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III Relativizar por aí

Sexta-feira, 15.11.13

A partir de hoje vou relativizar.

Passo a desvalorizar e a encolher os ombros.

Vou tirar importância às coisas. Passá-las de extrema a assim-assim e achar que não é tão mau como parece.

Vou enganar-me de propósito. Trocar códigos e PIN.

Não vou reparar em rugas, passo a descontar cabelos brancos e acabo a subtrair quilos a mais.

Tirar tempo aos atrasos e, por minha conta e risco, juros à dívida.

Aproximar distâncias e saltar degraus.

Vou abrandar a pulsação e diminuir batidas por minuto.

Abolir solenidade às cerimónias, abandonar ralações e por de lado preocupações.

Vou vencer o stress, desbaratar complicações e recuperar horas de sono perdidas.

Pânicos e desesperos não são para mim!

Não vou em crises!

Vou por fim às azias e mal estares, tirar graus à febre e não dar importância às alergias.

Acabaram-se as maleitas!

Vou ganhar anos.

Rejuvenescer.

Acabar, praticamente, recém-nascido.

Serei optimista. Passarei a descontrair, a desconsiderar, a deixar-me de pressas, a evitar confrontos e iras.

Acharei que há pior, que não vale o sacrifício, que se pensar bem… que depende do ângulo.

Vou andar de olho nas perspectivas e amantizar-me com o deixa andar.

A minha frase favorita vai ser: “pensando melhor…”.

Saindo de fininho quando a coisa der para o torto.

Nada será como dantes.

Estou a falar a sério! Muito a sério. Os dias não estão para brincadeiras.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:52

III Em relação a optimismo, sente-se com sorte?

Sábado, 23.03.13

Por causa do que vejo e pelas provas dadas, dificilmente caio em optimismos. Sou realista. Não acho que valha a pena e poupo-me aos embaraços.

   De antemão conto com desvalorizações, o défice mais terrível, as percentagens mais horríveis, mercados hostis, taxas não previstas, críticas negativas, aguaceiros súbitos, nevoeiros e temperaturas a baixar, escaldões, intoxicações alimentares e febres.

Temo-me às circunstâncias e conjuntura. Não conto acabar antes do fim do tempo, não me aventuro no prolongamento e não arrisco para lá do prazo de validade.

Não embalo nem canto vitória antes do tempo. Precavenho-me das dificuldades e protejo-me das desilusões, com factor extra forte, imunizando-me contra todas as estirpes de esperança.

Pelo sim pelo não penitencio-me em relação à tentação dos entusiasmos infundados, em contrição pelo deboche já vivido por causa do risco, enganadoramente, calculado.

Prefiro um pessimismo que não se concretiza a um optimismo despropositado. Por regra pinto o pior dos cenários e lanço-me, voluntariamente, num purgatório de hesitações e planos gorados e fico à espera.

  Em relação ao optimismo sou céptico. Não tenho a certeza e as minhas expectativas são, extremamente, baixas. Assim, garanto-me, ninguém sai prejudicado.

  Optimismo? Tenho dúvidas e não vou ao engano. Vejo-o como irrealizável: uma miragem. O pior dos oásis: aquém do caudal exigível, tâmaras desidratadas e palmeiras contaminadas e em inferno fitopatogénico. 

   Ocasionalmente prometo que tudo vai correr pelo melhor, mas no fundo aguardo os piores resultados e não espero saídas repentinas ou reviravoltas. Repito que vêm aí melhores dias, mas continuo com coelhos por tirar, definhando de malinas, ainda nas cartolas.

O meu saldo permanece negativo e inferior à media mais optimista.

   O optimismo tem-se de véspera e é para quando não se sabe para o que e que se vai ou não se sabe com o que é que se conta. 

Eu, que prefiro a concorrência [o pessimismo], acho-o enganador e considero que só atrapalha. Não é certo e às vezes tira férias quando mais precisamos dele. Não é seguro e por isso as contas saem furadas. Troca-nos as voltas. É contraproducente. A maior evidência para provar o que afirmo é que se fosse bom negócio a economia não estava como está.

"Como o seguro morreu de velho mais vale não cair em excessos de confiança.", repito para mim. Não se justifica. Bom, bom é ter certezas.

Mais vale não ter ilusões. Moderar nas aspirações e contentar-se com o possível. Até porque às vezes não há volta a dar e é constrangedor quando as previsões [mais optimistas] não se concretizam.

  A verdade é que guardo grandes mágoas por não ser mais optimista, embora perceba que nem todos o podem e conseguem ser.  Só os que não precisam de garantias e que não se importam de caminhar às cegas. Infelizmente, não gente [como eu] com olhos bem abertos e a precisar de ver por onde vai.

  O optimista é facilmente reconhecível. Vive de votos e orações. Embora caia em logros, é afoito, temerário: fecha os olhos e lança-se ladeira abaixo. Em pleno inverno já tem os olhos postos na primavera.

Anda de bem com a vida. Acha que consegue e que tudo vai correr pelo melhor.

Escapa ao expectável e ao inusitado. Conta com uma ajuda extra. Fica com a última senha. Arranja o último bilhete. Fica com os melhores lugares da sala. Só tem dias bons de praia. E tem período de descanso nos dias certos.

  É preciso ter o espírito certo para ser optimista. 

Um optimista topa-se à légua. É inconsciente, confiante, desenrascado. Acredita sempre em dias melhores. Acha que não se perde nada. Safa-se. 

Sai de casa bem disposto. Sem chapéu-de-chuva, em mangas de camisa e à justa para o emprego porque não apanha bicha. Se o carro não pegar arranja logo boleia. Não fica retido pelas greves. E apanha Táxi em sítios impensáveis e a horas improváveis.

Escapa às alergias e às constipações da época.

Salta para a frente na lista de espera interminável.

   É por essas e por outras razões que tenho pena de não ser optimista. Se for algo que se treina, estou disposto a entregar-me ao regime mais rigoroso. Se for uma questão de investimento, deposito nele todas as minhas poupanças.

Até porque, na minha opinião, o optimismo só é mau numa ocasião: quando a sorte se acaba.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:05

III Questões de estilo: o gozo da ironia

Sábado, 02.06.12

A mind is like a parachute. It doesn't work if it is not open.

Frank Zappa

 

Frank Zappa

 

Uma epígrafe é um appetizer. Usamo-la por questões de interesse. Para deixar água na boca. Alimenta-se de créditos alheios. Mas vive em paz com isso. Quem somos nós para interferir? Não faço juízos de valor. Foi o que pensei quando escrevi a frase acima. Não com tantas palavras, claro!

Usei Frank Zappa. Em aplicação suave de uma linha. Em auto-contenção. Não há ninguém que consiga dizer tanto sem se preocupar com a linguagem. Há que admirar isso. Estou de consciência tranquila. Sei que o tenho feito.

Inevitavelmente acabaria por falar dele. Só precisava de um pretexto. Ou meio. Poderia ser acerca da música, da sua criatividade, do seu gosto por usar mosca e bigode, como fica bem de Mona Lisa, da composição, da interpretação, da guitarra ou da dúvida «Does humor belong in music?».

   Epígrafes à parte, muito poderia ser aproveitado de Zappa. Momentos simples, mas significativos. Especiais. Vestidos de Freak Chic.

Ensinamentos valiosos como: never discuss philosophy or politics in a disco environment.

Posições sobre a sexualidade: Take the Kama Sutra. How many people died from the Kama Sutra, as opposed to the Bible? Who wins?

Questões de preferência: Tobacco is my favorite vegetable.

Etc.,etc.

   Resolvi ir à raiz. À arte (mais uma) de que se fez especialista e aperfeiçoou ao longo da sua vida: a ironia. Ecoando em Dolby Surround. Thank you, Frank.

Podíamos falar de House M.D., Hank Moody, mas isso é ficção. Zappa é a realidade. O artesão mor. O mestre da ironia. Mr. irony himself.

   O meu gosto pela ironia é antigo. Amor à primeira vista. Por causa dela já me acusaram de gozão, sarcástico e, claro, irónico. Foi, por isso, um dia feliz quando descobri que, algures, a good looking fellow chamado Zappa sentia o mesmo por ela. Um menage a trois linguístico surgiu.

   Ironia me encanta. É desinibida, sem ser oferecida. É um sim, sim, coração! Um já te atendo. Um sabes muito, mas andas a pé. Um tás aqui, tás ali. Ou vou ali já venho.

A ironia é uma bandeira verde para o sarcasmo.

Sem ironia não tínhamos Sócrates. O da antiguidade. O outro dá-se mais ares de personificação. Do mal!

   Não vou em alegorias, parábolas ou pleonasmos. Para mim hipérbole é coisa de alguém que apanha uma perca e acaba a descrever um espadarte. O eufemismo serve apenas para pôr água na fervura. Permitir um estás-me a entalar e eu a ver. Paninhos quentes? Um embaixador da boa vontade.

A metáfora é em termos comparativos uma drag queen espalhafatosa.

A antítese é um diz e desdiz. Um político hesitante. Um árbitro a compensar penalties mal assinalados.

Nenhuma me satisfaz. Mas a ironia…

   Talvez fosse melhor ter começado um pouco atrás. Contextualizando a odisseia. Noutro tempo, a figura de estilo era coisa para saber na ponta da língua. Hoje é coisa antiga como ir às sortes e acabar na marinha.

É pena. Sem figura de estilo não havia «amor é fogo que arde sem se ver». Ou M. Sá-Carneiro escrevendo sinestético: «Gritam-me sons de cor e de perfumes».

A figura de estilo condimenta. É um molho-à-espanhola ou de escabeche. Um sal e pimenta.

Acorda o palato.

Necessita de um Anthony Bourdain para ser descoberta, para lhe transpor os bojadores.

   Resumindo, se a cada prato seu tempero, em termos de figuras de estilo, se tivesse que optar género «gostas mais do papá ou da mamã?» ficava-me pela ironia. Não por exclusão de partes. Por vocação. Por questões ideológicas. Talvez seja o Zappa que há em mim.

Tanta culinarice acabou por me abrir o apetite.

Logo agora que andava a pensar numa dieta.

Irónico, não?

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:47

III O gosto, digo, A arte de complicar

Terça-feira, 15.05.12

Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor.

 

Navalha de Ockham

[William de Ockham, frade franciscano inglês do séc. XIV]

 

Ser complicado é um arrepiar caminho para a desistência.

É ser português. No que tem de pior em sê-lo.

Um luxo. Sai caro.

Acaba-se sem nada. A precisar de consolo. De colinho.

Quase prefiro asneirar. Asneirar é pisar o risco. Complicar é…

Bem, complicar é complicar. Não são precisas grandes explicações.

Sabem do que estou a falar. É o contrário de relativizar. A outra face da picuinhice. O plano oposto do deixa andar.

A complicação é inexpressiva. Com e sem botox.

Actua sem se dar conta. Nisso é como as vacinas.

Mas acaba por matar. Como um vírus mortal.

Simplicidade, isso sim é uma qualidade. Mas, rareia…

   Por questões de stress, produtividade, índices de felicidade e falta de pachorra, às vezes acho que não devia complicar. Esse elemento podia e deveria ser-me contabilisticamente retirado.

O título do post é um exemplo da minha incapacidade de o conseguir. Sem prémio de consolação para a minha desmotivação.

   A mudar alguma coisa em mim seria a minha mania de complicar. Acerca de fumar, já falei primeiro (desesperado) aqui, aqui e depois aqui (inchado como um peixe balão). Mas, o que lá vai, lá vai.

A minha vontade era ter audácia épica de Eneida para deixar de complicar. Entrar num restaurante com reconhecimento Michelin e, inconsciente, não me negar a manjares e néctares e permanecer sereno mesmo quando, tranquilamente, solicito a conta que sei não poder pagar. Sem complicar. Como quem tem uma Troika pessoal à perna e isso não o preocupa. Um Howard Stern aspirando, sem condições, a nobel da paz mas convencido da vitória certa.

É caso para dizer: «Se eu tivesse juízo, não queria saber».

Porquê?

Na expressão do produto da “realização pessoal” [a eterna subtracção entre o feito e o que ficou por fazer] temos:

 

{o já feito [(trabalho+empenho) - capacidade para complicar] - o que ficou por fazer}

sonhos+ambição

 

Tudo seria diferente se não contássemos com as complicações. Oh, dias de grandes realizações! Complicar atrapalha. Desmotiva. Faz desistir. Reduz.

É uma óptima maneira de arruinar boas possibilidades.

De evitar arregaçar as mangas.

“Não vou dizer isso”, “fazer aquilo”, porque… Hum, se fosse bom não estava guardado para mim.

Um pesadelo sem ser preciso estar a dormir.

É nascer a querer ser já crescido.

É um driblar-se a si mesmo.

Exige sempre um impresso suplementar.

Suscita a dúvida e a hesitação.

Quem complica não dá mundos ao mundo.

É partir e repartir e ficar com a pior parte.

Pode, eventualmente ter o seu quê de preventivo. É um Pantene Pro-V, bem intencionado, no resguardo do couro cabeludo. Mas não passa disso.

Evita, por exemplo, mais candidatos para o Ídolos.

Mas…

   Se a complicação fosse uma música seria uma marcha triunfal. De melodia fanfarrona. Quem não passa sem ela?

   “Complicar” está nos antípodas do “deslumbre irrealista”. Algures entre Nelson na Nova Zelândia e o Mogadouro.

Sem pensar muito no assunto, repetindo para mim «descomplica!»,  o meu sonho é um destes dias ocupar Paris. Metaforicamente falando, claro! Isso seriam dias de grandes realizações.

   Contra os canhões marchar, marchar!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:38

III Já quis ser...

Segunda-feira, 14.05.12

Depende. Varia. Muda-se de ideias.

Algumas são estranhas. Do género: #$£∑w*Ø≈?@ 7

Não há impossíveis. Ou não parece.

Fazendo um balanço, nalguns casos embaraça-nos voltar a pensá-lo.

Há quem goze.

Esquecemo-nos. Outras vezes não. Nas restantes é o melhor.

Para o conseguir não basta ser crescido.

Nem sempre é relevante. No entanto…

Cada um sabe de si. Não vale copiar!

Fica a minha lista [resumida] do que já quis ser. Subtraindo os suspeitos do costume.

Semelhanças são mera coincidência. Mas vale na mesma!

 

outra coisa

não podendo sê-lo

uma Pop Star

guitar hero

escocês

(in)justo

isento

capaz de rogar pragas

imune

de ideias fixas

fora-da-lei

mais crédulo

imperturbável

alheio

herói

finalista

totalista

vencedor na lotaria

adepto do clube campeão

capaz de olhar em frente

optimista

vidente

capaz de encontrar a medida certa

mais velho

capaz de dizer não

bigger than life

super-herói

cavaleiro de capa e espada

capaz de caçar encontrar Moby Dick

bom a arranjar tempo

Mickey Rourke em 9 ½ weeks

Daniel Day-Lewis em The unbearable lightness of being

Marlon Brando em On the Waterfront

garimpeiro

fabricante de obras-primas

tanta coisa ao mesmo tempo

mas o que eu gostava mesmo era

 

 

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publicado por Carlos M. J. Alves às 12:10

III Perdoar ou não perdoar?

Segunda-feira, 23.04.12

[Lista (provisória) de imperdoáveis]

 

Perdoar ou guardar rancor?

Desculpar ou levar a mal?

Dar a outra face ou oferecer as costas da mão?

“Paciência”, “não faz mal”, “fica para a próxima” ou “cá se fazem, cá se pagam”?

Favas contadas ou vingança servida fria?

Um D. Corleone vingativo, um Tony Soprano pronto a fazer estragos ou Dalai Lama perdoando a ocupação do Tibete?

 

NÃO PERDOO

os ataques às Torres Gémeas

subsídios anulados

ordenados cortados

feriados ao fim-de-semana

finais desperdiçadas

fazerem-se à falta

derrotas consentidas

pontos mal perdidos

críticos que parecia que tinham lido a obra

realizadores que fazem filmes que não são para serem vistos

escritores com livros que prometem até ao fim

intelectuais que se armam

liberais fundamentalistas

chatos que metem conversa

engraçados sem sentido de humor

gente que se deixa comprar

que não se importava de vender

que gosta de aparecer

subsídios para os amigos

cargos para os conhecidos

uma mão lava a outra

previsões que não se confirmam

promessas que não se cumprem

desculpas que não se evitaram

sugestões desnecessárias

reparos despropositados

pratos que não ficaram iguais ao livro de receitas

médicos que vão chegar atrasados

que, afinal, vão ter que desmarcar

consensos impostos

bem intencionados

políticos que dão impressão de serem diferentes

fico-lhe  a dever…

não faz mal, pois não?

posso ajudar?

vizinhos que acordam cedo ao domingo

que lavam o carro à frente do prédio

voluntários para ajudarem na manobra

impacientes na fila de atendimento

automobilistas nervosos

shampoos que, afinal, ardem nos olhos

iogurtes quase sem pedaços

rotinas que são vidas

destinos que no folheto eram de sonho

rodeios glico-doces

detergentes que não tiram nódoas

promoções que saem mais caras

descontos que são só no caso de…

períodos de carência

exigências de fidelização

doses que, afinal, só dão para um

chuva nas férias

anúncios de higiene íntima

máquinas de barbear que parecia que cortavam à primeira passagem

calças que, bem vistas as coisas, ao contrário do que dizia o anúncio precisam de um rabo bem feito para assentarem na perfeição

não ser o quinto zepellin

        …

Não me levem a mal.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 20:19

III Russos, só depois do meio-dia

Domingo, 22.04.12

[Notas para um perfil]

 

Se a literatura for alimento (para a alma?), então eu sou um bom garfo. Nada se aproxima a um magnífico naco de prosa. Uma boa talhada de páginas. Finalizada com um majestoso cubano. Um Guillermo Cabrera Infante, Raúl Rivero ou Reinaldo Arenas.

   Mal pressinto o cheiro a refogado letrado e as papilas literárias despertas antecipam, prontamente, um Carré de borrego com molho de frutos vermelhos e creme de alho francês, género Enrique Vila-Matas. Ou uma mousse de Chocolate e gengibre à base de Philip Roth para rematar. Faço, imediatamente, reserva vitalícia.

  Evito acidentes culinários. Ou pratos undercooked. Sei que há pessoas que resistem a anos de dieta leve de Margarida Rebelo Pinto. Mas, literariamente tagarelando, aprecio comida condimentada. Nada me satisfaz mais do que uma boa tragédia grega. O que há de melhor do que a morte dos dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinices, para despertar sabores? Ainda Creonte não galgou degraus bastantes na subida até ao poder e o meu palato já está em frenesim. Menos que isso, nem se aproxima de uma Salada César.

  O meu estômago ressente-se. Claro! A minha saúde anda por um fio. É como degustar uma cabidela às dez da manhã ou uma feijoada e um cozido à portuguesa, bem servido, às onze.

É ouvi-lo a clamar: «socorro, estou a arder!». 

   Ainda assim, não desdenho. E bom mesmo é um dramalhão, daqueles de fazer inveja a Daniel Oliveira nas entrevistas da SIC, servido numa redacção exemplar. Porque os olhos também merendam.

Literatura russa, obviamente. Ooh La La! Quelle merveille!

E nada de Morangoska deslavada para ficar com um gostinho.

   Há quem diga que nas letras, resplendecem os finais de Tchekhov e os de Shakespeare. Nos do inglês, as pessoas acabam mortas. Nos de Tchekhov, deprimidas, amarguradas, mas respirando. Sempre faz menos mal!

   Não me lembro da abertura oficial feita por Brejnev. Provavelmente a única coisa que recordo dos XXII Jogos Olímpicos (os de Moscovo) de 1980 é o urso Misha. Nem nunca estive embevecido pelos êxitos da Soyuz. Mas, a partir de certa altura, troquei Enid Blyton por Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov.

   Foi aí que tudo começou. Comecei a associar "slova" a palavra e "pisat'" a escrever.

Apesar disso, percebo que se evite Gógol, Púchkin, Liérmontov e Turguêniev antes do meio-dia.

São impensáveis de estômago vazio.

Ninguém aguenta niilismo logo pela manhã.

Guerra e Paz, Crime e Castigo ou Anna Karenina em jejum matinal deixam uma sensação incómoda. O mesmo se diga para O Diário de Um Louco de Gógol.

Mas reconheço a minha hesitação, mal começo a ler:

 

No vasto edifício do Palácio da Justiça, o procurador e os membros do tribunal reuniram-se, durante a suspensão da audiência do processo Melvinsky, no gabinete de Ivan Egorovitch Schebeck;

 

Esqueço-me, automaticamente, do mal que faz para me concentrar no bem que sabe. Mal a tradução de Adolfo Casais Monteiro de A morte de Ivan Ilitch de Tolstoi começa a fazer efeito, fico deliciado.

   A literatura russa tem para mim estatuto de menu completo. E os autores equiparáveis a Gordon Ramsay e Jamie Oliver.

Menos do que isso sabe-me a requentado. Não há estômago que resista. Uma azia desvairada cresce por mim. Perpétua.

   Bem, tanta conversa abriu-me o apetite!

O que temos hoje?

Já me cheira a Ziti Al Forno.

Está-me, mesmo, a apetecer um Máximo Gorki.

Estou a ficar com uma fraquezazita.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:00

III Britpop junkie

Domingo, 15.04.12

[Notas para um perfil]


Sing along with the common people,

sing along and it might just get you through,

laugh along with the common people,

laugh along even though they're laughing at you,

and the stupid things that you do.

 

Pulp, Common People, Different Class.

 

Olá! Sou um Britpop junkie. E digo-o com orgulho. Sem rodeios. Ponham-se no meu lugar: The Divine Comedy, The Charlatans, Inspiral Carpets, The Jesus and Mary Chain, The Stone Roses, Paul Weller, Radiohead… Com um único senão, os irmãos Gallagher: Oasis.

Um Take Away magnífico. Inesgotável. Auto-suficiente.

Percebo-o sempre que sinto algo do género Shaun Ryder Blues:


Yippee-ippee-ey-ey-ay-yey-yey
I had to crucify somebody today

[Kinky Afro - Happy Mondays]


Reconheço, imediatamente, os sintomas: Britpop hangover.

Basta-me ouvir Bobby Gillespie entoando Rocks [Primal Scream, Give Out But Don't Give Up] para me dar conta.

Ou Tim Booth confessando Born of Frustration [James, Seven].

Tenho espírito saxão. Não tenho dúvidas. Visto a Union Jack.

Cabelo à Ian Mcculloch. Com fases rapadas à Housemartins. Atitude Robert Smith.

Um inglês comum. Passeando no Soho. Arranjando Bootlegs em Notting Hill. Regurgitando Fish & chips. O gatilho mais leve para fazer valer a verdadeira Pop.

Que não hajam equívocos: o paraíso tem selecção feita por John Peel. Bach não conta.

   Sou um Britpop junkie. Há anos arriscando a overdose. Décadas. Dazed and confused. Organismo saturado de acordes made in Great Britain. Harmonias envoltas em english smog. Feliz com a(os) New Order.

Vivo para o:

            Hello Bristol Academy!

Ou Knebworth.

Tenho rendas em atraso em Madchaster. Com contratos assinados a sangue. Crédito para mais London Suede.

Sou um Britpop addict. Capaz do assalto a Buckingham. Apto para tomar a Torre de Londres.

Ando há anos disponível para hang the dj, hang the dj [Panic, The Smiths].

   Sou um Britpop junkie. Estou consciente da minha situação. Mas não procuro a salvação. Não há degraus, nem passos a ter em consideração. Estou condenado. Eternamente. No future, Mr. Johnny Rotten.

Entre pints no pub, com Damon Albarn aprendi que Modern Life is Rubbish [Blur, 1993].

Com Ian Curtis que Love will tear us apart [Joy Division, 1979].

Só isso já é muito. Uma grande conta, está bom de ver.

   O meu contributo?

Take my wisdom and make it yours.

Citando Shaun Ryder:

 Hallelujah!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:00









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