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III Como fingir um sorriso

Domingo, 05.08.12

Não sei se é a melhor altura, mas tenho uma confissão a fazer: sou um grande apreciador de sorrisos. Incho perante eles.

Não sei que vos diga. Não me vou justificar nem tenho como negar.

A verdade é que um sorriso me deixa embasbacado. Quando vejo um triste fico triste. Com um alegre fico, automaticamente, bem-disposto. Porquê?

Talvez seja a sua personalidade: tímido, depravado, inocente, corajoso.

Devido à diversidade: esfíngicos, de boca cheia, sardónicos, honestos e sinceros, histéricos, radiosos, grandes e expansivos, cínicos, de Mona Lisa ou Joker, escárnio ou desdém.

A origem, também, não me é indiferente: medo, consolo, contentamento, excitação... Ou, simplesmente, porque nos leva a... Francamente, quase tudo!

   Um sorriso certo no lugar e altura certas faz estragos. É uma coisa séria. Até porque para baralhar, há quem tenha olhos que riem e um ar engraçado que nos desconcerta.

   Se os olhos são o espelho da alma, um sorriso é uma etiqueta elucidativa apensa.

Há até quem garanta que quando for a altura de ir de vez, a melhor maneira de acabar é com um sorriso (definitivo).

   Um sorriso diz muito de nós e deixa perceber muito dos outros. São importantes migalhas que vão ficando nesse grande labirinto que é darmos com aquilo que somos.

Devia ser candidato a uma condecoração especial por elevados serviços prestados.

   Há qualquer coisa no sorriso que impressiona, desarma, alegra, conquista. Um sorriso vence sempre! Devia ter prioridade sobre tudo o resto.

É a melhor forma de enfrentar, reagir e levar as coisas.

  


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publicado por Carlos M. J. Alves às 21:42

III Tremo só de pensar em ter calma

Segunda-feira, 02.04.12

Há sempre algo que nos aborrece. Que nos consome. Que nos faz saltar a mola. Ou a tampa. Disparar a válvula. Algo que nos faz perder as estribeiras. Passar dos carretos.

A palavra que não conta. O orçamento que não vale. O horário (in)flexível. A fila que não é respeitada. O trânsito desgovernado. O imposto em que se volta a mexer. O combustível que torna a aumentar.

   Há alturas em que perdemos o cool que existe em nós. O porreiraço enviesa. Abandonamos a atitude party people. Ficamos cheios de mau-vinho. Zarpamos do Harlem Shufle groove e sheet will happen. Abram alas.

A paciência esgota-se. A compostura desaparece. Escapa, por entre os dedos. A calma extingue-se como os dinossauros, saltando eras.

Tornamo-nos Samuel Jackson (Jules) em Pulp Fiction, pregando:

 

There's a passage I got memorized. Ezekiel 25:17. "The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of the darkness, for he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy My brothers. And you will know I am the Lord when I lay My vengeance upon you."

 

E depois é o caos.

   Mas há sempre alguém com vocação conciliadora. Com temperamento diplomático. Um Xanax com pernas. Um Valdispert com olhos. Os “acalmadores”. De palmadinha pronta para aplicar nas costas (as nossas). Alguém que solicita ao pau-mandado que gostava de ver em nós: «Vá lá, tem calma!».

Justificando, com as contas feitas: «Não vale a pena chateares-te».

E nós ainda com a prova dos nove por fazer, já temos o troco em condições de ser devolvido. Achando que há sempre algo a ganhar. Se formos a jogo arriscamo-nos a conquistar a Champions. Graças à nossa audácia. Que se lixe a calma!

   Acalmar é desistir. É ir parar ao banco.

Protestar. Esbracejar. Praguejar. É para quem joga à frente. Ao ataque. Desde o início e até ao fim do desafio.

De nada vale dizer: «Vá, tem calma!».

Acalmar enerva [Gritado]. A calma é o que mais me irrita.

O “ter calma” não leva a lado nenhum. É um empata.

I lay My vengeance upon you, e acabamos aos tiros com Mr. 9 mm. Isso sim, é opção.

 “Ter calma” é um coito interrompido. É deixar o serviço a meio.

Ter calma não é natural. How can you have a day without a night, perguntavam os Massive Attack em Unfinished Sympathy. Impossível. Como ter um ser humano que não se enerva com nada.

Não merece respeito. O meu pelo menos. É um coninhas.

Se tivéssemos nascido para ser calmos não tínhamos nervos. Já perdemos tanta coisa na Autobhan evolutiva que ninguém daria pela falta de mais isso.

   Todos temos o nosso rastilho. O nosso pavio curto. Quando me dizem “tem calma” tremo. Ao segundo “tem calma” a minha lava revolve-se. Ao terceiro eclode em mim um Vesúvio e temos no mínimo duas Pompeias pelo preço de uma. O meu grau de tolerância não vai tão longe. Manca. No máximo suporto um “tem paciência”. Tops.

   Não preciso que me lembrem os maus livros dos meus escritores favoritos. Que votei mal. Quando oiço pronunciar Bee Gees franzo o sobrolho. Ao avistamento de um exemplar de Nicholas Sparks, rosno. Paulo Coelho, parto para a violência. ABBA e já sou homem-bomba.

Não quero ter calma. Para mim a calma não é para “ter” é só para saber que “existe”. Tem clientela própria como a Quinta da Marinha ou Vale do Lobo. 

O “ter calma” enerva-me. Mexe-me com os feles. Dá-me cabo dos fígados.

Ao primeiro “tem calma” saio do auto-controle para comprar cigarros e nunca mais volto.

O “tem calma” atinge-me com precisão de sniper. Vai-me cirurgicamente aos pontos vitais da minha pachorra.

Fecha o tribunal da contenção (com ponte assegurada) e abre a portinhola da justiça pelas próprias mãos.

Parto, imediatamente, para a ignorância. Digo [Gritado]: “#$&%%$&%/*1(/+?

   Hipertenso? Claro.

Adoro o sabor a Nebilet 5 mg pela manhã. Inteiro. É um pequeno preço.

O quanto não vale um valente murro na mesa!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:33

III A Máquina da Preguiça

Domingo, 25.03.12

Greed is good. Sex is easy. Youth is forever.

 Bret Easton Ellis, The Informers

 

Partamos do pressuposto que o pecado é uma realidade. Uma certeza como os vampiros de Stephenie Meyer em Twlight e nas séries da FOX. Podemos dizer em relação a eles que: a ira nos estrangula a tensão arterial, a inveja nos vai secando, o orgulho isola-nos, a gula ataca-nos o colesterol e diabetes, a avareza corrói-nos. Mas a preguiça… a preguiça é o menor dos pecados. Inteiramente desculpável.

Semi-opcional. Podemos dizer: «hoje não me apetece fazer nada» e ser admissível. Uma fase. Uma anomalia. Temporária. Disfarçável. Um hobby (uma preguiça com objectivos) serve perfeitamente para procrastinar e faculta uma desculpa para não nos dedicarmos a coisas mais importantes.

    Orgulho, luxúria, gula… possuem seriedade e respeitabilidade superiores.

   A maior ameaça ao pecado para além da moderação é a idade. Com ela limitam-se as opções. Percebemos que estamos velhos quando começamos a ficar preguiçosos. O que nos resta.

   Num mundo de empreendedores a preguiça é um luxo. Tirando isso… não se pode comparar com a gula, por exemplo. Ter dificuldade em levantar-se não se compara com merendar quatro tobleron gigantescos sem intervalo e ficar com uma fraqueza. Não se pode equiparar a luxúria à balda a uma aula ao tempo terminal ou de um trabalho de casa.

   A preguiça é o mais maneirinho dos pecados. Não compromete. À partida pode nem implicar terceiros. Não prejudica ninguém a não ser o próprio. A preguiça devia ser considerada um não-pecado. Uma escusa à virtude, na melhor das hipóteses. A preguiça liberta-nos do hedonismo. Mais vale sermos virtuosos. Somos um Dexter domesticado. Um tareco à trela e a Whiskas.

   Um pecado exige soberba. Menos que isso é nada. Não existe a não ser noutra dimensão (na Twilight Zone e com a condescendência de Rod Serling).

   A preguiça tem uma característica amigável, pacífica, não algo de que se foge como o diabo da cruz. Como a ira que nos recruta para a hipertensão.

  A preguiça repousa-nos. Amansa-nos. Poderemos imaginar-nos lobos, mas não ultrapassamos o cordeiro manso. Não acrescenta peso (ou menos do que a gula), nem ritmo cardíaco. O único risco em relação aos preguiçosos é o de morrer à sede. Mas isso é um mal menor.

É o único pecado que nos dilata a longevidade. O preguiçoso não se apoquenta. Não se esforça. Não cai em exageros. Com a preguiça fica-se Zen.

Com a preguiça vamos ao tapete. Dispensa testosterona. Até porque pode ser, somente, um mandriar.

Só exige paciência. De Job.

É o mais burguês dos pecados. Uma chatice.

     Salvé dias de luxúria. Ó desejada vaidade. Abnegai-vos na ira. Sede servis com o orgulho.

Devemos desconfiar dos preguiçosos e admirar os glutões. Venerar os que passam a vida irados e envoltos em vaidade. Os que vivem para a luxúria.

    Era o que eu faria se não fosse a idade. Mas, não vale a pena propormo-nos correr a maratona quando só nos resta pernas para 100 metros. Não se pode aspirar a actividades radicais quando só conseguimos estar à altura dos jogos de tabuleiro. Que é como quem diz: temos os olhos postos na luxúria mas, a partir de certa altura, sobeja-nos a preguiça. Sonhamos com os prazeres da carne mas não vamos além de um acordar domingueiro, sonolento e espreguiçado de braços abertos, de par em par, como cristo redentor: preguiçosamente. Os demais pecados são para os mais novos. Passa a ser uma questão de saúde e não teológica. Os dias de luxúria e gula são uma saudade. O que continua em vontade falta-nos em corpo. Por falhas várias na manutenção. Ninguém pode ser glutão se tem problemas com açúcares e gorduras. Apesar de ser um descafeinado vale-nos a preguiça.

E se houver uma máquina…

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publicado por Carlos M. J. Alves às 17:52





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