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III "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?"*

Quarta-feira, 17.10.12

8.00 A.M.

Manhã chuvosa. Humidade ao rubro e temperatura incoerente. Transeuntes disputando, enérgicos, de galochas e gabardinas tímidas, os mil e quinhentos metros poças de água, até à meta na paragem mais próxima.

   A situação é dramática: óleo salubrificado, motor submergido, gasolina com octanas impotentes, sistema eléctrico alagado e cavalos-força abaixo da possibilidade de arranque.

   Infelizmente nada se estranha e a evidência da possibilidade de ocorrência há muito que se entranhou. E dissuada-se o mais incrédulo dos incrédulos de que o exposto na descrição resvala para a coincidência da semelhança com a realidade e não com a dita propriamente.

   Como não quero ferir susceptibilidades, não vou indicar marca, modelo, nem cilindrada. Até porque penso que não é por aí que se encontra a explicação para a falta de fogosidade, mas antes os tendões por um fio, os músculos exaustos, remando além das possibilidades e periferias à beira de um ataque de nervos. A cor, que nada tem a ver com o problema, é a do luto, embora o nosso relacionamento seja mais de missa do sétimo dia ou toque de finados.

   Estou consciente de que o meu carro, cuja longevidade se perde no tempo, pode incorrer em morte súbita ou enfarte ao nível da junta da cabeça. A situação é mais premente em despertares matutinos molhados como o de hoje, em que a sua colaboração não é evidente por culpa da sua alma motorizada ensopada, a qual acarreta uma combustão divagante.

    A pintura com a epiderme em equimose alastrante dissuade o furto, mas compreendo que a sua idade provecta anterior ao telégrafo é terrível para os carburadores e os quilómetros incluídos no mostrador foram derretendo os centros nevrálgicos automobilísticos.

    Sem inspeções a creditar, seguros disponíveis e pneus pressurizados de fresco, percebo que humidades acumuladas de noites passadas ao relento, degenerescências múltiplas e séculos de maus tratos ao nível da violência doméstica me obrigam a cuidados paliativos constantes e dispendiosos, bem como atrasos frequentes.

    A ruptura é eminente e o ponto morto definitivo uma inevitabilidade. De um momento para o outro, aquele a que de uma perspectiva optimista considero um chaço pode ficar-me nas mãos, soluçando num findar agonizante numa qualquer rotunda nacional ante as buzinadelas cacofónicas insensíveis dos companheiros mais saudáveis e jovens, circulando altivos, com desempenho inflacionado, alheios à sua exaustão final.

Enquanto não chega a extrema-unção, continuo de pessimismo embaciado, jogando com as probabilidades, a arriscar no seu ímpeto epiléptico e poderio desvitalizado, fiando-me na sua capacidade mínima para vencer as distâncias e me levar ao destino.

   A razão porque falo nisto é para saberem que se um destes dias não me encontrarem por aqui posso estar com ele nas urgências, consigo encomendando a alma ao criador.

 

* Apesar de ter, modestamente, consciência da improbabilidade da confusão, só o título é de António Lobo Antunes. Com o pagamento respectivo e devido em aspas efectuado. O seu a seu dono.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:57

III Um dia nas corridas

Quarta-feira, 26.09.12

Conduzir não devia ser para todos. Conduzir faz soltar a franga. Impacienta. Violenta. Transforma a dona de casa pacífica a caminho das compras, num bombista sem escrúpulos. O Nobel da paz no Inimigo Público número um. Torna irreconhecível. Conduzir não devia ser para todos. Devia ser selectivo. Com direito de admissão. Ser preciso ganhar vez. Só para quem continuasse igual ao que era antes de entrar no carro.

  Ao volante acabam as indecisões, os modos, a paciência. Vale tudo. O pigmeu agiganta-se. O pacifista radicaliza-se. Somos leões esperando a presa desidratada para lhe dar uma coça quando aparecer para beber água.

  O trânsito torna irreconhecível. Tudo serve de pretexto para a mudança: o fluxo, as obras inesperadas e respectivas alterações, o estado do asfalto, as aselhices de terceiros, as passadeiras.

  A passadeira é um empecilho no percurso dos aceleras. Um tracejado proibitivo.

  Uma passadeira é um farol controlando passagens prioritárias. Um vórtice no local certo, sugando para a segurança. Protege. Dá abrigo.

Exige respeito e pressupõe ser acatada. É uma autoridade silenciosa.

  O problema da passadeira é que a passagem a certas horas do dia ganha contornos de corrida automobilística. Pais com crianças pela mão a caminho do infantário, saindo das escuderias escolares e equipas rivais versus condutores empenhadas em conseguir o melhor tempo de chegada ao emprego, conquistando pontos extra, precisamente, na renúncia à paragem na passadeira.

  O desrespeitador-de-passadeiras é assanhado. Não se intimida. Olha para o lado quando a vê. Desmerece-a. Desconsidera-a. Ridiculariza-a. Pergunta sarcástico: "Ah, estavas aí?". Investe sobre ela, planando acima dos limites, quando devia parar. Acelera em altura da travagem intuitiva e necessária. Prefere o viaduto e só reconhece o agente de autoridade.

Um apressado que conduz como quem rouba Helena. A caminho da fuga para a vitória. 

Não está para cumprir ordens. É mimado, birrento e faz como lhe apetece. Finge não perceber: "Ah, era para parar?".

Adultera prioridades. Põe-se à frente. Fica com a vez do peão.

  O desrespeitador-de-passadeiras é um Buck Rogers queimando atmosferas enquanto reentra em territórios alheios. Capaz de cortar gargantas pela prioridade, deixando para trás mulheres indignadas, esbracejando como Kali

Um cavaleiro do asfalto usando psicologicamente um capacete com marcas de óleos e pneus como um elmo velocipédico. Ávido por chegar, rapidamente, a Camelot.

Para ele  uma passadeira é uma meta instigando um confronto interior: "Consigo chegar antes dele, consigo chegar antes dele!". O "ele", o peão, em caso de vitória própria tomba, invariavelmente, sobre a zebra ante o impacto da derrota do condutor, que tendo chegado em simultâneo fez embater sobre o oponente o chassi da sua derrota.

Para si uma passadeira é uma provocação. Um perigo. Um atiçador de predadores da velocidade. É um fruto proibido.

É uma zona segura a saque. Um porto de abrigo, transformado em Pearl Harbour sob ataque cerrado.

Por sua causa, a passadeira mata quando era suposto salvar. Convida a acelerar quando devia fazer parar. 

  O desrespeitador-de-passadeiras tem pressa. Sempre. Mesmo quando não tem. Não se obriga a parar. Não percebe porque tem de o fazer. Teme a imobilidade. Distingue-se em tudo do peão.

O peão é vagaroso. Atrapalha. É um caracol sem a casa às costas.

  Ao primeiro contacto com a passadeira dá-se no desrespeitador uma inversão: "Ah, ele é suposto fazer isso, então faço assado!".

Dá-se ares de Schumacher sem regras para cumprir, sofrendo de um daltonismo especial para listas. Não segue convenções. Não cumpre códigos. Age sob a égide do ronco do motor poderoso, conquistando espaço, cavalo a cavalo, forçando a circulação.

Não liga, não repara, desobriga-se. Subjuga, arrasa, perdoa-se, justifica-se. É implacável. Nada o detém. Leva tudo à frente. Faz jejum ao que deve ser. Conduz para a vitória.

A esperança de o travar reside, unicamente, no vermelho do semáforo ou na obrigação de parar para reabastecimento.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 16:31





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