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III My pink Cadillac

Terça-feira, 20.03.12

Não sofro da espondilose saudosista aguda do When i was, mas… Aos treze cruzei-me com um professor de educação física (que deixou saudade às turmas) que nos ajuramentou num dress code de branco total (quase até à transparência): calções, t-shirt, peúgas e sapatilhas. A imposição transformou-nos em autênticas virgens suicidas. Foi o meu primeiro contacto (forçado) com o universo Sanjo. Confesso que o meu entusiasmo foi involuntário. Garanto, porém, à comunidade pedagógica, mais hippie, que a «orientação» coerciva parental não foi prejudicial ao meu desenvolvimento harmonioso. A juntar a este episódio a partir de certa altura era impossível não ouvir os Run DMC «cantando» My Adidas (not under Aerosmith´s Walk this way influence). A pressão era enorme. Sanjo? Nah. Pressure, pressure, pressure.

    2012. Março. Comprei uns Sanjo. A dificuldade foi escolher a cor. Optei por cor-de-rosa. Vingando os Sanjo brancos de outrora, arautos da higiene e da pureza. Uma escolha que se demonstrou polémica. Prontamente vigiada. A inveja é perspicaz.

    Revivalismo? Talvez! Mas a juventude continua perdida. Não voltei aos treze. Claro! Não é o caso. Até porque quando os calço é como se fosse a bordo de um Cadillac. A estrear. Cor-de-rosa. E para isso é preciso carta.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 13:21

III O caso da folha suícida

Quinta-feira, 15.03.12

[Conto surrealista sobre a relação, tensa, na escrita, entre homens e objectos]


 

Aqui se conta o relacionamento conturbado de determinada folha – branca – e uma caneta de tinta permanente (adquirida a um brigadeiro com problemas de jogo (póquer)), cujo envolvimento culminou num alegado crime passional. Não serão citadas marcas e os intervenientes indirectos permanecerão no recato.

       - Bloody hell! – vociferou o escritor quando se deparou com o sucedido (a folha brutalmente rasgada), atirando a caneta, ainda estremunhada por ter saído recentemente do estojo em veludo vermelho e tampa com brasão,  para longe, afortunadamente, sem a ferir, frustrado por não conseguir terminar a frase que as musas lhe haviam inspirado momentos antes:

         - A fé não serve para muito, mas sempre dá para mover montanhas.

Isto na língua do narrador, a quem se permitem certas veleidades, e não na do escritor que era inglês e de Paddington.

        - Logo agora! – lamentou a caneta, em defesa do escritor, com o aparo rombo pelo acidente, recuperada do trambolhão, enquanto a folha se contorcia rasgada.

        - Ai, Ai – queixou-se a folha, agonizando.

        - Que maçada – continuou a caneta pouco impressionada, com o aparo ultrajado – E tu? – interpelou ela à musa – Nenhuma ideia?

A musa sentada à cabeceira da secretária do escritor encolheu os ombros ao ver o buraco na folha.

Era um buraco grande. Não havia dúvida. Dava até a sensação de ter ultrapassado o último parágrafo e saltado até ao antepenúltimo.

        - Ai, ai – queixou-se, novamente, a folha.

      - Vá coragem! – incitou a caneta de tinta permanente com o aparo ligeiramente encrespado.

As autoridades acabaram por chegar ao local pelas 17h30. «Trata-se do caso de uma folha rasgada», confirmaram com veemência ao juiz no dia do julgamento.

       A caneta de tinta permanente foi acusada. Apesar de ser de colecção. A lei não se compadece com canetas de aparo dourado, porte nobiliárquico e modelo do princípio do séc. XX. Atentara na parte mais frágil - a do ponto final – de uma folha em branco vulgar de gramagem normal para escrita (embora permitindo dobragem e pintura simples) e altivez tísica rasgando-a criminosamente, por rivalidades antigas, sem honra nem glória.

A pena? Cento e cinquenta cópias monótonas e um ano sem poder exercer escrita criativa. Do resto nada se sabe porque está protegido por segredo de justiça.

      A família da vítima vendo a folha privada precocemente das suas potencialidades resolveu recorrer, por considerar a pena demasiado branda. Alguns adultos atemorizados pela folha em branco defenderam o agressor.

      O processo continua a decorrer, após ter sido aberto um novo inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu o acidente e peritos em folhas em branco A4 estão a ser consultados. Fosse ela uma folha A3 e tudo seria mais complicado.

      - Porquê ela? – interrogam os familiares. Relembrando todas as folhas que tombam anónimas e as que estiveram na origem de obras como a Metamorfose, D. Quixote, Madame Bovary ou até os Lusíadas e que são constantemente preteridas em relação ao livro acabado.

A tese de suicídio começa, entretanto, a ganhar consistência. «Harakiri», esclareceram os especialistas em folhas A4 brancas. Parece que a folha tinha papel de origem japonesa e andava deprimida.

     Desiludido o escritor desfez-se da caneta de tinta permanente, trocando-a por uma daquelas modernas de ponta fina que falham facilmente, com que palavra a palavra, frase a frase vai continuando o seu trabalho até precisar de outra folha.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 14:10





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