Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


III Procrastinar é para todos!

Sábado, 22.09.12

Dou a minha palavra quanto a tentar mudar. Empenho-me na minha remodelação interior. Garanto que me esforço mas, em caso de necessidade, remeto para depois e vou à minha vida. Tenho mais que fazer. Não estou para pressas.

   Em situação de urgência, adio. Em contexto de indecisão, admito o mais prazenteiro. Em encruzilhada, opto pelo caminho menos íngreme.

    Globalmente, mandrio na preparação e hesito na deliberação.

Troco as horas, adianto ou atraso os ponteiros a meu bel-prazer, para minha conveniência.

Mando para trás das costas ou atiro para a gaveta e fico à espera da morte da bezerra.

   Reconheço que demoro a aquecer, a entusiasmar, a seleccionar a abordagem. Temo a precipitação. Esconjuro-a.

Troco de posição e volto atrás.

Deixo para mais tarde ou em pousio o que era para agora ou, simplesmente, escondo, infantilmente, debaixo do tapete.

Vou em conversas e esqueço o mais importante, confundindo prioridades.

    Sou um especialista genuíno em atenuantes e adiamentos. Um profissional autêntico. Não é de agora, tenho até muito tempo investido.

Invento desculpas, razões, coisas melhores para fazer e sou peremptório: “Não me dá jeito!”.

Preguiço, frequentemente (Nisso sou uma máquina.Preguiçosa, claro!).

Dedico-me, facilmente, a outra coisa.

Canso-me e dou um tempo.

Apelo à minha vontade, peço forças mas digo: “um destes dias”.

Desinteresso-me e acabo na sesta.

Não vejo necessidade ou razão para o contrário.

Desmarco e ponho-me ao fresco.

Suspendo.

Reagendo.

Justifico.

Desresponsabilizo-me.

Atraso.

Relaxo-me.

Entretenho.

Procrastino. Sou fraco!

   Procrastinar é algo que se mete pelo meio, é  não cumprir um dever, ter um livro para ler e não o fazer, uma coisa que substitui outra é empatar: cafés de vida ou morte, conversas inadiáveis, dores de cabeça ou barriga súbitas, ânsias de leitura e apetites vários, exibições de último episódio, cartazes de saída, peças a sair de cena, solicitações, devaneios mais o apelo da boa vida. 

   Procrastinar é um alívio. Desapertar para ficar mais à vontade. É não desistir da ideia mas, optando por lhe dar um tempo. E, acima de tudo, é de quem anda à procura de desculpas.

   Para os descrentes é considerada a opção mais fácil, mas é uma saída de emergência para quando tudo o resto falhou, o cerco começa a apertar e não há hipótese de fuga.

   Um procrastinador reconhece-se. Um procrastinador não engana. Denuncia-se. Dá indícios claros de que vai ficar pelo caminho. Embarrila. Não ludibria, equivoca-se. Tem semblante de quem retarda. Arrasta-se. Deixa-se topar.

   Um procrastinador não dá garantias. Diz que não tem tempo e fica, eternamente, a fazer planos. Baralha relevâncias. Troca: o estudo pelo lazer, o trabalho pelo ócio, o compromisso pelo adiamento, o importante pelo que sabe melhor. É a minha cara. Sou fácil de reconhecer. Estou há anos prestes a embarcar no Sud Express. Três viagens à volta do mundo aquém do desejável. Sou aquele com dez volumes debaixo do braço a precisarem de atenção desde a administração Reagan.

   Procrastinar é um: "hoje não me apetece, amanhã logo se vê!".

Mas, também, é esperar por melhor. Pôr à frente ou deixar de lado para retomar quando as condições forem mais aprazíveis.

Ficar à espera de melhor oportunidade, de apetecer, de ter ganas.

É um não comprometimento, um arrependimento, uma hesitação. Um: "não já!".

É protelar. Ficar para trás.

   Procrastinar colhe simpatias em toda a parte, embora seja contraproducente. Não produz ou tudo demora mais tempo. Não se põe ao caminho. Procrastinar não deixa obra. É mais do domínio da invisibilidade e do vazio.

Mas, há um reconhecimento mútuo e global. Um procrastinador, facilmente, identifica outro. Há uma espécie de irmandade democrática, sem tempo próprio mas, esperando pelo dia de ontem, a que, pelo menos uma vez na vida, todos já pertenceram. Quem nunca procrastinou?

   Sem mais delongas, procrastinar para mim é uma inevitabilidade, uma necessidade. 

Porquê?

Isso explico logo. Ou quando calhar.


Outras leituras sobre o assunto: The Thief of Time: Philosophical Essays on Procrastination
                                                   Chrisoula Andreou (Editor), Mark D. White (Editor)

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por Carlos M. J. Alves às 14:06

III Quatro estações?

Sábado, 31.03.12

Deve ser a minha índole do contra a pesar, mas embora o nariz ande temeroso do lado de fora dos cobertores, como um periscópio, procurando climas temperados, estava-me mesmo a apetecer uns diazinhos de praia.

Mas, a minha vizinha (sim, eu sei, a vizinha está para a crónica como a morte de um familiar está para a justificação de faltas) que pelas dimensões parece carregar uma Amozónia nas sobrancelhas frondosas, já me disse para eu não fazer muita conta com isso. «Está-se mesmo a ver que o tempo vai mudar», prognosticou em tom apocalíptico de Nostradamus (ainda vou a tempo de pedir desculpa pela falta de originalidade?). «A chuva faz muita falta. É de ouro», acrescentou. Por ela as reservas do Banco de Portugal aumentavam a pingos grossos de chuva. De qualquer maneira, acertou no vaticínio. Por mim fazia-a governadora do Banco de Portugal. Mal não havia de fazer!

O tempo que lhe sobra de se dedicar ao marido que está no seguro devido a um acidente que envolveu um condutor (ainda a monte) que sobrepôs o ego ao código da estrada (confundindo as prioridades) e aos dois filhos (diferentes embora o método usado tenha sido o mesmo) permite-lhe pensar nessas coisas. Confio.

   A minha amiga Martha Stewart (a minha vizinha) acha que «isto nunca mais ficou igual desde que os americanos foram à lua». Como se os astronautas tivessem tocado em algo que não deviam, carregando no botão de um comando qualquer e agora toda a gente só apanhasse o segundo canal. Embora a gravidade (que os astronautas sentem de maneira diferente) em si não a atraia para o centro da terra mas para cima, subindo corpo acima a partir dumas pernas magras até atingir um tronco largo de sequóia com mil e quinhentos anos.

Devido ao seu cuidado já me precavi. Tudo me leva a acreditar que sabe do que fala. Não sem antes, num ataque de fúria me ir aos desodorizantes (não me esqueço do buraco do ozono) e os atirar borda-fora, culpando-os pelo estado das coisas.

   No que respeita ao tempo já nem a chegada das andorinhas confirma o início da primavera, nem as gaivotas em terra são, obrigatoriamente, sinal de água. Em termos meteorológicos até os bichos nos trocam as voltas. Só as articulações vão dando algumas garantias.

    Em relação à natureza do tempo, a única coisa que não mudou foi continuar a ser um óptimo desbloqueador de conversa.

Graças às mudanças, são as calotas a derreter, as matas a arder (a minha vizinha diz, com as sobrancelhas em sobressalto, que já nem deve haver muito para arder). E há a seca. As albufeiras a não sei quanto da capacidade. E nada está como dantes no quartel de Abrantes. «Vamos pagar isto tudo bem caro», diz a minha vizinha, não perdoando aos astronautas americanos. Especialmente quando me ouve a desejar calor fora de época. Como se quem gostasse dele fosse uma espécie de adorador do sol, inconsciente. Mas não ela, que não gosta de temperaturas anormais para a época. Logo ela que até prefere ficar no borralho, de pantufinha calçada, cuidando do marido atropelado e tisana aquecida a ouvir a chuva a bater na vidraça (no tempo dela). E, claro, a sorver o cheiro a terra molhada que é coisa que para ela é um regalo.

E a gente começa a sentir-se mal quando a escuta. Olhamos para a esplanada e solidários não queremos pertencer a um movimento contra-natura dos que aproveitam calores fora-de-época à sombra (numa altura em que ela não devia fazer falta) retemperando-nos à base de refrescos de cevada. Pelos vistos os remorsos até os tremoços atacam, porque nos começam a saber mal. E repetimos como um mantra «isto não é tempo para a época, isto não é tempo para a época». E fugimos da provocação climatérica quando já se fazia horas de um gin tónico. Cabisbaixos. Envergonhados por estarmos a beneficiar do buraco do ozono. Caminhamos para casa, enregelados a cada passada e preparados para um cacau quente que noutro tempo ainda vinha mesmo a calhar nesta altura, porque durante a noite sempre arrefece.

Para compensar abrimos o frigorífico e tiramos uma peça de fruta, produzida em estufa, que só deveria aparecer dali a dez meses. E lembramo-nos da vizinha vaticinando: «no tempo ninguém manda». E arrependidos, sentimo-nos burgueses sem preocupações ecológicas. Ricos desejando verão de inverno para a nossa Riviera. E ficamos satisfeitos com essa evidência. Achando que nem com o tempo se pode contar.

    Em relação aos meus diazinhos de praia, nada feito. Paciência! Por mim as sobrancelhas da minha vizinha têm garantido um aguaceiro. Não há cá sol na eira e chuva no nabal.

   Infelizmente não estão previstos lançamentos espaciais para os próximos meses. Sempre podia mudar alguma coisa. Pelo sim pelo não começamos em contagem decrescente, como se estivesse em Cabo Canaveral: 10, 9,8, 7… de tolha de praia, pronta, na mão.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos M. J. Alves às 15:04





arquivos

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D





pesquisar

Pesquisar no Blog  



comentários recentes

  • numadeletra

    Dramas balneares :-)

  • Maria

    Que delícia!!!

  • Sandra

    :) Se descobrires como se treina esse optimismo , ...

  • LWillow

    Dietas 'é uma coisa que não me assiste' e assim s...

  • LWillow

    http://www.youtube.com/watch?v=BV-dOF7yFTw

  • LWillow

    ehehehe! 'tamos nessa' 'brother' ! Mais um bom tex...

  • LWillow

    Thanks ! this reading was a pleasure !

  • Anónimo

    Aperta faneca! Vamos a Estocolmo sacar o guito! Su...

  • Lwillow

    Ora aqui está mais uma 'pérola para porcos' ! O mo...

  • LWillow

    Como eu te percebo ! Mas ... 'não há volta a dar-l...


subscrever feeds