfim...

   Estou alerta quanto aos perigos do consumismo próprio da quadra mas, nos últimos anos, tenho contribuído em bife tártaro e Ceviche para a proeminência da barriga de São Nicolau quanto o desejável. E não é por falta de bolota que vão faltar energias à rena Rodolfo de nariz encarnado. Por mim o desempenho de ambos não está comprometido e podem pôr-se à estrada bombando com resistência Duracell da Lapónia, via Vilar Formoso, até minha casa, seguindo por uma autêntica Yellow Brick Road com rasto de azevinho. 

  Outra tradição, também, importante e onde tenho, igualmente, ricos pergaminhos é a do presépio. Encetado sempre por musgo fresco capturado com auxílio Black & decker GR3420 in loco. Nada de modernices  made in Ikea  ou de aviário Aki.

Foi por isso, com surpresa, que após ser teologicamente informado das novidades percebi, para meu incómodo, que uma autêntica revolução estava em curso e um casting repentino se avizinhava, fazendo desaparecer actores até agora fundamentais no que ao presépio diz respeito.

   Permaneci, durante dias, assoberbado pelo sumiço dado ao pequeno zoo rural do presépio, por Bento XVI. O obreiro convicto da substituição. Revoltado com anacronismos e inconformado com imprecisões históricas e geográficas. Fauna questionada e figurantes, ancestrais devolvidos à devida proveniência. Os exíguos hectares da herdade divina, salpicados a mirra, dos quais faziam parte a pequena quinta biológica sendo ameaçados. Gaspar, Melchior e Baltasar remanescendo no estábulo, salvando o que podiam do costume, comparecendo pelos próprios meios. E eu, achando que são, realmente, misteriosos os caminhos do Senhor.

Admito que a alteração abre espaço, por entre a manjedoura, para mais prendas mas, após grande reflexão, disponível para abdicar do burro, continuo a reivindicar a vaca.  

 

Se não nos virmos, entretanto, Feliz Natal!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:25

III F*ck christmas i still got boxeurs

Sexta-feira, 30.11.12

"Lead on!" said Scrooge. "Lead on! The night is waning fast, and it is precious time to me, I know. Lead on, Spirit!"

Charles Dickens, A Christmas Carol.

 

 

O Natal primeiro é religioso. Mas, também, nos põe os familiares à mesa, agasalha-nos, perfuma-nos, põe-nos a ler e a ver séries, em quantidade caixa em edição especial, e renova-nos o stock de peúgas.

Também está no algodão das t-shirts por estrear ou dos boxeurs novos que ainda há pouco estavam debaixo da árvore de Natal. Nos aromas Hugo Boss, cujos bálsamos, ainda por penetrar, não estreitaram intimidades epidérmicas, nem conquistaram afugentando Denim a DenimOld Spice a Old Spice, espaço por entre os sinais remanescentes.

E, também, responde tendo Cadbury ou Toblerone por nome.

Está no Greatest Hits da Céline Dion que conseguimos na Amazon, fugindo a embaraços e reconhecimentos em filas, de Multibanco em riste, para presentear "prazeres especiais" de uma Jéssica Rabit conhecida.

No livro da Margarida da Rebelo Pinto que arrematámos, via auto-estrada da informação, abaixo do preço de um pack de iogurtes de aromas, e que nos obrigou a limpar o histórico do PC compulsiva e obsessivamente, receando implicações futuras e insinuação e assunção indevida de gostos.

     O Natal aproxima-se. 

Abençoadas as ligações rápidas às lojas on-line. Dêmos graças pelos talões de desconto.

Salvé, cartões Fnac!

Aleluia, cheques oferta!

    O Natal aproxima-se. Homenageia o Rui Veloso e não precisa de estrelas no céu.

Quem nunca voltou a pôr em circulação uma prenda oferecida que atire a primeira pedra. Quem nunca torceu o nariz a um embrulho do El Corte Inglês ou Bertrand, bem intencionado, que fale agora ou que se cale para sempre.

Quem não desanimou ante a abertura da lembrança, chorou ante a audição da oferta, empalideceu depois de ver o título e o autor da surpresa ou teve o sorriso a fechar-se ao ver o Vivaldi da Deutsche Grammophon a não ficar em casa.

   O Natal aproxima-se.  E está nos pormenores. Em não nos esquecermos de pôr o primo com o carro novo no extremo oposto a nós, durante o jantar de família.

Do "amigo" que nos ofereceu no ano anterior aquela prenda anunciada, por si, como "nunca vista" e dizer-lhe quando ele se depara com a gravata que lhe demos: "Na loja disseram que essa cor não ficava bem a toda gente, mas como conheço o teu gosto pelo "nunca visto" lembrei-me, imediatamente, de ti...". 

   O Natal é o nosso sobrinho a ficar com a consistência do musgo do presépio pela reacção alérgica à lactose por causa da sobremesa que insistimos que comesse.

É arrependermo-nos de não nos internarmos, voluntariamente, numa instituição psiquiátrica disponíveis para codeína,Valium e Prozac, esperando ansiosos pela chegada da Primavera.

É perdermos tempo a pensar como podemos desfazer-nos do corpo de uma octogenária (a avó da nossa mulher) que, porque está lúcida-e-diz-tudo-o-que-lhe-passa-pela-cabeça se engasga, acidentalmente, enquanto nos diz, quando nos apanha sozinhos, que a neta não teve juízo nenhum quando casou connosco. 

E, somando isso tudo, ficarmos incrédulos por não termos aprendido nada com os anos anteriores. 

São os nossos pais a contarem episódios embaraçosos sobre nós e os convivas gritando: “Bis, bis!” ou “Bravo, Bravo!”.

É anotarmos, mentalmente, desculpas para justificar a nossa não presença no próximo ano e, sendo a morte a mais convincente, treinar argumentos que tornem credível a nossa ressurreição a tempo da passagem de ano.

É a meio do jantar ficarmos melancólicos e lembramo-nos do ano anterior, da altura em que começávamos, mentalmente, a contar cadáveres por causa da nossa irmã, em encantamento de Nárnia, ter começado um flirt assanhado e cerrado a alguém-que-era-amigo-de-alguém-e-que-não-tinha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal e o nosso cunhado a arregaçar as mangas e a dar-se ares de quem não está disponível para pôr a loiça suja na máquina, mas vai acabar a lavar a honra.

E suspirar ao lembrarmo-nos de que até ao final da noite e de três garrafas de tinto da Adega Cooperativa de Borba o alguém-que-era-amigo-de-alguém-e-que-não-tinha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal e o cunhado Tony Soprano ficaram os melhores amigos.

E concluirmos que o espírito de natal é conciliador e sentirmo-nos recompensados pelos natais passados. Que a couve portuguesa quando bem cozida e acompanhada por um belo naco do fiel amigo faz sobressair o melhor que há em nós, como um rímel adensando o azul da íris. 

  Felizmente, o mito de que o Natal é quando o homem quiser, não passa disso mesmo.

Digo isto com o melhor dos intuitos, inspirado pelo sentimento da quadra e desejoso por partilhar, rapidamente, a mesa com a avó octogenária da minha mulher, lúcida-e-que-diz-tudo-o-que-lhe-passa-pela-cabeça, mais alguém-amigo-de-alguém-e-que-não-tenha-sítio-para-passar-a-noite-de-Natal, o meu sobrinho pronto para ficar com consistência de musgo e demais familiares e amigos. Estou disponível para dar e receber prendas desnecessárias, despropositadas e prontas para serem, novamente, postas em circulação.

Mas, uma maior frequência natalícia e, pessoalmente, não saberia como lidar com tanta emoção. 

E, além do mais, como sou estimadinho os boxeurs que me oferecem, pelo Natal, costumam durar-me um ano inteiro.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 12:48





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