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III Ela move-se

Quarta-feira, 04.07.12

 Para a M.

 

Lembro-me que se percebiam [adivinhavam] porções minúsculas de gente. Sombreados nebulosos. Turvos. Começando aos bocadinhos. Largados de nós para si. Uma galáxia tímida organizada em torno de pequenas orbes em gestação, aproximando-se perigosamente da crosta interna da barriga, nadando numa via láctea amniótica de vida: coluna, rins, braços, pernas, etc., etc.

E eu entusiasmado como um Galileu Galilei imprudente, satisfeito com o veredicto que confirmava a minha descoberta: ser pai.

Ansioso. A aprender. Atento.

Animado. Aos pulos.

Conquistado. Domado. Babado antes de tempo.

Esperando-a. De colo pronto. Mais o medo, a inexperiência, as suspeitas, os avisos e os conselhos.

Nome escolhido. Mala feita. Feliz.

Gritando: «Mas ela move-se».

Enquanto ela se agita, boiando em elipses titubeantes, gozando a claustrofobia uterina, em contagem decrescente.

A postos.

Nós disponíveis.

   Ela move-se, comprovo com a ajuda do telescópio ecográfico, cego por um mundo criado por mim, gerando-se, evoluindo em eras mensais, gravitando em rotação e translação na parte que desejo ser a melhor em mim e que bate acelerada: o meu coração.

   Ela move-se. Como se dissesse olá. Ou, até já! Preparando-nos. Sorrindo-nos de volta?

O telescópio, em observação programada, registando em DVD o que já estava no mais íntimo de nós.

Confirmam-se medidas, distâncias, proporções.

Prova. Contraprova.

Comparação. E demonstração.

Membros?

OK.

Órgãos?

OK.

Desenvolvimento?

OK.

Tamanho?

OK.

Mobilidade?

OK.

É bonita?

Isso pergunta-se?

Faz lembrar mais o pai ou a mãe?

Bem…

   E depois nasceu.

   Faz hoje sete anos.

   E eu continuo a achar que é mais parecida comigo.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:21

III Isto de ser pai...

Segunda-feira, 25.06.12

Isto de ser pai dava emprego a pelo menos mais três pessoas. Consome tempo e mão-de-obra suficientes. É uma canseira. Acrescenta rugas. Prodigaliza cabelos brancos.

Toda a gente quer ser o melhor. Fazer o máximo. Cortar a meta em primeiro lugar. Mas, temos sempre a sensação de andar com uma volta de atraso em relação ao exigido.

Não há aquecimento prévio. Ou treino. Nenhum sítio para aprender o bê-á-bá.

Dispara-se às cegas. E em todas as direcções.

   Lamentamos os nossos erros (diferentes, novos) e os do nosso pai (que jurámos nunca cometer), que nos podia servir de exemplo. Mas, se há ocasião em que a história se repete é na paternidade.

   Percebo agora porque os caminhos entre mim e o meu pai tantas vezes se descruzaram. Sem culpas a atribuir. Ele sendo pai e eu comprometido com a minha parte (de filho). Cumprindo-a. Escrupulosamente.

   Isto de ser pai facilmente baralha. E dá de novo. Uma vez o processo iniciado, não dá para não ir a jogo. Ninguém perdoa renúncias.

   Há tantas opiniões de como sê-lo, quanto o número de pais. Desacordo geral. De quem lamente ao ponto de estar convencido tratar-se de uma overdose sem as partes fixes associadas a uma vida de rock star. A uma experiência mística.

A minha opinião? Algures entre ambas. Às vezes não se sabe. Se dói. Se fique, se vá. Se grite, se chore. Outras, enganamo-nos. Exige procurar conselhos, quando os há. E inventa-se pelo meio.

Em certas ocasiões aprendemos com os erros. Mas, nada é garantido.

Resmungamos.

Duvidamos.

   Isto de ser pai tira-nos do sério. Troca-nos as voltas. Desconcerta.

Oprime. Nenhum lugar é seguro. Nada é sagrado. Em constante estado de sítio.

Constrange.

É um abuso. Desarruma-nos a casa e parte-nos a loiça. Toda. Os pratos de estimação são os primeiros.

Baba-nos.

Lixa-nos. Violenta-nos.

Obriga-nos a tudo.

Dá-nos umas merdas de umas noites. Uma porra de umas férias.

Vontades de...

Rebenta-nos com a vida social. Transforma-nos em bichos-do-mato.

Atrapalha-nos a libido. Seres assexuados. Arrependidos do pecado original. Pagando por ele.

Quando pensávamos que já estava...

Fugir nunca é a solução. É pena! Nem isso.

   Isto de ser pai é para acabar de vez com o nosso egoísmo. É de darmos a vida.

Se a gente pensasse bem…

Se estivéssemos atentos ao que fizemos ao nosso…

   É a paga de sermos filhos. Com juros.

De ter partido a cabeça naquele sítio. Perigoso.

Termos faltado com o prometido.

Escapado ao castigo.

Falhado com o trabalho final.

Atrasados para o compromisso importantíssimo.

Escolhido aquela namorada, com visual trash de Courtney Love. Recebida de dentes cerrados com um: «muito prazer».

Festejado até àquela hora. Sem telefonar.

Ficarmos parvos na adolescência.

   Isto de ser pai é estar sempre a aprender. É para toda a vida. E não se muda de campo.

É inexplicável.

Dá-nos a certeza de que tudo vale a pena.

Não tem preço.

É de não haver nada de mais importante.

É coisa para não trocar por nada.

Só passando por isso.

Recomendo.

   Isto de ser pai é, afinal, o melhor que nos podia acontecer.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:17









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